Pe. Figueiredo (1950)

Capítulo 10

Do filho sábio, e do insensato; do justo, e do ímpio; do diligente, e do preguiçoso; da caridade, e do ódio; da boa e da má língua.

1O filho sábio a seu pai dá alegria: Porém o filho insensato é a tristeza de sua mãe.[1]O FILHO SÁBIOAté aqui fomos exortados a lançar mão do estudo da sabedoria, em geral, que consiste no conhecimento da verdade, e em acertar a cumprir com a vontade do Senhor; daqui por diante, por meio de uma quase continuada antítese entre o bem e o mal, se nos intimam preceitos e regras especiais para abraçar todo o género de virtudes e fugir dos vícios. — Pereira.

2Os tesouros da impiedade de nada servirão: Mas a justiça livrará da morte.

3O Senhor não afligirá com fome a alma do justo, e desfará as traições dos ímpios.

4A mão remissa tem produzido indigência: Mas a mão dos fortes adquire riqueza. O que se estriba em mentiras, êste se sustenta de ventos: E êle mesmo corre atrás dos pássaros que voam.[2]O QUE SE ESTRIBA EM MENTIRASEste versículo não vem no hebreu, nem no grego, nem na nova edição de S. Jerônimo, nem num grande número de manuscritos latinos. — Calmet.

5Aquêle que ajunta no tempo da messe é filho sábio: Mas o que dorme tranquilo no estio é filho da confusão.

6A bênção do Senhor é sôbre a cabeça do justo: Mas a iniquidade dos ímpios cobre-lhes o rosto.

7A memória do justo será acompanhada de louvores: E o nome dos ímpios apodrecerá.

8O que é sábio de coração recebe os avisos: O insensato é ferido pelos lábios.

9Aquêle que anda em simplicidade, anda afoutamente: Aquêle porém que perverte os seus caminhos, será descoberto.

10O que faz sinais causará dor: E o insensato será estimulado pelos lábios.[3]O QUE FAZ SINAISO homem inconstante e cobarde, que se serve de gestos para dissimular e enganar.

11A bôca do justo é veia da vida: E a bôca dos ímpios esconde a iniquidade.

12O ódio excita rixas: E a caridade cobre todos os delitos.

13Nos lábios do sábio se acha a sabedoria: E a vara sôbre as costas daquele que não tem senso.

14Os sábios escondem a ciência: Mas a bôca do insensato está próxima à confusão.

15O cabedal do rico é a cidade da sua fortaleza: A indigência dos pobres os enche de pavor.[4]O CABEDAL DO RICOAos ricos, que põem toda a sua confiança nas riquezas, avisa S. Paulo, 1 ad Tim 6, 17, de que sendo estas incertas e inconstantes, devem só colocar aquela em Deus vivo; e aos pobres, que desconfiam de socorro divino, promete o mesmo Cristo que por sua conta corre a acudir-lhes e remediá-los, como atesta S. Mateus 6, 26 e se repete noutros lugares da Escritura. — Pereira.

16A obra do justo conduz à vida: Mas o fruto do ímpio tende ao pecado.

17O que guarda a disciplina está no caminho da vida: O que porém não faz caso das repreensões, anda errado.

18Os lábios mentirosos escondem o ódio: Aquêle que abertamente ultraja, é um insensato.

19No muito falar não faltará pecado: Mas o que modera os seus lábios é prudentíssimo.

20A língua do justo é uma prata depurada: Mas o coração dos ímpios é de nenhum preço.

21Os lábios do justo ensinam a muitíssimos: Mas os que são ignorantes morrerão na indigência de coração.

22A bênção do Senhor faz os ricos, e não se achará com êles a aflição.

23O insensato comete o crime como por galhofa: Mas a sabedoria é para o homem prudência.[5]MAS A SABEDORIA É PARA O HOMEM PRUDÊNCIAPorque a sabedoria que vem de Deus infunde no homem inteligência e fá-lo prudente para saber evitar o mal e abraçar o bem.

24O que o ímpio teme, isso virá sôbre êle: Aos justos se lhes concederá o seu desejo.

25O ímpio desaparecerá como uma tempestade que passa: Mas o justo será como um fundamento eterno.

26Qual o vinagre para os dentes, e o fumo para os olhos, tal é o preguiçoso para aquêles que o mandaram.

27O temor do Senhor prolongará os dias: E os anos dos ímpios serão abreviados.

28A expectação dos justos é alegria: Mas a esperança dos ímpios perecerá.

29O caminho do Senhor é a fortaleza do inocente: E pavor para os que obram mal.

30O justo não será nunca abalado: Porém os ímpios não habitarão sôbre a terra.

31A bôca do justo frutificará sabedoria: A língua dos depravados perecerá.

32Os lábios do justo consideram o que pode agradar: E a bôca dos ímpios coisas perversas.[6]AGRADARIsto é, a Deus e aos homens de virtude. — Pereira.

Nome do livro. — Os hebreus, denominando os livros pela palavra inicial, conheciam êste pela designação de Mischlé, têrmo derivado de maschal, que significa semelhança, comparação, e por extensão máxima, e também, embora mais raras vêzes, provérbio, também alegoria ou parábola, e ainda cânto irónico. Os primeiros cristãos adotaram a denominação dos Setenta, a que corresponde o latim Proverbia. Autor. — Segundo o que se deduz da análise do próprio livro, o autor é Salomão. Prov 1, 1; 10, 1; 25, 1 e ainda o 3 Rs 4, 32, Locutus est quoque Salomon tria millia parabolas (maschal). A origem salomônica de todos os provérbios é confirmada pela uniformidade do estilo e por nada se encontrar que não convenha a Salomão. É certo que acêrca dos capítulos 30 e 31 pode haver dúvida, pois são uns apêndices que têm respectivamente os nomes de Agur, filho de Jaqué e Lamuel, não faltando porém intérpretes que entendem que êstes mesmos nomes se referem a Salomão. Texto original e versões antigas. — O texto original e as mais antigas versões divergem em certos pontos. Os próprios exemplares hebraicos antigos não são rigorosamente uniformes; nuns faltam e em outros sobejam máximas, que aliás se compreende sem dificuldade, visto a forma como eram feitas as cópias. A mais antiga versão é a dos Setenta, que é mais livre do que literal, o que explica também certas variantes. Data do livro dos Provérbios. — A questão da data do livro na sua forma atual é diferente da do autor. A inscrição da segunda coleção dos Provérbios, 25, 1, prova que esta parte foi compilada no tempo de Ezequias, entre 725 e 696 antes de Cristo. Divisão geral. — O livro dos Provérbios compreende: Introdução (1, 1-6); Primeira parte (1, 7 ao c. 9); Segunda parte (10-24); Terceira parte (25-29); Apêndices (30-31).
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