Pe. Figueiredo (1950)

Capítulo 1

Desenho dêste livro. Tomar o ensino. Fugir da companhia dos maus. Ouvir a voz da sabedoria.

1Parábolas de Salomão, filho de Davi, rei de Israel.

2Para se aprender a Sabedoria, e a disciplina:[1]DISCIPLINAEsta palavra é repetida frequentes vezes neste livro, e significa os conhecimentos especulativos, as instruções e admoestações atinentes a corrigir os defeitos e formar os corações dos jovens.

3Para se entenderem as palavras da prudência: E receber a instrução da doutrina, a justiça, e o juízo, e a equidade:

4A fim de se dar aos pequeninos astúcia, ciência, e entendimento ao mancebo.[2]A FIM DE SE DAR AOS PEQUENINOS ASTÚCIAToma-se aqui astúcia em boa parte por esperteza, discrição, discernimento, para conhecer e evitar qualquer engano. Pelos "pequeninos" se entendem os símplices, e como lhes chama o apóstolo 1 Cor 14, 20, "meninos no pensar"; pelos "mancebos", aqueles que têm já feito progressos na virtude, ou verdadeira ciência.

5O sábio ouvindo-as, ficará mais sábio: E entendendo-as, possuirá o leme.

6Atinará com a parábola, e sua interpretação, com as palavras dos sábios, e seus enigmas.

7O temor do Senhor é o princípio da sabedoria. Os insensatos desprezam a sabedoria, e a doutrina.[3]INSENSATOSStulti; sob este nome a Escritura designa muitas vezes os maus.

8Ouve, filho meu, a instrução de teu pai, e não largues a lei de tua mãe;

9Para se acrescentar engraçado adorno à tua cabeça, e um colar ao teu pescoço.[4]ENGRAÇADO ADÔRNOIsto é, uma coroa. Os orientais comparam muitas vezes as palavras dos sábios às pérolas e ornamentos preciosos, pois que exornam e tornam resplandecente o espírito do homem.

10Filho meu, se os pecadores te atraírem com os afagos, não condescendas com êles.

11Se te disserem: Vem conosco, façamos emboscadas para derramar sangue, armemos laços ocultos ao inocente, que nos não fêz mal algum:

12Devoremo-lo vivo como o inferno, e inteiro como ao que dá consigo no calabouço.[5]COMO O INFERNOFaz-se aqui, segundo parece, alusão ao sucesso de Datã e Abirão, relatado já no livro dos Núm 16. O sheol, lugar onde estavam as almas dos justos.

13Nisto acharemos tôda a sorte de bens preciosos, encheremos as nossas casas de despojos.

14Deita conosco a tua sorte, seja uma só a bôlsa de nós todos.

15Filho meu, não vás com êles, guarda-te de andar pelas suas veredas.

16Porque os seus pés correm para o mal, e se dão pressa a derramar sangue.

17Mas debalde se lança a rêde diante dos olhos dos que têm asas.

18Êles mesmos também fazem traições contra o seu próprio sangue, e tramam enganos para ruína de suas almas.

19Tais são os caminhos de todos os avarentos, êles surpreendem as almas dos que estão possuídos desta paixão.

20A sabedoria ensina de fora, nas praças dá suas vozes:

21Ela grita de contínuo à testa dos ajuntamentos do povo, à entrada das portas da cidade profere as suas palavras, dizendo:

22Até quando amareis, ó crianças, a infância, e os insensatos cobiçarão as coisas que lhes são nocivas, e os imprudentes aborrecerão a ciência?

23Convertei-vos à minha correção: Eis-aqui vou eu a propor-vos já o meu espírito, e a intimar-vos as minhas palavras.

24Porque eu vos chamei, e vós não quisestes ouvir-me: Estendi a minha mão, e não houve quem olhasse para mim.

25Desprezastes todos os meus conselhos, e não fizestes caso das minhas repreensões.

26Pois eu me rirei também na vossa morte, e zombarei de vós, quando vos suceder o que temíeis.

27Quando vos assaltar a calamidade repentina, e colhêr a morte como um temporal: Quando vier sôbre vós atribulação e angústia:

28Então me invocarão êles, e eu não os ouvirei: Levantar-se-ão de madrugada, e não me acharão:[6]LEVANTAR-SE-ÃO DE MADRUGADAÉ este um hebraísmo, que significa fazer as mais agonizadas instâncias, e os maiores esforços para chegar ao fim que se pretende.

29Pois que êles aborreceram as instruções, e não abraçaram o temor do Senhor,

30nem se submeteram ao meu conselho e desacreditaram tôda a minha repreensão.

31Comerão pois os frutos do seu caminho, e fartar-se-ão dos seus conselhos.

32A aversão dos meninos os matará, e a prosperidade dos insensatos os virá a perder.[7]A AVERSÃO DOS MENINOSA aversão que os meninos (que não conhecem o que lhes é proveitoso) têm ao tomar os meus conselhos. De Carrières. Também se toma na acepção do afastamento do caminho da ciência e da virtude, e é este o sentido do hebreu. Jeremias serve-se de idêntica expressão para designar o afastamento de Deus. Jer 2, 12; 3, 22; 6, 6.

33Mas aquêle que me ouvir, descansará sem terror, e gozará da abundância de bens sem receio de mal algum.

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Nome do livro. — Os hebreus, denominando os livros pela palavra inicial, conheciam êste pela designação de Mischlé, têrmo derivado de maschal, que significa semelhança, comparação, e por extensão máxima, e também, embora mais raras vêzes, provérbio, também alegoria ou parábola, e ainda cânto irónico. Os primeiros cristãos adotaram a denominação dos Setenta, a que corresponde o latim Proverbia. Autor. — Segundo o que se deduz da análise do próprio livro, o autor é Salomão. Prov 1, 1; 10, 1; 25, 1 e ainda o 3 Rs 4, 32, Locutus est quoque Salomon tria millia parabolas (maschal). A origem salomônica de todos os provérbios é confirmada pela uniformidade do estilo e por nada se encontrar que não convenha a Salomão. É certo que acêrca dos capítulos 30 e 31 pode haver dúvida, pois são uns apêndices que têm respectivamente os nomes de Agur, filho de Jaqué e Lamuel, não faltando porém intérpretes que entendem que êstes mesmos nomes se referem a Salomão. Texto original e versões antigas. — O texto original e as mais antigas versões divergem em certos pontos. Os próprios exemplares hebraicos antigos não são rigorosamente uniformes; nuns faltam e em outros sobejam máximas, que aliás se compreende sem dificuldade, visto a forma como eram feitas as cópias. A mais antiga versão é a dos Setenta, que é mais livre do que literal, o que explica também certas variantes. Data do livro dos Provérbios. — A questão da data do livro na sua forma atual é diferente da do autor. A inscrição da segunda coleção dos Provérbios, 25, 1, prova que esta parte foi compilada no tempo de Ezequias, entre 725 e 696 antes de Cristo. Divisão geral. — O livro dos Provérbios compreende: Introdução (1, 1-6); Primeira parte (1, 7 ao c. 9); Segunda parte (10-24); Terceira parte (25-29); Apêndices (30-31).
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