Pe. Figueiredo (1950)

Capítulo 20

O vinho, origem de desordens. Do homem preguiçoso. Perigo das fianças. Honrar a seus pais. Não dar mal por mal. Os grandes males pedem grandes remédios.

1O vinho é uma coisa luxuriosa, e a embriaguez é cheia de desordens: Todo aquêle que nisto põe o seu gôsto, não será sábio.

2Assim como sobressalta o rugido do leão, assim também o terror que infunde o rei: Aquêle que o irrita, contra a sua alma peca.

3O homem que se separa de contendas, tem esta glória, mas todos os imprudentes se envolvem no que lhes traz a sua confusão.

4O preguiçoso não quis lavrar por causa do frio: Êle mendigará pois no verão, e não se lhe dará coisa alguma.

5O conselho é no coração do homem como a água profunda: Mas o homem sábio daí o tirará.[1]O TIRARÁIsto é, sondará o sábio o mais profundo; penetrará o mais recôndito do coração dos outros.

6Muitos homens se chamam compassivos: Mas quem achará um homem fiel?

7O justo, que anda na sua simplicidade, deixará depois de si bem-aventurados a seus filhos.

8O rei, que está assentado no seu trono de justiça, dissipa todo o mal só com o olhar.

9Quem pode dizer: O meu coração está puro, eu estou isento de pecado?

10Um pêso, e outro pêso, uma medida e outra medida: São duas coisas abomináveis diante de Deus.[2]UM PÊSONão só condena e proíbe aqui o sábio, juntamente com o engano dos falsos pesos e medidas, tôdas as fraudes no comércio, mas ainda na acepção de pessoa, o rigor com que tratamos os mais, sendo para nós indulgentes. — Pereira.

11Pelas suas inclinações se conhece no menino se as suas obras haverão de ser puras e retas.

12O ouvido que ouve, e o ôlho que vê, ambas estas coisas fêz o Senhor.

13Não queiras ser amigo do sono, para que a pobreza te não oprima: Abre os teus olhos, e sê farto de pão.

14Isto não vale nada, isto não vale nada, diz todo o comprador: E depois de se retirar, êle então se gloriará.

15Há ouro e grande quantidade de pedras preciosas: E os lábios da ciência são um vaso precioso.[3]DA CIÊNCIAIsto é: do homem sábio e eloqüente.

16Tira o vestido àquele que ficou por fiador dum desconhecido, e leva-lhe de casa o penhor, pois êle se obrigou por estranhos.

17O pão da mentira é gostoso ao homem: Porém ao depois a sua bôca será cheia de areia.[4]SERÁ CHEIA DE AREIAÉ pão adquirido por meios ilícitos, não é de espantar, que sem embargo de ser gostoso, apenas êle comido, fique a bôca trincando areia, terra ou miúdo burgalhão com que se quebrem os dentes, que é de que se lamentava Jeremias nos Trenos 3,9. Por onde o ímpio, ainda que se utilize por algum tempo dêstes bens tão injustamente havidos, com o receio sempre da sua inconstância, de ordinário vêm sôbre êle na vida castigos e, o que é pior, na morte a condenação eterna. — Pereira.

18Os pensamentos roboram-se pelos conselhos: E as guerras devem ser governadas com os lemes.[5]COM OS LEMESIsto é, com prudência, vigilância, indústria e conselho; porque tanto caso devem fazer os generais do conselho, como o pilôto do leme.

19Não te familiarizes com aquêle que revela os segredos, e que anda com fingimento, e que abre muito os seus lábios.

20Aquêle que amaldiçoa a seu pai, e a sua mãe, apagar-se-lhe-á a sua candeia no meio das trevas.

21A herança, que um se apressa a adquirir no princípio, carecerá de bênção no fim.

22Não digas: Darei mal por mal: Espera pelo Senhor, e êle te livrará.

23Ter um pêso e outro pêso, é abominação diante de Deus: A balança enganosa não é boa.

24Os passos do homem são dirigidos pelo Senhor: Mas que homem pode compreender o seu mesmo caminho?[6]OS PASSOS DO HOMEMConfira-se Jer 10,23.

