Pe. Figueiredo (1950)

Capítulo 23

Sobriedade à mesa dos grandes. Não buscar riquezas. Não oprimir aos pupilos. Estar firme no temor de Deus. Fugir das mulheres dissolutas, e da bebedice.

1Quando te assentares a comer com o príncipe, considera com atenção o que se te pôs diante:[1]COM O PRÍNCIPETrata-se aqui de inculcar a sobriedade e de encarecer a obrigação que temos de vencer a sensualidade. S. Agostinho comentando êste lugar refere-o ao banquete eucarístico.

2E põe uma faca na tua garganta, se é todavia que estás senhor da tua alma.[2]PÕE UMA FACAEsta expressão significa que devemos reprimir todos os apetites desordenados. S. Jerônimo aplica êste lugar à Santa Comunhão e diz que, quando nos aproximarmos do banquete eucarístico, devemos destruir, aniquilar até tudo o que em nós houver de imperfeição.

3Não desejes comer dos manjares daquele, onde se acha o pão da mentira.

4Não te fatigues por ser rico: Mas põe têrmo à tua prudência.[3]A TUA PRUDÊNCIADeve-se entender isto da prudência, ou indústria, de que se valem os homens para ajuntar riquezas, da qual fala o Salvador em Lc 16, 8. –Menochio.

5Não ergas os teus olhos para umas riquezas que tu não podes ter: Porque elas tomaram asas como de águia, e voaram para o céu.

6Não comas com o homem invejoso, e não apeteças os seus manjares:

7Porque à semelhança de adivinho e conjecturador, faz juízo do que ignora. Come e bebe, te dirá êle: Mas o seu coração não está contigo:[4]PORQUE À SEMELHANÇA DE ADIVINHOPorque logo que te assentares à mesa, lá dentro consigo, como conjecturador do futuro e adivinho, pensará e avaliará o quanto hás de comer; e quando comeres, contará quase todos os bocados que meteres na bôca, estando com cuidado de lhe não fazeres muito gasto em demasia. –Menochio.

8Tu vomitarás os manjares que tiveres comido: E perderás os teus sábios discursos.[5]TU VOMITARÁSConhecendo-lhe tu o caráter que tem de avarento, e a má vontade com que te põe à sua mesa, não só desejarás, se puderes, lançar-lhe ali tôda a comida para lha não levares contigo, mas ainda te arrependerás da cortesã e sábia conversação, dos chistes, graças, facécias e agudos donaires que com êle e adiante dêle esperdiçaste. –Pereira.

9Não fales aos ouvidos dos insensatos: Porque êles desprezarão a doutrina das tuas palavras.

10Não toques nos limites dos pequeninos: E não entres no campo dos pupilos:

11Porque o seu próximo é poderoso: E êle mesmo se fará contra ti o defensor da sua causa.[6]PORQUE O SEU PRÓXIMO É PODEROSOQuem seja êste próximo poderoso, que defende e vinga das injúrias o pobre, declaram os Setenta, vertendo aqui: Porque o Senhor, que é o seu Redentor, é poderoso. O mesmo Deus, logo, é o poderoso tutor do pobre, e isto pelo direito do parentesco que tem com êle, por se ter feito homem como êle, e pobre por amor dêle. –Pereira.

12Entre o teu coração na doutrina: E os teus ouvidos nas palavras da ciência.

13Não queiras subtrair a correção ao menino: Porque se tu o fustigares com a vara, êle não morrerá.

14Tu fustigarás com a vara: E livrarás a sua alma do inferno.

15Meu filho, se o teu ânimo fôr sábio, alegrar-se-á contigo o meu coração:

16E os meus rins exultarão de prazer, quando os teus lábios tiverem proferido o que é reto.

17O teu coração não tenha inveja aos pecadores; mas conserva-te no temor do Senhor todo o dia:

18Porque terás esperança, quando chegar o teu último dia, e não te será roubada a tua expectação.

