Pe. Figueiredo (1950)

Capítulo 2

Receber a instrução. Pedir a sabedoria. Vantagens que se acham na posse dela.

1Meu filho, se tu receberes os meus discursos, e tiveres os meus mandamentos escondidos dentro do teu coração,

2de sorte que o teu ouvido ouça atento o que a sabedoria lhe diz: Inclina o teu coração para conhecer a prudência.

3Porque se tu invocares a sabedoria, e inclinares o teu coração para a prudência:

4Se a buscares como o dinheiro, e cavares para a encontrar, como os que desenterram tesouros:[1]CAVARESA imagem desta busca diligente é deduzida do trabalho das minas, descrito no livro de Jó 28, 1-11.

5Então compreenderás tu o temor do Senhor, e acharás a ciência de Deus.

6Porque o Senhor é o que dá a sabedoria, e da sua bôca sai a prudência, e a ciência.

7Êle reservará a salvação para os retos e protegerá os que caminham em simplicidade,[2]EM SIMPLICIDADECom singeleza, candura, e humildade de coração; aos de vida inculpável e irrepreensível, cujos desejos são todos de agradar a Deus.

8sendo êle mesmo o que guarda as veredas da justiça, e o que está de vigia sôbre os caminhos dos santos.

9Então conhecerás tu a justiça, e o juízo e a equidade, e tôdas as veredas que são boas.

10Se a sabedoria entrar no teu coração, e a ciência agradar à tua alma:

11O conselho te guardará, e a prudência te conservará,

12a fim de seres livre do caminho mau, e do homem que fala coisas perversas:

13Dos que deixam o caminho direito, andam por caminhos tenebrosos:

14Que se alegram depois de terem feito o mal, e triunfam de prazer nas piores coisas:

15Cujos caminhos são todos corrompidos, e cujos passos são infames.

16A fim de seres livre da mulher alheia e da estranha, que usa dos seus brandos discursos,[3]A FIM DE SERES LIVRE DA MULHER ALHEIATudo quanto aqui se diz da mulher adúltera e mundana em sentido próprio e literal, se entende também no traslado da corrupção do século e das nações idólatras.

17e deixa o guia da sua puberdade,[4]E DEIXA O GUIA DA SUA PUBERDADELarga seu legítimo marido, que é cabeça da mulher, segundo S. Paulo 1 Cor 11, 3, com o qual se tinha desposado, quando era donzela. — Pereira.

18e se tem esquecido do pacto do seu Deus: Porquanto a sua casa pende para a morte, e as suas veredas para os infernos.[5]DO PACTO DO SEU DEUSDa fé, ou lealdade que lhe prometera, quando com ele contraiu o matrimônio, tomando a Deus por testemunha, como se prova de Mal 2, 14; e mais que tudo da obrigação de manter a aliança que havia feito com o mesmo Senhor. — Pereira. A SUA CASA PENDE PARA A MORTE — O hebreu tem: "pende para os gigantes raphaim", isto é, para os infernos, que são a morada dos gigantes. Com o que concorda o que se diz adiante no c. 9, v. 18. — Pereira.

19Todos os que têm trato com ela não voltarão, nem tomarão as veredas da vida.[6]NÃO VOLTARÃOSem o auxílio da graça, a vida tranquila, feliz e pura.

20Para que andes pelo bom caminho: E não largues as veredas dos justos.

21Porque os que são retos, habitarão na terra, e nela permanecerão os símplices.

22Porém os ímpios serão arrancados de cima da terra: E os que obram iniquamente serão dela exterminados.

Nome do livro. — Os hebreus, denominando os livros pela palavra inicial, conheciam êste pela designação de Mischlé, têrmo derivado de maschal, que significa semelhança, comparação, e por extensão máxima, e também, embora mais raras vêzes, provérbio, também alegoria ou parábola, e ainda cânto irónico. Os primeiros cristãos adotaram a denominação dos Setenta, a que corresponde o latim Proverbia. Autor. — Segundo o que se deduz da análise do próprio livro, o autor é Salomão. Prov 1, 1; 10, 1; 25, 1 e ainda o 3 Rs 4, 32, Locutus est quoque Salomon tria millia parabolas (maschal). A origem salomônica de todos os provérbios é confirmada pela uniformidade do estilo e por nada se encontrar que não convenha a Salomão. É certo que acêrca dos capítulos 30 e 31 pode haver dúvida, pois são uns apêndices que têm respectivamente os nomes de Agur, filho de Jaqué e Lamuel, não faltando porém intérpretes que entendem que êstes mesmos nomes se referem a Salomão. Texto original e versões antigas. — O texto original e as mais antigas versões divergem em certos pontos. Os próprios exemplares hebraicos antigos não são rigorosamente uniformes; nuns faltam e em outros sobejam máximas, que aliás se compreende sem dificuldade, visto a forma como eram feitas as cópias. A mais antiga versão é a dos Setenta, que é mais livre do que literal, o que explica também certas variantes. Data do livro dos Provérbios. — A questão da data do livro na sua forma atual é diferente da do autor. A inscrição da segunda coleção dos Provérbios, 25, 1, prova que esta parte foi compilada no tempo de Ezequias, entre 725 e 696 antes de Cristo. Divisão geral. — O livro dos Provérbios compreende: Introdução (1, 1-6); Primeira parte (1, 7 ao c. 9); Segunda parte (10-24); Terceira parte (25-29); Apêndices (30-31).
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