Pe. Figueiredo (1950)

Capítulo 16

Deus dispõe da língua, e dos passos do homem. Ira e clemência do rei. Males que causa a soberba. Caminho funesto que parece bom. Deus regula e conduz as sortes.

1Da parte do homem está o preparar a sua alma: E da parte do Senhor o governar-lhe a língua.[1]DA PARTE DO HOMEMContra tôdas as traças e disposições humanas prevaleceram sempre os decretos divinos. Propõe o homem, depois de grande ponderação, dizer uma coisa, e ao tempo que a vai proferir, dispõe Deus muitas vêzes que fale em sentido bem diverso do que premeditara. O exemplo dos edificadores da tôrre de Babel, cujas línguas se confundiram, Gên 11,7, e das maldições de Balaão, trocadas em bênçãos, Núm 23,11, o do conselho enfatuado de Aquitofel 2 Rs 15,31; 17,14, o da divina permissão de não serem contestas as falsas testemunhas contra Cristo, Mc 14,56, todos êstes ilustram o presente lugar, de que abusavam os inimigos da graça, para provarem que o princípio da salvação do homem dependia das fôrças do seu alvedrio, proposição diametralmente oposta à doutrina da mesma escritura, dos Padres e decisões dos concílios, porque, a não ser ajudado o homem da graça proveniente, não poderia fazer uma boa obra, nem ter sequer um pensamento merecedor de recompensa. Confira-se com êste o versículo 9 do presente capítulo e o 24 do 20. — Pereira.

2Todos os caminhos do homem estão patentes aos seus olhos: O Senhor pesa os espíritos.[2]TODOS OS CAMINHOSO hebreu diz: Todos os caminhos do homem são puros a seus olhos. Cuida cada um que nada há senão puro e irrepreensível nos seus costumes; porém Deus é só o verdadeiro juiz, que reservou para si êste juízo e conhecimento. — Pereira.

3Descobre ao Senhor as tuas obras, e serão dirigidos os teus pensamentos.[3]DESCOBRE AO SENHORO hebreu diz: "Volve (ou refere) ao Senhor as tuas obras, e ficarão firmes os teus pensamentos." — Pereira.

4Tudo fêz o Senhor por causa de si mesmo: Até ao ímpio para o dia mau.[4]TUDO FÊZ O SENHOR POR CAUSA DE SI MESMOIsto é, para manifestação da sua glória, do seu poder, e dos outros seus divinos atributos. É nesta matéria digno de se ler o padre Bernardos no princípio do seu tratado intitulado últimos fins do homem, onde êle discorre sôbre a predestinação e reprovação, não como um simples ascético, mas como um grande teólogo. — Pereira. ATÉ AO ÍMPIO PARA O DIA MAU — É o que Deus disse, falando com Faraó: Idcirco autem posui te, ut ostendam in te fortitudinem meam, et narretur nomen meum in omni terra. A causa por que eu te constituí, foi para mostrar o meu poder, e para que o meu nome seja celebrado em tôda a terra. Ex 9. Do qual texto se valeu S. Paulo para demonstrar o mesmo assunto. Rom 9,17. — Bossuet.

5Todo o arrogante é a abominação do Senhor: Ainda quando estiver com uma mão sôbre outra, não é inocente. O princípio do caminho bom é praticar a justiça: E diante de Deus é mais aceita do que imolar hóstias.[5]O PRINCÍPIO DO CAMINHO BOMÊste versículo não se encontra no hebreu. — Pereira.

6A iniquidade redime-se pela misericórdia e pela verdade: E o mal evita-se pelo temor do Senhor.

7Quando os caminhos do homem agradarem ao Senhor, até reduzirá à paz os seus inimigos.

8Melhor é o pouco com justiça, do que muitos frutos com iniquidade.

9O coração do homem dispõe o seu caminho: Mas da parte do Senhor está dirigir os seus passos.[6]O CORAÇÃO DO HOMEMO sentido dêste versículo é o mesmo que o do primeiro dêste capítulo. — Pereira.

10A adivinhação se acha nos lábios do rei, a sua bôca não errará no juízo.[7]ADIVINHAÇÃOFala o sábio das inspirações que Deus costuma dar aos reis, tão claras no manejo do seu govêrno, que parece adivinham, quando decisivamente mandam ou proíbem alguma coisa. Também se entende êste lugar das palavras do rei, que são como um oráculo de Deus, cujo lugar-tenente se chama sôbre a terra. É o que disse aquela mulher a Davi: Tu autem, Domine mi Rex, sapiens es, sicut habet sapientiam Angelus Dei, ut intelligas omnia super terram. Tu, meu senhor rei, és sábio, e a tua sabedoria é como a que tem um anjo de Deus para conheceres tudo sôbre a terra 2 Rs 14,20. — Pereira.

11Os juízos do Senhor são pêso e balança: E as suas obras são tôdas as pedras do saco.[8]AS SUAS OBRAS SÃO TÔDAS AS PEDRAS DO SACOAlude ao costume dos antigos, que para pesarem traziam pedras metidas num saco. — Bossuet.

12Os que obram impiamente são abomináveis ao rei: Porque o trono se firma com justiça.

13A vontade dos reis são os lábios justos: O que fala coisas retas, será amado.[9]A VONTADE DOS REISRequerem os reis justiça e verdade nos que se chegam à sua presença. — Calmet.

14A indignação do rei são uns correios da morte: E o varão sábio a aplacará.

