Capítulo 19
1Melhor é o pobre, que anda na sua simplicidade, do que o rico torcendo os seus beiços, e sendo insensato.[1]O RICO — A palavra dives, rico, não se lê no hebreu, no caldeu, nos Setenta, nem em várias edições latinas. Os Setenta da edição romana totalmente omitem os primeiros dois versículos dêste capítulo, porém não faltam na do cardeal Ximenes. — Calmet. TORCENDO OS SEUS BEIÇOS — Para enganar. — Pereira.
2Onde não há ciência da alma não há bem: E o que pelo ardimento dos pés é apressado, tropeçará.
3A estultícia do homem arma sancadilha aos seus passos: E êle ferve no seu coração contra Deus.[2]E ÊLE FERVE — Agasta-se contra Deus, atribuindo, não à sua estultícia, como devera, mas ao mesmo Deus, o terem sucedido mal os seus negócios. — Menochio.
4As riquezas multiplicam muito os amigos: Mas do pobre ainda aquêles que teve se separam.
5A testemunha falsa não ficará impunida: E o que fala mentiras não escapará.
6São muitos os que honram a pessoa do poderoso, e os que são amigos do que reparte dádivas.[3]DO QUE REPARTE DÁDIVAS — Confira-se com êste acima o versículo 4. — Pereira.
7Os irmãos do homem pobre aborreceram-no: Sôbre isto ainda os seus amigos se retiraram longe dêle. Aquêle que só busca palavras não terá nada:
8Mas o que é possuidor de entendimento, ama a sua alma, e o conservador da prudência achará bens.
9A testemunha falsa não ficará impunida: E o que fala mentiras perecerá.
10Ao insensato não estão bem as delícias: Nem ao servo o dominar aos príncipes.[4]AO INSENSATO NÃO ESTÃO BEM AS DELÍCIAS — O insensato não sabe usar dos deleites, abusa dêles sem lei, nem medida, por cuja causa nesses mesmos gostos achará a ruína da sua alma e da sua saúde. — Calmet. NEM AO SERVO — É esta uma das coisas que, segundo o mesmo Salomão, adiante 30,24, diz, perturba, inverte, revolta e confunde o mundo. — Pereira.
11A doutrina do homem conhece-se pela paciência: E a sua glória é passar por cima das injúrias a êle feitas.
12Assim como é terrível o bramido do leão, assim também o é a ira do rei: E do mesmo modo que o orvalho cai sôbre a erva, assim anima igualmente o seu prazenteiro.
13O filho insensato é a dor do pai: E a mulher amiga de litígios é como o telhado, que está revendo continuamente em goteiras.[5]EM GOTEIRAS — Assim como as goteiras contínuas do telhado arruinam o edifício, assim também inquieta e desordena a família a mulher contenciosa.
14Os pais dão casas e riquezas, porém o Senhor dá propriamente uma mulher de prudência.[6]PORÉM O SENHOR — Com êste lugar têm alegado os Santos Padres, para provarem que não é lícito aos católicos celebrar matrimónios com mulheres infiéis. — Calmet.
15A preguiça dá de si sono, e a alma frouxa terá fome.
16Aquêle que guarda o mandamento guarda a sua alma: O que porém não faz caso do seu caminho, padecerá a morte.
17O que se compadece do pobre, dá o seu dinheiro a juro ao Senhor: E êste lhe tornará com onzena o que êle tiver emprestado.
18Castiga a teu filho enquanto há esperança da emenda: Mas não chegue a tua severidade ao excesso de lhe dares a morte.[7]ENQUANTO HÁ ESPERANÇA — Êste é o sentido, que do hebreu exprimiu de Carrières. A Vulgata diz: ne desperes: o que Sacy verteu "e não desesperes." Confiram-se os lugares do apóstolo aos Ef 6,4, e aos Col 3,21.
19O que é impaciente suportará o dano: E quando o deixar, acrescentará outro.[8]O QUE É IMPACIENTE — O sentido da Vulgata parece ser, que todo aquêle que não sopeia a ira, experimentará muitos males e quando se livrár dum, virá, não se emendando, a cair noutro. Alguns, entendendo êste lugar do filho, traduzem: E se roubar, acrescentará outro roubo. Porque, se o pai desesperado já da emenda do filho, deixa de o castigar, experimentará os tristes efeitos da sua falta de paciência nos multiplicados roubos, que o mesmo filho livremente fôr cometendo, até acabar a vida num patíbulo. Mas indo a tradução encostada ao hebreu, segundo as notas que propuseram Bossuet e Calmet, e segundo no corpo o exprimiu de Carrières, pode-se verter êste lugar do seguinte modo: "Porque aquêle que é assim impaciente, sofrerá a pena que merece, e se tu o deixas impunido, êle continuará a fazer pior." — Pereira.
20Ouve o conselho, e recebe a correção, para que sejas sábio no fim da tua vida.
21No coração do homem se forjam muitos pensamentos: Mas a vontade do Senhor permanecerá.
22O homem necessitado é compassivo: E melhor é o pobre do que o homem mentiroso.
23O temor do Senhor conduz à vida: E na abundância nadará sem a visita péssima.[9]SEM A VISITA PÉSSIMA — De tal sorte, que nenhuma calamidade transtorne o seu caminho. Deus não o visitará quando estiver irado, viverá seguro e em paz. Muitos códices latinos lêem: Absque visitatione pessimi: Sem a visita do péssimo: isto é, do demónio. O demónio não o vencerá, se Deus permite que o justo seja tentado, como Jó e Tobias, êle sairá vencedor da batalha: com esta experiência ficará cada vez mais provada a sua virtude. — Calmet.
24O preguiçoso esconde a sua mão debaixo do sovaco, e não quer ter o trabalho de a levar à bôca.
25Castigado o pernicioso, far-se-á mais sábio o insensato: Mas se repreenderes ao sábio, êle entenderá o aviso.[10]CASTIGADO — Aos maus serve de escarmento o castigo que vêem executar nos malfeitores, perversos e facinorosos; mas ao homem sisudo e avisado basta, para se emendar, uma leve repreensão, ou aviso. — Pereira.
26Aquêle que aflige a seu pai, e que faz fugir a sua mãe, é infame e desgraçado.
27Não cesses, filho, de ouvir a doutrina, nem ignores as palavras da ciência.
28A testemunha iníqua faz zombaria da justiça: E a bôca dos ímpios devora a iniquidade.
29Prontos estão os juízos para os mofadores: E os martelos batentes para os corpos dos insensatos.[11]PRONTOS ESTÃO OS JUÍZOS — Vem nisto a dizer o sábio, que a todos os maus e ímpios aguarda o castigo proporcionado e correspondente à grandeza e enormidade dos seus crimes. — Pereira.