Capítulo 9
1A sabedoria edificou para si uma casa, cortou sete colunas.[1]SABEDORIA — É a continuação da parábola principiada no capítulo precedente, em que o autor apresentou a sabedoria como uma mulher, cujas excelsas qualidades contrapõe aos falazes atrativos da voluptuosidade. UMA CASA — Segundo os Padres da Igreja esta expressão designa a sagrada Humanidade de Jesus Cristo e a Igreja Cristã, que reúnem as qualidades descritas por Salomão. Per domum intellige Ecclesiam quae domus Dei vocatur 1 Tim 3, 15 in qua paratum est piis convivium. — Menochio. SETE COLUNAS — O número sete foi sempre considerado entre os hebreus, árabes e persas como um número perfeito e por consequência misterioso e sagrado. Os intérpretes vêem nestas sete colunas as figuras dos sete sacramentos e dos sete dons do Espírito Santo. A expressão cortar as colunas significa construir com magnificência.
2Imolou as suas vítimas, preparou o vinho, e dispôs a sua mesa.[2]IMOLOU AS SUAS VÍTIMAS — No hebreu está matar ou degolar os seus animais, que tinha engordado para um festim. PREPAROU O VINHO — Na Vulgata, que mais se aproxima do original, está miscuit, misturou, que o Padre Pereira traduziu por preparou, que é, na verdade, o sentido do texto porque os vinhos das regiões orientais são muito fortes e encorpados e por isto misturam-lhes água e algumas vezes aromas proporcionalmente.
3Enviou as suas escravas a chamar à fortaleza, e às muralhas da cidade:[3]AS SUAS ESCRAVAS — Entendem os exegetas que as escravas da sabedoria são os Apóstolos, os doutores da Igreja, os confessores da fé, e quantos vão por todo o mundo anunciar a palavra de Deus.
4Todo o que é simples, venha a mim. E aos insensatos disse:
5Vinde, comei o pão que eu vos dou e bebei o vinho que vos preparei.[4]O PÃO — Expressão metafórica, que indica a doutrina da sabedoria, a que, também por semelhança, se costuma chamar alimento do espírito.
6Deixai a infância, e vivei, e andai pelos caminhos da prudência.
7Aquêle que instrui ao mofador a si mesmo se faz injúria: E aquêle que repreende ao ímpio, a si mesmo se desonra.
8Não repreendas ao mofador, para que êle te não aborreça. Repreende ao sábio, êle te amará.
9Dá ocasião ao sábio, e se lhe acrescentará sabedoria: Ensina ao justo, e se apressará em aprender.[5]DÁ OCASIÃO AO SÁBIO — Isto é, de aprender. — Menochio.
10O princípio da sabedoria é o temor do Senhor: E a ciência dos Santos é a prudência.
11Porque por mim se aumentará o número dos teus dias, e acrescentados serão novos anos à tua vida.
12Se fôres sábio, para ti mesmo o serás: E se fores mofador, tu só experimentarás o mal.
13A mulher insensata e gritadeira, e cheia de atrativos, e que de todo não sabe nada,[6]E QUE DE TODO NÃO SABE NADA — Os Setenta lêem: "Que não conhece vergonha". — Pereira.
14assentou-se à porta de sua casa sôbre uma cadeira, num lugar alto da cidade,
15para chamar aos que passavam pela estrada, e que iam andando o seu caminho, dizendo:
16O que é simples, decline para mim. E ao insensato disse ela:
17As águas furtivas são mais doces, e o pão tomado às escondidas é mais gostoso.
18Mas êle ignorou que os gigantes estão com ela, e que os seus convidados se acham nas profundezas do inferno.[7]GIGANTES — O que está no original hebraico é rephaim, termo que propriamente designa as almas dos mortos e que é distinto da palavra semelhante Rephaim, nome duma raça de gigantes. Em outro lugar 2, 18, S. Jerônimo traduzia Rephaim por inferno, quando a esta significação corresponde scheol. Este versículo é a conclusão breve, mas enérgica de Salomão. A casa de loucura é semelhante ao inferno e os seus convivas vêem-se num instante em companhia dos habitantes dos abismos, precipitados no inferno, onde não encontram nem podem esperar salvação.