Pe. Figueiredo (1950)

Capítulo 29

Daquele que despreza as correções. Da ruína dos maus. Da correção dos filhos. Das instruções dos profetas. Do homem soberbo. Do temor dos homens.

1Sôbre aquêle homem, que despreza com uma cerviz dura a quem o repreende, virá de repente a sua total ruína: E não terá mais remédio.

2Na multiplicação dos justos se alegrará o vulgo: Quando os ímpios tomarem o govêrno, gemerá o povo.

3O homem, que ama a sabedoria, alegra a seu pai: O que porém sustenta prostitutas, perderá os seus bens.

4O rei justo faz florescer o seu estado: O homem avarento destrui-lo-á.

5O homem que, quando fala ao seu amigo, usa de uma linguagem lisonjeira, e fingida, arma uma rêde aos seus passos.

6Ao homem pecador iníquo envolverá o laço: E o justo louvará e se regozijará.[1]LOUVARÁDará graças a Deus como vingador das maldades, e se alegrará por ficar livre de perigo. —Menochio.

7O justo toma conhecimento da causa dos pobres: O ímpio ignora a ciência.[2]O ÍMPIO IGNORA A CIÊNCIANão trata de tomar conhecimento das causas dos pobres, ou de as promover. —Menochio.

8Os homens pestilentes destroem a cidade: Os sábios, porém, apartam o furor.[3]O FURORA ira de Deus, ou a do príncipe. —Menochio.

9Se o homem sábio disputar com o insensato, ou êle se agaste, ou se ria, não achará descanso.

10Os homens sangüinários aborrecem o simples: Mas os justos procuram conservar-lhe a vida.

11O homem produz logo tudo o que tem no seu espírito: O sábio não se apressa, mas reserva-se para o depois.

12O príncipe, que ouve de boamente as palavras da mentira, só os ímpios tem por ministros.

13O pobre e o credor se encontraram: O Senhor é que alumia um e outro.

14Quando o rei julga os pobres conforme a verdade, o seu trono será firmado para sempre.

15A vara e a correção dão sabedoria: O menino porém, que é deixado à sua vontade, serve de confusão a sua mãe.

16Com a multiplicação dos ímpios se multiplicarão as maldades e os justos verão a sua ruína.[4]E OS JUSTOSOs justos por mercê de Deus conservados, e sobrevivendo aos ímpios, verão ser executada contra êles a divina vingança. —Menochio.

17Cria bem a teu filho, e consolar-te-á, e servirá de delícias à tua alma.

18Quando faltar a profecia, dissipar-se-á o povo: Aquêle porém que guarda a lei, é bem-aventurado.[5]A PROFECIATem êste lugar dois sentidos: um é que quando viesse a faltar profetas na república dos judeus, não tendo êstes com quem se aconselhassem nos negócios de maior consideração e importância, ficaria perdido o povo, por não ter quem lhe declarasse a vontade do Senhor: o outro, que é moral, tomando-se nele o têrmo profecia pela declaração, ou explicação da palavra de Deus, mostra e ensina que se corrompe e perverte o povo, quando não tem ministros e sacerdotes que lhe preguem e intimem os preceitos da lei, e os instruam nas obrigações indispensáveis da verdadeira religião.

19O escravo não pode ser ensinado por palavras: Porque êle entende o que tu dizes, e despreza responder.

20Viste um homem precipitado no falar? mais se devem dêle esperar loucuras, do que emenda.

21Aquêle que cria delicadamente o seu criado desde a infância, ao depois experimentá-lo-á contumaz.

22O homem iracundo excita rixas: E o que fàcilmente se indigna será mais propenso a pecar.

23Ao soberbo segue a humilhação: E o humilde de espírito receberá a glória.

24Aquêle que se associa com o ladrão, aborrece a sua própria alma: Ouve ao que o toma para juramento, e nada denuncia.

25Aquêle que teme ao homem, depressa cairá: O que espera no Senhor será levantado.

26São muitos os que buscam a face do príncipe: Mas do Senhor sai o juízo de cada um.

27Os justos abominam o homem ímpio: E os ímpios abominam aquêles que se acham no caminho direito. O filho que guarda a palavra, será isento da perdição.[6]O FILHO QUE GUARDA A PALAVRAFalta no hebreu, e em S. Jerônimo, mas acha-se nos Setenta. É pois o sentido, que todo o homem, que observa os documentos até aqui propostos e inculcados neste Sagrado Livro, tem de ficar livre da perdição, e ruína do corpo, e principalmente da morte da alma. Esta é a inteligência mais simples e natural das presentes palavras, segundo Menochio.

Nome do livro. — Os hebreus, denominando os livros pela palavra inicial, conheciam êste pela designação de Mischlé, têrmo derivado de maschal, que significa semelhança, comparação, e por extensão máxima, e também, embora mais raras vêzes, provérbio, também alegoria ou parábola, e ainda cânto irónico. Os primeiros cristãos adotaram a denominação dos Setenta, a que corresponde o latim Proverbia. Autor. — Segundo o que se deduz da análise do próprio livro, o autor é Salomão. Prov 1, 1; 10, 1; 25, 1 e ainda o 3 Rs 4, 32, Locutus est quoque Salomon tria millia parabolas (maschal). A origem salomônica de todos os provérbios é confirmada pela uniformidade do estilo e por nada se encontrar que não convenha a Salomão. É certo que acêrca dos capítulos 30 e 31 pode haver dúvida, pois são uns apêndices que têm respectivamente os nomes de Agur, filho de Jaqué e Lamuel, não faltando porém intérpretes que entendem que êstes mesmos nomes se referem a Salomão. Texto original e versões antigas. — O texto original e as mais antigas versões divergem em certos pontos. Os próprios exemplares hebraicos antigos não são rigorosamente uniformes; nuns faltam e em outros sobejam máximas, que aliás se compreende sem dificuldade, visto a forma como eram feitas as cópias. A mais antiga versão é a dos Setenta, que é mais livre do que literal, o que explica também certas variantes. Data do livro dos Provérbios. — A questão da data do livro na sua forma atual é diferente da do autor. A inscrição da segunda coleção dos Provérbios, 25, 1, prova que esta parte foi compilada no tempo de Ezequias, entre 725 e 696 antes de Cristo. Divisão geral. — O livro dos Provérbios compreende: Introdução (1, 1-6); Primeira parte (1, 7 ao c. 9); Segunda parte (10-24); Terceira parte (25-29); Apêndices (30-31).
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