Pe. Figueiredo (1950)

Capítulo 12

Amar a correção. Cultivar a piedade. Sorte dos bons, e dos maus. Do sábio. E do insensato. Dos bens, e dos males causados pela língua.

1Aquêle que ama a disciplina, ama a ciência: Mas o que aborrece as repreensões, é um insensato.

2Aquêle que é bom, terá do Senhor graça: Mas o que põe a confiança nos seus próprios pensamentos, obra como ímpio.

3O homem não se corroborará pela impiedade: E a raiz dos justos não será abalada.

4A mulher diligente é a coroa de seu marido: E a que obra coisas dignas de confusão far-lhe-á apodrecer os ossos.[1]FAR-LHE-Á APODRECER OS OSSOSPela tristeza e contínuo dissabor, que lhe causará. Os Setenta lêem: "E assim como no madeiro dá a polilha assim também vai destruindo ao homem a mulher maléfica." — Pereira.

5Os pensamentos dos justos são cheios de justiça: E os conselhos dos ímpios são cheios de fraudulência.

6As palavras dos ímpios armam traições, a fim de verter sangue: A bôca dos justos será a que os livre.[2]A BÔCA DOS JUSTOS SERÁ A QUE OS LIVREIsto é, a que livre os inocentes, que são o alvo dos seus tiros. — Pereira.

7Transtorna aos ímpios, e não subsistirão: Mas a casa dos justos permanecerá firme.[3]TRANSTORNA AOS ÍMPIOSOs Setenta lêem: "Para onde quer que se voltar o ímpio será exterminado". Semelhante conceito se encontra no Sl 103,36.

8O homem será conhecido pela sua doutrina: Mas o que é vão e não tem senso, estará exposto ao desprêzo.

9Mais vale o pobre, que ainda assim tem o que lhe basta para passar, do que o jactancioso e necessitado de pão.

10O justo atende pela vida dos seus animais: Mas as entranhas dos ímpios são cruéis.[4]O JUSTO ATENDE PELA VIDA DOS SEUS ANIMAISAtende pelos seus animais e tem conta com êles, pondo grande cuidado em não serem fatigados mais do que é justo e em que lhes não falte coisa alguma necessária. — Menochio.

11Aquêle que lavra a sua terra, será farto de pão: Mas o que se entrega ao ócio, é quanto pode ser insensato. Aquêle que faz gôsto de se demorar em beber vinho, deixa afronta nas suas fortificações.[5]AQUÊLE QUE FAZ GÔSTO DE SE DEMORAR EM BEBER VINHOÊste versículo não se lê no hebreu, nem em S. Jerônimo, mas vem nos Setenta. Significa que a sentinela que se embriaga deixa as fortificações confiadas à sua vigilância expostas aos ataques dos inimigos, o que é uma desonra.

12O desejo do ímpio é apoiar-se na fôrça dos que são os piores de todos: Mas a raiz dos justos cada vez lançará mais garfos.

13Pelos pecados dos lábios se vai apropinquando a ruína ao mau: Porém o justo escapará dos transes mais apertados.

14Cada um será cheio de bens conforme fôr o fruto da sua bôca, e ser-lhe-á dada a retribuição conforme fôrem as obras das suas mãos.[6]CADA UM SERÁ CHEIOCada um receberá de Deus o prémio do fruto, que tiver feito ao próximo com a saudável doutrina que lhe sugerir.

15O caminho do insensato é direito aos seus olhos: O que porém é sábio ouve os conselhos.

16O fátuo logo mostra a sua ira: Mas o que dissimula a injúria é prudente.

17Aquêle que afirma o que bem sabe, é um auxiliar de justiça: Mas o que mente é uma testemunha enganadora.[7]É UM AUXILIAR DE JUSTIÇAPorque é verdadeiro o seu depoimento.

18Há quem prometa, e como ferido com uma espada, é pela consciência estimulado: Mas a língua dos sábios é saúde.

19O lábio de verdade será sempre constante: Mas a testemunha que é inconsiderada, urde uma linguagem de mentira.

20No coração dos que pensam males há engano: Porém àqueles que têm conselhos de paz, segue o gôzo.

21Não entristecerá ao justo coisa alguma, qualquer que fôr a que lhe acontecer: Mas os ímpios estarão cheios de mal.

22Os lábios mentirosos são abominação para o Senhor: Mas os que obram fielmente lhe agradam.

23O homem sagaz encobre a ciência: E o coração dos insipientes apressa-se a manifestar a sua estultícia.

24A mão dos fortes dominará: Porém a que é remissa será sujeita a pagar tributos.

25A melancolia no coração do homem o abaterá, e com boas palavras se alegrará.[8]E COM BOAS PALAVRAS SE ALEGRARÁIsto é, com as palavras que lhe disserem, para o consolar na sua aflição.

26Aquêle que por amor de seu amigo não faz caso de passar por alguma perda, é justo: Mas o caminho dos ímpios seduzi-los-á.[9]SEDUZI-LOS-ÁOs ímpios, que só buscam o seu interêsse, não atendendo ao do próximo, também quando necessitarem de auxílio não acharão quem os socorra, permitindo-o Deus assim, em castigo da sua desumanidade.

27O fraudulento não achará ganância: E o cabedal do homem será ouro precioso.[10]O FRAUDULENTOComo o usurário ou qualquer outro, que tudo quanto anda afanando e adquirindo é por meios ilícitos, de onde vem o serem pouco seguras as suas riquezas; pelo contrário, as do homem diligente, que procura granjeá-las com retidão de consciência, ficam sendo preciosas como o ouro, em razão da sua maior firmeza e estabilidade.

28A vida está na vereda da justiça: Mas o caminho que é descaminho, guia para a morte.

Nome do livro. — Os hebreus, denominando os livros pela palavra inicial, conheciam êste pela designação de Mischlé, têrmo derivado de maschal, que significa semelhança, comparação, e por extensão máxima, e também, embora mais raras vêzes, provérbio, também alegoria ou parábola, e ainda cânto irónico. Os primeiros cristãos adotaram a denominação dos Setenta, a que corresponde o latim Proverbia. Autor. — Segundo o que se deduz da análise do próprio livro, o autor é Salomão. Prov 1, 1; 10, 1; 25, 1 e ainda o 3 Rs 4, 32, Locutus est quoque Salomon tria millia parabolas (maschal). A origem salomônica de todos os provérbios é confirmada pela uniformidade do estilo e por nada se encontrar que não convenha a Salomão. É certo que acêrca dos capítulos 30 e 31 pode haver dúvida, pois são uns apêndices que têm respectivamente os nomes de Agur, filho de Jaqué e Lamuel, não faltando porém intérpretes que entendem que êstes mesmos nomes se referem a Salomão. Texto original e versões antigas. — O texto original e as mais antigas versões divergem em certos pontos. Os próprios exemplares hebraicos antigos não são rigorosamente uniformes; nuns faltam e em outros sobejam máximas, que aliás se compreende sem dificuldade, visto a forma como eram feitas as cópias. A mais antiga versão é a dos Setenta, que é mais livre do que literal, o que explica também certas variantes. Data do livro dos Provérbios. — A questão da data do livro na sua forma atual é diferente da do autor. A inscrição da segunda coleção dos Provérbios, 25, 1, prova que esta parte foi compilada no tempo de Ezequias, entre 725 e 696 antes de Cristo. Divisão geral. — O livro dos Provérbios compreende: Introdução (1, 1-6); Primeira parte (1, 7 ao c. 9); Segunda parte (10-24); Terceira parte (25-29); Apêndices (30-31).
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