Pe. Figueiredo (1950)

Capítulo 4

Salomão exorta os homens à sabedoria, como seu pai mesmo o exortou. Guardar a disciplina. Fugir do caminho dos ímpios. Felicidade dos justos, infelicidade dos maus. Guardar o seu coração. Vigiar sôbre a língua. Regular os passos.

1Ouvi, filhos, as instruções de um pai, e estai atentos para conhecerdes a prudência.

2Dar-vos-ei um belo dom, não deixeis a minha lei.[1]DAR-VOS-EI UM BELO DOMO hebreu lê: "Porque excelente doutrina vos tenho dado." Com a Vulgata concordam os Setenta.

3Porque eu fui também filho de meu pai, querido e como unigénito diante de minha mãe:[2]QUERIDONa Vulgata está tenellus, que o P. Pereira traduziu tenrinho; o grego traz obediente; deve depois subentender-se a partícula como, o que sucede frequentemente no estilo bíblico, e que evidentemente está subentendida neste lugar, porque Salomão tem três irmãos (1 Par 3, 5), a não ser que dêem à palavra unigénito a significação de bem amado, como fazem os Setenta.

4E êle me ensinava e dizia: O teu coração receba as minhas palavras, guarda os meus preceitos e viverás.

5Possui a sabedoria, possui a prudência: Não te esqueças, nem te desvies das palavras da minha bôca.

6Nem a largues, e ela te guardará: Ama-a, e ela te conservará.

7Possui tu a sabedoria, que êste é o princípio da mesma sabedoria, e adquire a prudência com tôdas as tuas posses:[3]POSSUI TU A SABEDORIAO hebreu: afanando e adquirindo o dom da sabedoria, mostra nisto mesmo já um princípio de sabedoria, e merece consegui-la; porém o que olha para ela com indiferença, faz-se indigno de a obter e possuir.

8Arrebata-a, e ela te exaltará: Glorificado serás por ela, quando a tiveres abraçado,

9ela derramará sôbre a tua cabeça torrentes de graças, e te cobrirá com uma ínclita coroa.[4]E TE COBRIRÁ COM UMA ÍNCLITA COROAPor esta coroa, que ao mesmo tempo nos cobre e protege como nosso esplendor e defensa, entendem comumente os Padres a caridade; pretendem alguns que até aqui são palavras de Davi repetidas por Salomão.

10Ouve, meu filho, e recebe as minhas palavras, para que se te multipliquem os anos da tua vida.

11Eu te mostrarei o caminho da sabedoria, guiar-te-ei pelas veredas da equidade:

12Nas quais, depois que tiveres entrado, não se estreitarão os teus passos, e correndo não terás tropeço.

13Pega-te bem à disciplina, não a largues: Guarda-a, porque ela é a tua vida.

14Não te deleites nas veredas dos ímpios, nem te agrade o caminho dos maus.

15Foge dêle, e não passes por êle: Desvia-te, e deixa-o:

16Porque êles não dormem, sem terem feito mal: E foge dêles o sono se não tiverem armado alguma sancadilha:

17Êles comem o pão da impiedade e bebem o vinho da iniquidade.

18Mas a vereda dos justos, como luz que resplandece, vai adiante e cresce até o dia perfeito.

19O caminho dos ímpios é tenebroso: Êles não sabem onde vão cair.

20Meu filho, escuta os meus discursos e inclina o teu ouvido para as minhas expressões:

21Elas se não tirem de diante dos teus olhos, conserva-as no meio do teu coração:

22Porque são vida para os que as acham, e saúde para tôda a carne.

23Aplica-te com todo o cuidado possível à guarda do teu coração, porque dêle é que procede a vida.

24Remove de ti a bôca maligna, e estejam longe de ti os lábios que detraem.

25Os teus olhos olhem direitos, e as tuas pálpebras precedam os teus passos.

26Dirige a vereda em que pões os teus pés, e todos os teus caminhos serão firmes.

27Não declines nem para a direita nem para a esquerda: Retira o teu pé do mal: Porque o Senhor conhece os caminhos, que estão à direita: E os que estão à esquerda são uns caminhos de perdição. Mas êle mesmo endireitará as tuas carreiras, e guiando prolongará em paz os teus caminhos.[5]NÃO DECLINESConsiste num meio a virtude, apartando-se dos extremos. O caminho à direita é o de Deus, que se opõe à injustiça, mas ainda neste mesmo caminho de Deus é necessário não declinar nem à direita, nem à esquerda, segundo a inteligência dos Padres, e entre eles em vários lugares Santo Agostinho. Declina-se à direita, quando nos ensoberbecemos com as boas obras que praticamos; e à esquerda, quando nelas afrouxamos. Por onde só deve trilhar-se este caminho entre a presunção e a desídia. — Pereira. PORQUE O SENHOR CONHECE OS CAMINHOS — Todo este versículo, com que se termina o presente capítulo, falta no hebreu, mas trazem-no os Setenta. — Pereira.

Nome do livro. — Os hebreus, denominando os livros pela palavra inicial, conheciam êste pela designação de Mischlé, têrmo derivado de maschal, que significa semelhança, comparação, e por extensão máxima, e também, embora mais raras vêzes, provérbio, também alegoria ou parábola, e ainda cânto irónico. Os primeiros cristãos adotaram a denominação dos Setenta, a que corresponde o latim Proverbia. Autor. — Segundo o que se deduz da análise do próprio livro, o autor é Salomão. Prov 1, 1; 10, 1; 25, 1 e ainda o 3 Rs 4, 32, Locutus est quoque Salomon tria millia parabolas (maschal). A origem salomônica de todos os provérbios é confirmada pela uniformidade do estilo e por nada se encontrar que não convenha a Salomão. É certo que acêrca dos capítulos 30 e 31 pode haver dúvida, pois são uns apêndices que têm respectivamente os nomes de Agur, filho de Jaqué e Lamuel, não faltando porém intérpretes que entendem que êstes mesmos nomes se referem a Salomão. Texto original e versões antigas. — O texto original e as mais antigas versões divergem em certos pontos. Os próprios exemplares hebraicos antigos não são rigorosamente uniformes; nuns faltam e em outros sobejam máximas, que aliás se compreende sem dificuldade, visto a forma como eram feitas as cópias. A mais antiga versão é a dos Setenta, que é mais livre do que literal, o que explica também certas variantes. Data do livro dos Provérbios. — A questão da data do livro na sua forma atual é diferente da do autor. A inscrição da segunda coleção dos Provérbios, 25, 1, prova que esta parte foi compilada no tempo de Ezequias, entre 725 e 696 antes de Cristo. Divisão geral. — O livro dos Provérbios compreende: Introdução (1, 1-6); Primeira parte (1, 7 ao c. 9); Segunda parte (10-24); Terceira parte (25-29); Apêndices (30-31).
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