Pe. Figueiredo (1950)

Capítulo 9

A sabedoria edificou para si uma casa, preparou um banquete e convidou para êle os homens. Desgraçado o que desprezar o seu convite. A mulher insensata também chama a si os homens. Desgraçado o que se deixar vencer dos seus atrativos.

1A sabedoria edificou para si uma casa, cortou sete colunas.[1]SABEDORIAÉ a continuação da parábola principiada no capítulo precedente, em que o autor apresentou a sabedoria como uma mulher, cujas excelsas qualidades contrapõe aos falazes atrativos da voluptuosidade. UMA CASA — Segundo os Padres da Igreja esta expressão designa a sagrada Humanidade de Jesus Cristo e a Igreja Cristã, que reúnem as qualidades descritas por Salomão. Per domum intellige Ecclesiam quae domus Dei vocatur 1 Tim 3, 15 in qua paratum est piis convivium. — Menochio. SETE COLUNAS — O número sete foi sempre considerado entre os hebreus, árabes e persas como um número perfeito e por consequência misterioso e sagrado. Os intérpretes vêem nestas sete colunas as figuras dos sete sacramentos e dos sete dons do Espírito Santo. A expressão cortar as colunas significa construir com magnificência.

2Imolou as suas vítimas, preparou o vinho, e dispôs a sua mesa.[2]IMOLOU AS SUAS VÍTIMASNo hebreu está matar ou degolar os seus animais, que tinha engordado para um festim. PREPAROU O VINHO — Na Vulgata, que mais se aproxima do original, está miscuit, misturou, que o Padre Pereira traduziu por preparou, que é, na verdade, o sentido do texto porque os vinhos das regiões orientais são muito fortes e encorpados e por isto misturam-lhes água e algumas vezes aromas proporcionalmente.

3Enviou as suas escravas a chamar à fortaleza, e às muralhas da cidade:[3]AS SUAS ESCRAVASEntendem os exegetas que as escravas da sabedoria são os Apóstolos, os doutores da Igreja, os confessores da fé, e quantos vão por todo o mundo anunciar a palavra de Deus.

4Todo o que é simples, venha a mim. E aos insensatos disse:

5Vinde, comei o pão que eu vos dou e bebei o vinho que vos preparei.[4]O PÃOExpressão metafórica, que indica a doutrina da sabedoria, a que, também por semelhança, se costuma chamar alimento do espírito.

6Deixai a infância, e vivei, e andai pelos caminhos da prudência.

7Aquêle que instrui ao mofador a si mesmo se faz injúria: E aquêle que repreende ao ímpio, a si mesmo se desonra.

8Não repreendas ao mofador, para que êle te não aborreça. Repreende ao sábio, êle te amará.

9Dá ocasião ao sábio, e se lhe acrescentará sabedoria: Ensina ao justo, e se apressará em aprender.[5]DÁ OCASIÃO AO SÁBIOIsto é, de aprender. — Menochio.

10O princípio da sabedoria é o temor do Senhor: E a ciência dos Santos é a prudência.

11Porque por mim se aumentará o número dos teus dias, e acrescentados serão novos anos à tua vida.

12Se fôres sábio, para ti mesmo o serás: E se fores mofador, tu só experimentarás o mal.

13A mulher insensata e gritadeira, e cheia de atrativos, e que de todo não sabe nada,[6]E QUE DE TODO NÃO SABE NADAOs Setenta lêem: "Que não conhece vergonha". — Pereira.

14assentou-se à porta de sua casa sôbre uma cadeira, num lugar alto da cidade,

15para chamar aos que passavam pela estrada, e que iam andando o seu caminho, dizendo:

16O que é simples, decline para mim. E ao insensato disse ela:

17As águas furtivas são mais doces, e o pão tomado às escondidas é mais gostoso.

18Mas êle ignorou que os gigantes estão com ela, e que os seus convidados se acham nas profundezas do inferno.[7]GIGANTESO que está no original hebraico é rephaim, termo que propriamente designa as almas dos mortos e que é distinto da palavra semelhante Rephaim, nome duma raça de gigantes. Em outro lugar 2, 18, S. Jerônimo traduzia Rephaim por inferno, quando a esta significação corresponde scheol. Este versículo é a conclusão breve, mas enérgica de Salomão. A casa de loucura é semelhante ao inferno e os seus convivas vêem-se num instante em companhia dos habitantes dos abismos, precipitados no inferno, onde não encontram nem podem esperar salvação.

Nome do livro. — Os hebreus, denominando os livros pela palavra inicial, conheciam êste pela designação de Mischlé, têrmo derivado de maschal, que significa semelhança, comparação, e por extensão máxima, e também, embora mais raras vêzes, provérbio, também alegoria ou parábola, e ainda cânto irónico. Os primeiros cristãos adotaram a denominação dos Setenta, a que corresponde o latim Proverbia. Autor. — Segundo o que se deduz da análise do próprio livro, o autor é Salomão. Prov 1, 1; 10, 1; 25, 1 e ainda o 3 Rs 4, 32, Locutus est quoque Salomon tria millia parabolas (maschal). A origem salomônica de todos os provérbios é confirmada pela uniformidade do estilo e por nada se encontrar que não convenha a Salomão. É certo que acêrca dos capítulos 30 e 31 pode haver dúvida, pois são uns apêndices que têm respectivamente os nomes de Agur, filho de Jaqué e Lamuel, não faltando porém intérpretes que entendem que êstes mesmos nomes se referem a Salomão. Texto original e versões antigas. — O texto original e as mais antigas versões divergem em certos pontos. Os próprios exemplares hebraicos antigos não são rigorosamente uniformes; nuns faltam e em outros sobejam máximas, que aliás se compreende sem dificuldade, visto a forma como eram feitas as cópias. A mais antiga versão é a dos Setenta, que é mais livre do que literal, o que explica também certas variantes. Data do livro dos Provérbios. — A questão da data do livro na sua forma atual é diferente da do autor. A inscrição da segunda coleção dos Provérbios, 25, 1, prova que esta parte foi compilada no tempo de Ezequias, entre 725 e 696 antes de Cristo. Divisão geral. — O livro dos Provérbios compreende: Introdução (1, 1-6); Primeira parte (1, 7 ao c. 9); Segunda parte (10-24); Terceira parte (25-29); Apêndices (30-31).
📄 PDF
📄 Original