19Ouve, meu filho, e sê sábio: E dirige a tua alma pelo caminho direito.

20Não te queiras achar nos banquetes dos grandes bebedores, nem nas comezainas daqueles que fazem vir os manjares para comerem de companhia:

21Porque passando o tempo em beber, e em contribuir com os seus escotes, êles se arruinarão e a sua dormente preguiça vestir-se-á de trapos.

22Ouve a teu pai, que te gerou: E não desprezes a tua mãe, quando fôr velha.

23Compra a verdade, e não queiras vender a sabedoria, nem a doutrina, nem a inteligência.

24O pai do justo salta de prazer: O que gerou ao sábio terá nêle a sua alegria.

25Nesta alegria viva teu pai, e tua mãe, e a que te gerou, exulte.

26Dá-me, meu filho, o teu coração: E os teus olhos guardem os meus caminhos.

27Porque a mulher prostituta é uma cova profunda: E a alheia é um poço estreito.

28Ela está de emboscada no caminho como um salteador, e ela matará aos que vir desapercebidos.

29A quem se dirá: Desgraçado de ti? ao pai de quem se dirá: Desgraçado de ti? para quem serão as bulhas? para quem os precipícios? para quem as feridas sem causa? para quem a névoa dos olhos?

30Para quem, senão para aquêles que levam o tempo a beber vinho, e têm o seu gôsto em despejar os copos?

31Não olhes para o vinho, quando te começa a parecer louro, quando brilhar no vidro a sua côr: Êle entra suavemente;

32Mas no fim morderá como uma serpente, e difundirá o seu veneno como um basilisco.

33Os teus olhos verão as alheias, e o teu coração falará palavras desregradas.

34E tu serás como um homem dormente no meio do mar, e como um pilôto sopito que perdeu o leme:

35E dirás: Espancaram-me, mas a mim não me doeu: Arrastaram-me, mas eu não senti: Quando despertarei eu, e quando acharei mais vinho para beber?

Nome do livro. — Os hebreus, denominando os livros pela palavra inicial, conheciam êste pela designação de Mischlé, têrmo derivado de maschal, que significa semelhança, comparação, e por extensão máxima, e também, embora mais raras vêzes, provérbio, também alegoria ou parábola, e ainda cânto irónico. Os primeiros cristãos adotaram a denominação dos Setenta, a que corresponde o latim Proverbia. Autor. — Segundo o que se deduz da análise do próprio livro, o autor é Salomão. Prov 1, 1; 10, 1; 25, 1 e ainda o 3 Rs 4, 32, Locutus est quoque Salomon tria millia parabolas (maschal). A origem salomônica de todos os provérbios é confirmada pela uniformidade do estilo e por nada se encontrar que não convenha a Salomão. É certo que acêrca dos capítulos 30 e 31 pode haver dúvida, pois são uns apêndices que têm respectivamente os nomes de Agur, filho de Jaqué e Lamuel, não faltando porém intérpretes que entendem que êstes mesmos nomes se referem a Salomão. Texto original e versões antigas. — O texto original e as mais antigas versões divergem em certos pontos. Os próprios exemplares hebraicos antigos não são rigorosamente uniformes; nuns faltam e em outros sobejam máximas, que aliás se compreende sem dificuldade, visto a forma como eram feitas as cópias. A mais antiga versão é a dos Setenta, que é mais livre do que literal, o que explica também certas variantes. Data do livro dos Provérbios. — A questão da data do livro na sua forma atual é diferente da do autor. A inscrição da segunda coleção dos Provérbios, 25, 1, prova que esta parte foi compilada no tempo de Ezequias, entre 725 e 696 antes de Cristo. Divisão geral. — O livro dos Provérbios compreende: Introdução (1, 1-6); Primeira parte (1, 7 ao c. 9); Segunda parte (10-24); Terceira parte (25-29); Apêndices (30-31).
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