Capítulo 1
1Parábolas de Salomão, filho de Davi, rei de Israel.
2Para se aprender a Sabedoria, e a disciplina:[1]DISCIPLINA — Esta palavra é repetida frequentes vezes neste livro, e significa os conhecimentos especulativos, as instruções e admoestações atinentes a corrigir os defeitos e formar os corações dos jovens.
3Para se entenderem as palavras da prudência: E receber a instrução da doutrina, a justiça, e o juízo, e a equidade:
4A fim de se dar aos pequeninos astúcia, ciência, e entendimento ao mancebo.[2]A FIM DE SE DAR AOS PEQUENINOS ASTÚCIA — Toma-se aqui astúcia em boa parte por esperteza, discrição, discernimento, para conhecer e evitar qualquer engano. Pelos "pequeninos" se entendem os símplices, e como lhes chama o apóstolo 1 Cor 14, 20, "meninos no pensar"; pelos "mancebos", aqueles que têm já feito progressos na virtude, ou verdadeira ciência.
5O sábio ouvindo-as, ficará mais sábio: E entendendo-as, possuirá o leme.
6Atinará com a parábola, e sua interpretação, com as palavras dos sábios, e seus enigmas.
7O temor do Senhor é o princípio da sabedoria. Os insensatos desprezam a sabedoria, e a doutrina.[3]INSENSATOS — Stulti; sob este nome a Escritura designa muitas vezes os maus.
8Ouve, filho meu, a instrução de teu pai, e não largues a lei de tua mãe;
9Para se acrescentar engraçado adorno à tua cabeça, e um colar ao teu pescoço.[4]ENGRAÇADO ADÔRNO — Isto é, uma coroa. Os orientais comparam muitas vezes as palavras dos sábios às pérolas e ornamentos preciosos, pois que exornam e tornam resplandecente o espírito do homem.
10Filho meu, se os pecadores te atraírem com os afagos, não condescendas com êles.
11Se te disserem: Vem conosco, façamos emboscadas para derramar sangue, armemos laços ocultos ao inocente, que nos não fêz mal algum:
12Devoremo-lo vivo como o inferno, e inteiro como ao que dá consigo no calabouço.[5]COMO O INFERNO — Faz-se aqui, segundo parece, alusão ao sucesso de Datã e Abirão, relatado já no livro dos Núm 16. O sheol, lugar onde estavam as almas dos justos.
13Nisto acharemos tôda a sorte de bens preciosos, encheremos as nossas casas de despojos.
14Deita conosco a tua sorte, seja uma só a bôlsa de nós todos.
15Filho meu, não vás com êles, guarda-te de andar pelas suas veredas.
16Porque os seus pés correm para o mal, e se dão pressa a derramar sangue.
17Mas debalde se lança a rêde diante dos olhos dos que têm asas.
18Êles mesmos também fazem traições contra o seu próprio sangue, e tramam enganos para ruína de suas almas.
19Tais são os caminhos de todos os avarentos, êles surpreendem as almas dos que estão possuídos desta paixão.
20A sabedoria ensina de fora, nas praças dá suas vozes:
21Ela grita de contínuo à testa dos ajuntamentos do povo, à entrada das portas da cidade profere as suas palavras, dizendo:
22Até quando amareis, ó crianças, a infância, e os insensatos cobiçarão as coisas que lhes são nocivas, e os imprudentes aborrecerão a ciência?
23Convertei-vos à minha correção: Eis-aqui vou eu a propor-vos já o meu espírito, e a intimar-vos as minhas palavras.
24Porque eu vos chamei, e vós não quisestes ouvir-me: Estendi a minha mão, e não houve quem olhasse para mim.
25Desprezastes todos os meus conselhos, e não fizestes caso das minhas repreensões.
26Pois eu me rirei também na vossa morte, e zombarei de vós, quando vos suceder o que temíeis.
27Quando vos assaltar a calamidade repentina, e colhêr a morte como um temporal: Quando vier sôbre vós atribulação e angústia:
28Então me invocarão êles, e eu não os ouvirei: Levantar-se-ão de madrugada, e não me acharão:[6]LEVANTAR-SE-ÃO DE MADRUGADA — É este um hebraísmo, que significa fazer as mais agonizadas instâncias, e os maiores esforços para chegar ao fim que se pretende.
29Pois que êles aborreceram as instruções, e não abraçaram o temor do Senhor,
30nem se submeteram ao meu conselho e desacreditaram tôda a minha repreensão.
31Comerão pois os frutos do seu caminho, e fartar-se-ão dos seus conselhos.
32A aversão dos meninos os matará, e a prosperidade dos insensatos os virá a perder.[7]A AVERSÃO DOS MENINOS — A aversão que os meninos (que não conhecem o que lhes é proveitoso) têm ao tomar os meus conselhos. De Carrières. Também se toma na acepção do afastamento do caminho da ciência e da virtude, e é este o sentido do hebreu. Jeremias serve-se de idêntica expressão para designar o afastamento de Deus. Jer 2, 12; 3, 22; 6, 6.
33Mas aquêle que me ouvir, descansará sem terror, e gozará da abundância de bens sem receio de mal algum.