25É uma ruína para o homem devorar os Santos e depois retratar os votos.[7]DEVORAR OS SANTOSAtacá-los, persegui-los. Deus os bons, castigando com a morte os que os perseguem, defende como sucedeu a Faraó, Antíoco, etc.

26O rei sábio dissipa os ímpios, curva sôbre êles um arco de triunfo.[8]CURVA SÔBRE ÊLES UM ARCO DE TRIUNFOÉ a tradução literal da Vulgata Incurvat super eos fornicem, texto que se explica assim: fêz com que passassem debaixo do arco do seu triunfo. Porém o que está no hebreu é: Levou sôbre êles uma roda, ou melhor, passou com uma roda por cima dêles, isto é, infligiu-lhes o suplício de serem rodados. Sabe-se que Davi, depois de ter vencido os amonitas, castigou-os desta mesma maneira; circumegit super eos ferrata carpenta, 2 Rs 12,31. A Escritura alude frequentes vêzes a esta tortura.

27O sôpro do homem é uma luz do Senhor, a qual perscruta todos os segredos do seu íntimo.[9]DO SEU ÍNTIMOO que se passa no recôndito do seu coração; todos os seus instintos, as suas tendências, as suas volições: Intima quaeque in homine affectus, studia, cogitationes. — Menochio.

28A misericórdia e a verdade guardam ao rei, e o seu trono se firma com a clemência.[10]A MISERICÓRDIA E A VERDADEIsto é, a clemência e a justiça. — Menochio.

29A exaltação dos mancebos é a fôrça dêles: E a dignidade dos velhos são as suas cãs.[11]A EXALTAÇÃO DOS MANCEBOSA mocidade gloria-se da robustez das suas fôrças, a velhice da madureza, da sabedoria, da experiência, da ciência. — Calmet.

30Os males alimpar-se-ão pelo lívido das feridas: E pelas chagas no mais secreto do ventre.[12]OS MALESOs ímpios corrigem-se com os castigos; o insensato não terá cura, senão com a repreensão mais grave que se lhe der e com a severidade da pena que se lhe aplicar. É inteligência literal de Calmet, porém S. Gregório Magno, explicando êste lugar no livro 23 dos morais, diz assim: Pelo lívido das feridas insinua o sábio a correção do castigo do corpo, e as chagas no mais secreto do ventre são os internos golpes na alma, que se fazem pela interior compunção e arrependimento dos pecados. — Pereira.

Nome do livro. — Os hebreus, denominando os livros pela palavra inicial, conheciam êste pela designação de Mischlé, têrmo derivado de maschal, que significa semelhança, comparação, e por extensão máxima, e também, embora mais raras vêzes, provérbio, também alegoria ou parábola, e ainda cânto irónico. Os primeiros cristãos adotaram a denominação dos Setenta, a que corresponde o latim Proverbia. Autor. — Segundo o que se deduz da análise do próprio livro, o autor é Salomão. Prov 1, 1; 10, 1; 25, 1 e ainda o 3 Rs 4, 32, Locutus est quoque Salomon tria millia parabolas (maschal). A origem salomônica de todos os provérbios é confirmada pela uniformidade do estilo e por nada se encontrar que não convenha a Salomão. É certo que acêrca dos capítulos 30 e 31 pode haver dúvida, pois são uns apêndices que têm respectivamente os nomes de Agur, filho de Jaqué e Lamuel, não faltando porém intérpretes que entendem que êstes mesmos nomes se referem a Salomão. Texto original e versões antigas. — O texto original e as mais antigas versões divergem em certos pontos. Os próprios exemplares hebraicos antigos não são rigorosamente uniformes; nuns faltam e em outros sobejam máximas, que aliás se compreende sem dificuldade, visto a forma como eram feitas as cópias. A mais antiga versão é a dos Setenta, que é mais livre do que literal, o que explica também certas variantes. Data do livro dos Provérbios. — A questão da data do livro na sua forma atual é diferente da do autor. A inscrição da segunda coleção dos Provérbios, 25, 1, prova que esta parte foi compilada no tempo de Ezequias, entre 725 e 696 antes de Cristo. Divisão geral. — O livro dos Provérbios compreende: Introdução (1, 1-6); Primeira parte (1, 7 ao c. 9); Segunda parte (10-24); Terceira parte (25-29); Apêndices (30-31).
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