Pe. Figueiredo (1950)

Capítulo 18

Do amigo fiel. Da confiança do justo. E da do rico. Soberba. E humilhação.

1O que quer deixar-se do seu amigo, busca-lhe as ocasiões: Êle será coberto de opróbrio em todo o tempo.[1]ÊLE SERÁ COBERTOTodos censurarão o seu modo de obrar, com que desamparou ao amigo. — Menochio.

2O insensato não recebe as palavras da prudência: Se tu lhe não falares em correspondência das coisas, que passam dentro no seu coração.

3O ímpio, depois de haver chegado ao profundo dos pecados, tudo despreza: Mas a ignomínia e o opróbrio o vão seguindo.

4As palavras saem da bôca do varão, como uma água profunda: E a fonte da sabedoria é como a torrente, que transborda.[2]DA BÔCA DO VARÃOIsto é, do varão sábio. — Pereira.

5Não é bom guardar respeito à pessoa do ímpio, para te desviares da verdade do juízo.[3]PARA TE DESVIARESO hebreu lê: "para perder a causa do justo em juízo". — Pereira.

6Os lábios do insensato metem-se em disputas: e a sua bôca provoca a contendas.

7A bôca do insensato fere-o a êle mesmo: E os seus lábios são a ruína da sua alma.[4]FERE-O A ÊLE MESMOOu mais à letra: "é o seu quebrantamento". Pode-se dizer, que é como um martelo, que o pisa e esmigalha. O hebreu lê: "A bôca do insensato é o seu terror: e os seus lábios são um laço para a sua alma". — Pereira.

8As palavras do homem de língua dobre parecem singelas: Mas elas penetram até o íntimo das entranhas. O temor abate o preguiçoso: Mas as almas dos efeminados terão fome.[5]O TEMOR ABATE O PREGUIÇOSOÊste versículo não se acha no hebreu, nem em S. Jerônimo, mas trazem-no os Setenta. — Calmet.

9Aquêle que é mole e frouxo no seu trabalho, é irmão do que dissipa as suas obras.[6]IRMÃO DO QUE DISSIPAIsto é, semelhante ao que dissipa as suas obras; porque também frater se toma por aquêle que é semelhante ao outro, assim em boa, como em má parte. — Pereira.

10O nome do Senhor é uma tôrre fortíssima: A êle mesmo se acolhe o justo, e será exaltado.[7]O NOME DO SENHORO nome do Senhor vem aqui a significar o mesmo Senhor, ou a sua ajuda e patrocínio, que é como uma tôrre fortíssima, na qual, refugiando-se o justo, ficará sobranceiro a todos os ataques e arremetidas de seus inimigos. — Pereira.

11O cabedal do rico é a cidade da sua fortaleza, e uma como grossa muralha que o cerca.[8]O CABEDAL DO RICOConfira-se com esta sentença o que já o sábio deixou dito no c. 10, v. 15. — Pereira.

12O coração do homem eleva-se antes de ser quebrantado: E humilha-se antes de ser glorificado.

13Aquêle que responde antes de ouvir, mostra ser um insensato, e digno de confusão.

14O espírito do homem sustém a sua debilidade: Mas quem poderá suster a um espírito que fàcilmente se deixa levar da ira?[9]O ESPÍRITO DO HOMEMO hebreu diz: "O espírito do homem (isto é, o vigor do seu ânimo) sustém a enfermidade dêle; (vem a dizer, sustém-no nas enfermidades do seu corpo) mas quebrantado o ânimo, e abatido o espírito, quem o susterá, ou quem o alentará". Do sentido da Vulgata, pouco diferem os Setenta, que têm: "O servo prudente mitiga o furor do varão: (ou do amo, a quem serve) mas quem poderá sofrer o homem impaciente?" — Pereira.

15O coração prudente possuirá a ciência: E o ouvido dos sábios busca a doutrina.

16O presente que um homem faz abre-lhe um dilatado caminho, e dá-lhe lugar diante dos príncipes.