15Na alegria do semblante do rei está a vida: E a sua clemência é como a chuva serôdia.

16Possui sabedoria, pois que ela é melhor do que o ouro: E adquire a prudência, pois que é mais preciosa do que a prata.

17A vereda dos justos aparta os males: O que guarda a sua alma conserva o seu caminho.

18A soberba precede a ruína: E o espírito eleva-se antes da queda.

19Mais vale ser humilhado com os mansos, do que repartir despojos com os soberbos.

20O que é hábil no empreendido negócio, achará bens: E o que espera no Senhor, é bem-aventurado.[10]O QUE É HÁBILDe outro modo, conforme à letra, será: "O instruído na palavra" (isto é, de Deus) "achará bens, etc.". O sentido do hebreu e também da Vulgata é que todo o que maneja qualquer negócio com inteligência e conhecimento, sairá bem dêle; porém, o que de tal maneira põe a sua confiança em Deus, que não faz firmeza na sua indústria, êsse é o ditoso e bem-aventurado. — Pereira.

21O que é sábio do coração, será chamado prudente: E o que é doce no falar, receberá coisas maiores.[11]O QUE É SÁBIOO sábio cordato granjeará nomeada de prudente, mas o que à sua sabedoria acrescentar eloquência, muito maior será o seu merecimento, pela vantagem que terá de ensinar e persuadir aos outros, como dá a entender o hebreu, que diz: "E a doçura dos seus lábios acrescentará" (ou autorizará) "a sua doutrina". — Pereira.

22A erudição do que a possui é uma fonte da vida: A doutrina dos insensatos é fatuidade.

23O coração do sábio instruirá a sua bôca: E acrescentará graça aos seus lábios.[12]O CORAÇÃO DO SÁBIOA sabedoria resplandece nas palavras do homem sábio e pelo indício dos seus discursos vem a entender-se que êle dentro na alma possui a mesma sabedoria. — Calmet.

24As palavras compostas são um favo de mel: A doçura da alma é a saúde dos ossos.

25Há um caminho que parece ao homem que é direito: E contudo o seu fim guia para a morte.

26A alma do que trabalha, para si trabalha, porque a sua bôca o constrangeu a isso.

27O varão ímpio cava o mal, e nos seus lábios se vai ateando o fogo.[13]CAVA O MALEsta locução, cavar o mal, significa obrar o mal sèriamente e com fadiga; desenterrá-lo como se desenterra um tesouro; ocupar-se todo nêle. — Calmet.

28O homem perverso move pleitos: E o verboso divide os príncipes.

29O homem iníquo atrai ao seu amigo: E o conduz por um caminho não bom.[14]ATRAIOu amamenta, convida com lisonja. Lacto é frequentativo de lacio, de onde vêm os compostos allicio, illicio, etc., como já advertiu Menochio a êste lugar. — Pereira.

30Aquêle que cogita em malvados projetos com os olhos espantados, executa o mal mordendo os seus beiços.[15]AQUÊLE QUE COGITATodos êstes gestos do corpo, que Salomão aqui, ao passo que descreve, condena, costumam ser indícios de um ânimo mal intencionado e de furiosas paixões corrompido. — Pereira.

31Coroa de dignidade é a velhice, a qual se achará nos caminhos da justiça.

32O homem paciente vale mais do que o valoroso: E o que domina o seu ânimo, do que o expugnador de cidades.

33Os bilhetes da sorte lançam-se numa dobra do vestido, mas o Senhor é quem os tempera.

Nome do livro. — Os hebreus, denominando os livros pela palavra inicial, conheciam êste pela designação de Mischlé, têrmo derivado de maschal, que significa semelhança, comparação, e por extensão máxima, e também, embora mais raras vêzes, provérbio, também alegoria ou parábola, e ainda cânto irónico. Os primeiros cristãos adotaram a denominação dos Setenta, a que corresponde o latim Proverbia. Autor. — Segundo o que se deduz da análise do próprio livro, o autor é Salomão. Prov 1, 1; 10, 1; 25, 1 e ainda o 3 Rs 4, 32, Locutus est quoque Salomon tria millia parabolas (maschal). A origem salomônica de todos os provérbios é confirmada pela uniformidade do estilo e por nada se encontrar que não convenha a Salomão. É certo que acêrca dos capítulos 30 e 31 pode haver dúvida, pois são uns apêndices que têm respectivamente os nomes de Agur, filho de Jaqué e Lamuel, não faltando porém intérpretes que entendem que êstes mesmos nomes se referem a Salomão. Texto original e versões antigas. — O texto original e as mais antigas versões divergem em certos pontos. Os próprios exemplares hebraicos antigos não são rigorosamente uniformes; nuns faltam e em outros sobejam máximas, que aliás se compreende sem dificuldade, visto a forma como eram feitas as cópias. A mais antiga versão é a dos Setenta, que é mais livre do que literal, o que explica também certas variantes. Data do livro dos Provérbios. — A questão da data do livro na sua forma atual é diferente da do autor. A inscrição da segunda coleção dos Provérbios, 25, 1, prova que esta parte foi compilada no tempo de Ezequias, entre 725 e 696 antes de Cristo. Divisão geral. — O livro dos Provérbios compreende: Introdução (1, 1-6); Primeira parte (1, 7 ao c. 9); Segunda parte (10-24); Terceira parte (25-29); Apêndices (30-31).
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