Capítulo 31
1Palavras do rei Lamuel. Visão, pela qual o instruiu sua mãe.[1]PALAVRAS DO REI LAMUEL — A opinião mais constante, e mais bem recebida entre os expositores, é que Lamuel é o mesmo Salomão, chamado aqui Lamuel, que em hebreu quer dizer Deus com êle, por causa da paz, e prosperidade, que no seu tempo gozaram os judeus, em reconhecimento do que lhe faz o mesmo Salomão o magnífico elogio da mulher forte.
2Que te direi eu, meu amado filho, que te direi eu, amado fruto das minhas entranhas, que te direi eu, querido objeto dos meus desejos?
3Não dês os teus bens a mulheres, nem empregues as tuas riquezas em destruir reis.[2]EM DESTRUIR REIS — Para mover discórdias, e atear guerras injustas, forjando rebeliões contra o teu soberano. Mas o hebreu pode também ter êste sentido: Não te entregues aos deleites, porque estragam as fôrças do corpo, e abreviam os dias da vida, nem ponhas a tua afeição nas mulheres; porque isto costuma ser pernicioso aos reis. Nas quais palavras, que são como um vaticínio, adverte Calmet serem prognosticados os males, que estavam iminentes a Salomão. — Pereira.
4Não dês aos reis, ó Lamuel, não dês vinho aos reis: Porque não há segrêdo onde reina a bebedice:
5E para que não suceda que êles bebam, e se esqueçam da justiça, e transtornem a eqüidade na causa dos filhos do pobre.
6Mas dá aos que estão aflitos um licor capaz de os embriagar, e vinho aos que estão em amargura de coração:
7Para que êles bebam, e se esqueçam da sua pobreza, e não se lembrem mais da sua dor.
8Abre a tua bôca a favor do mudo, e para defenderes as causas de todos os filhos que passam:
9Abre a tua bôca, ordena o que é justo, e faze justiça ao necessitado e ao pobre.
10Quem achará uma mulher forte? Seu preço excede a tudo o que vem de remontadas distâncias, e dos últimos confins da terra.[3]SEU PREÇO EXCEDE A TUDO O QUE VEM DE REMONTADAS DISTÂNCIAS — Porque se supõe que tudo quanto se traz de países remotos é de grande valor e estima. No hebreu, daqui até ao fim, são acrósticos os versículos, seguindo as letras daquele alfabeto. — Pereira.
11O coração de seu marido põe nela a sua confiança, e êle não necessitará de despojos.
12Ela lhe tornará o bem, e não o mal, em todos os dias da sua vida.
13Buscou lã e linho, e o trabalhou com a indústria de suas mãos.
14Fêz-se como a nau do negociante, que traz de longe o seu pão.
15E levantou-se de noite, e repartiu a prêsa aos seus domésticos, e o sustento às suas escravas.
16Considerou um campo, e comprou-o: Plantou uma vinha do fruto das suas mãos.
17Cingiu os seus rins de fortaleza e corroborou o seu braço.
18Tomou-lhe o gôsto, e viu que a sua negociação é boa: A sua candeia não se apagará de noite.
19Ela meteu a sua mão a coisas fortes, e os seus dedos pegaram no fuso.
20Abriu a sua mão para o necessitado, e estendeu os seus braços para o pobre.
21Não temerá que venham sôbre a sua família os rigores da neve: Porque todos os seus domésticos trazem vestidos forrados.
22Ela fêz para si móveis de tapeçaria: Ela se vestiu de finíssimo linho, e de púrpura.
23Seu marido será ilustre na assembléia dos juízes, quando estiver assentado com os senadores da terra.
24Ela fêz delicados lenços, e vendeu-os e entregou um cinto ao cananeu.
25A fortaleza e a formosura é o de que ela se reveste, e ela rirá no último dia.
26Ela abriu a sua bôca à sabedoria, e a lei da clemência está na sua língua.
27Considerou as veredas da sua casa, e não comeu o pão ociosa.
28Levantaram-se seus filhos, e aclamaram-na ditosíssima: Levantou-se seu marido, e louvou-a.
29Muitas filhas ajuntaram riquezas: Tu excedeste a tôdas.
30A graça é enganadora, e a formosura é vã: A mulher que teme ao Senhor, essa é a que será louvada.
31Dai-lhe do fruto das suas mãos: E as suas obras a louvem na assembléia dos juízes.