17O justo é o primeiro que a si mesmo se acusa: Vem depois o seu amigo, e êle o sondará.[10]O JUSTO É O PRIMEIRO QUE A SI MESMO SE ACUSAO hebreu faz um sentido muito diverso, qual é o que se segue: "O que primeiro justifica a sua causa, parece mais justo. Vem depois o seu sócio (os Setenta dizem, o seu adversário) e êste o sondará", isto é, e êste descobrirá o vício da causa. — Bossuet.

18A sorte apazigua as diferenças, e decide ainda entre os poderosos.

19O irmão, que é ajudado por seu irmão, é como uma cidade forte: E os seus juízos são como os ferrolhos das cidades.[11]E OS SEUS JUÍZOSAssim como pela concórdia se acham firmes as casas dos particulares, assim também a cidade pela justiça fica mais bem segura, do que se estivera muito bem fechada, ou aferrolhada. — Menochio.

20Do fruto da bôca do homem se encherá o seu ventre: E os renovos dos seus lábios o fartarão.[12]DO FRUTO DA BÔCAAs palavras do que fala são para êle uma fonte e origem ou de bens, ou de males. — Calmet.

21A morte e a vida estão no poder da língua: Os que a amam, comerão dos seus frutos.

22Aquêle que achou a uma mulher boa, achou o bem: E receberá do Senhor um manancial de alegria. Aquêle que expele a uma mulher virtuosa, expele o bem: Mas o que retém a adúltera é um insensato e um ímpio.[13]AQUÊLE QUE EXPELE A UMA MULHER VIRTUOSAÊste versículo falta no hebreu, e em vários manuscritos latinos, e na edição do cardeal Ximenes, e na de Xisto V, e na nova de S. Jerônimo; mas êle se acha nos Setenta, e muitos Padres o citaram. — Calmet.

23O pobre falará com súplicas: E o rico lhe responderá com aspereza.

24O homem amável no trato será mais amigo do que um irmão.[14]O HOMEM AMÁVELAquêle que é humano, benigno e suave, e que nas necessidades acode ao amigo pôsto em aflição, é mais amado que um parente, e ainda que um irmão. — Menochio.

Nome do livro. — Os hebreus, denominando os livros pela palavra inicial, conheciam êste pela designação de Mischlé, têrmo derivado de maschal, que significa semelhança, comparação, e por extensão máxima, e também, embora mais raras vêzes, provérbio, também alegoria ou parábola, e ainda cânto irónico. Os primeiros cristãos adotaram a denominação dos Setenta, a que corresponde o latim Proverbia. Autor. — Segundo o que se deduz da análise do próprio livro, o autor é Salomão. Prov 1, 1; 10, 1; 25, 1 e ainda o 3 Rs 4, 32, Locutus est quoque Salomon tria millia parabolas (maschal). A origem salomônica de todos os provérbios é confirmada pela uniformidade do estilo e por nada se encontrar que não convenha a Salomão. É certo que acêrca dos capítulos 30 e 31 pode haver dúvida, pois são uns apêndices que têm respectivamente os nomes de Agur, filho de Jaqué e Lamuel, não faltando porém intérpretes que entendem que êstes mesmos nomes se referem a Salomão. Texto original e versões antigas. — O texto original e as mais antigas versões divergem em certos pontos. Os próprios exemplares hebraicos antigos não são rigorosamente uniformes; nuns faltam e em outros sobejam máximas, que aliás se compreende sem dificuldade, visto a forma como eram feitas as cópias. A mais antiga versão é a dos Setenta, que é mais livre do que literal, o que explica também certas variantes. Data do livro dos Provérbios. — A questão da data do livro na sua forma atual é diferente da do autor. A inscrição da segunda coleção dos Provérbios, 25, 1, prova que esta parte foi compilada no tempo de Ezequias, entre 725 e 696 antes de Cristo. Divisão geral. — O livro dos Provérbios compreende: Introdução (1, 1-6); Primeira parte (1, 7 ao c. 9); Segunda parte (10-24); Terceira parte (25-29); Apêndices (30-31).
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