Capítulo 18
1O que quer deixar-se do seu amigo, busca-lhe as ocasiões: Êle será coberto de opróbrio em todo o tempo.[1]ÊLE SERÁ COBERTO — Todos censurarão o seu modo de obrar, com que desamparou ao amigo. — Menochio.
2O insensato não recebe as palavras da prudência: Se tu lhe não falares em correspondência das coisas, que passam dentro no seu coração.
3O ímpio, depois de haver chegado ao profundo dos pecados, tudo despreza: Mas a ignomínia e o opróbrio o vão seguindo.
4As palavras saem da bôca do varão, como uma água profunda: E a fonte da sabedoria é como a torrente, que transborda.[2]DA BÔCA DO VARÃO — Isto é, do varão sábio. — Pereira.
5Não é bom guardar respeito à pessoa do ímpio, para te desviares da verdade do juízo.[3]PARA TE DESVIARES — O hebreu lê: "para perder a causa do justo em juízo". — Pereira.
6Os lábios do insensato metem-se em disputas: e a sua bôca provoca a contendas.
7A bôca do insensato fere-o a êle mesmo: E os seus lábios são a ruína da sua alma.[4]FERE-O A ÊLE MESMO — Ou mais à letra: "é o seu quebrantamento". Pode-se dizer, que é como um martelo, que o pisa e esmigalha. O hebreu lê: "A bôca do insensato é o seu terror: e os seus lábios são um laço para a sua alma". — Pereira.
8As palavras do homem de língua dobre parecem singelas: Mas elas penetram até o íntimo das entranhas. O temor abate o preguiçoso: Mas as almas dos efeminados terão fome.[5]O TEMOR ABATE O PREGUIÇOSO — Êste versículo não se acha no hebreu, nem em S. Jerônimo, mas trazem-no os Setenta. — Calmet.
9Aquêle que é mole e frouxo no seu trabalho, é irmão do que dissipa as suas obras.[6]IRMÃO DO QUE DISSIPA — Isto é, semelhante ao que dissipa as suas obras; porque também frater se toma por aquêle que é semelhante ao outro, assim em boa, como em má parte. — Pereira.
10O nome do Senhor é uma tôrre fortíssima: A êle mesmo se acolhe o justo, e será exaltado.[7]O NOME DO SENHOR — O nome do Senhor vem aqui a significar o mesmo Senhor, ou a sua ajuda e patrocínio, que é como uma tôrre fortíssima, na qual, refugiando-se o justo, ficará sobranceiro a todos os ataques e arremetidas de seus inimigos. — Pereira.
11O cabedal do rico é a cidade da sua fortaleza, e uma como grossa muralha que o cerca.[8]O CABEDAL DO RICO — Confira-se com esta sentença o que já o sábio deixou dito no c. 10, v. 15. — Pereira.
12O coração do homem eleva-se antes de ser quebrantado: E humilha-se antes de ser glorificado.
13Aquêle que responde antes de ouvir, mostra ser um insensato, e digno de confusão.
14O espírito do homem sustém a sua debilidade: Mas quem poderá suster a um espírito que fàcilmente se deixa levar da ira?[9]O ESPÍRITO DO HOMEM — O hebreu diz: "O espírito do homem (isto é, o vigor do seu ânimo) sustém a enfermidade dêle; (vem a dizer, sustém-no nas enfermidades do seu corpo) mas quebrantado o ânimo, e abatido o espírito, quem o susterá, ou quem o alentará". Do sentido da Vulgata, pouco diferem os Setenta, que têm: "O servo prudente mitiga o furor do varão: (ou do amo, a quem serve) mas quem poderá sofrer o homem impaciente?" — Pereira.
15O coração prudente possuirá a ciência: E o ouvido dos sábios busca a doutrina.
16O presente que um homem faz abre-lhe um dilatado caminho, e dá-lhe lugar diante dos príncipes.
17O justo é o primeiro que a si mesmo se acusa: Vem depois o seu amigo, e êle o sondará.[10]O JUSTO É O PRIMEIRO QUE A SI MESMO SE ACUSA — O hebreu faz um sentido muito diverso, qual é o que se segue: "O que primeiro justifica a sua causa, parece mais justo. Vem depois o seu sócio (os Setenta dizem, o seu adversário) e êste o sondará", isto é, e êste descobrirá o vício da causa. — Bossuet.
18A sorte apazigua as diferenças, e decide ainda entre os poderosos.
19O irmão, que é ajudado por seu irmão, é como uma cidade forte: E os seus juízos são como os ferrolhos das cidades.[11]E OS SEUS JUÍZOS — Assim como pela concórdia se acham firmes as casas dos particulares, assim também a cidade pela justiça fica mais bem segura, do que se estivera muito bem fechada, ou aferrolhada. — Menochio.
20Do fruto da bôca do homem se encherá o seu ventre: E os renovos dos seus lábios o fartarão.[12]DO FRUTO DA BÔCA — As palavras do que fala são para êle uma fonte e origem ou de bens, ou de males. — Calmet.
21A morte e a vida estão no poder da língua: Os que a amam, comerão dos seus frutos.
22Aquêle que achou a uma mulher boa, achou o bem: E receberá do Senhor um manancial de alegria. Aquêle que expele a uma mulher virtuosa, expele o bem: Mas o que retém a adúltera é um insensato e um ímpio.[13]AQUÊLE QUE EXPELE A UMA MULHER VIRTUOSA — Êste versículo falta no hebreu, e em vários manuscritos latinos, e na edição do cardeal Ximenes, e na de Xisto V, e na nova de S. Jerônimo; mas êle se acha nos Setenta, e muitos Padres o citaram. — Calmet.
23O pobre falará com súplicas: E o rico lhe responderá com aspereza.
24O homem amável no trato será mais amigo do que um irmão.[14]O HOMEM AMÁVEL — Aquêle que é humano, benigno e suave, e que nas necessidades acode ao amigo pôsto em aflição, é mais amado que um parente, e ainda que um irmão. — Menochio.