Pe. Figueiredo (1950)

Capítulo 30

A sabedoria é um dom de Deus. Danos que nascem das riquezas, e da pobreza. Progênies execráveis. Filhas da sanguessuga. Coisas insaciáveis. Coisas desconhecidas. Coisas insuportáveis. Coisas muito sábias. Coisas que andam bem.

1Palavras do que congrega, filho do que arrevesa sabedoria. Visão que expôs um varão, com quem está Deus, e que tendo sido confortado pela assistência de Deus que reside nêle, disse:[1]PALAVRAS DO QUE CONGREGAO hebreu tem aqui: «Palavra de Agur filho de Iakeh.» O autor da Vulgata em lugar dêstes nomes próprios põe as suas interpretações. A dúvida é: Quem são êstes que o hebreu chama Agur e Iakeh? A maior parte dos modernos expositores tomam êstes nomes por nomes próprios de dois homens, diversos de Salomão e de Davi. Muitos Padres pelo contrário, e com êles alguns comentadores, querem que Salomão se designe aqui pelo nome "do que congrega", da mesma sorte que no princípio do livro do Eclesiastes, toma êle o nome de Eclesiastes, que quer dizer o "diretor da assembléia", e que debaixo do nome "do que arrevesa sabedoria", se designe Davi, que cheio do Espírito de Deus espalhou da sua bôca um grande número de Santos Cânticos. — VISÃO QUE EXPÔS UM VARÃO — O hebreu prossegue aqui: "Profecia, que êste homem dirigiu a Itbiel, e a Ucal." — Pereira.

2Eu sou o mais insensato dos homens, e a sabedoria dos homens não está comigo.[2]EU SOUSolicitado talvez por seus discípulos para que falasse, responde o autor com esta modéstia, própria das pessoas do seu caráter. — E A SABEDORIA DOS HOMENS — A sabedoria adquirida pelo estudo, qual se acha em alguns homens doutos. — Menochio.

3Eu não aprendi a sabedoria, e não conheci a ciência dos santos.[3]A CIÊNCIA DOS SANTOSA ciência das coisas santas e divinas. Ou a ciência que houve nos santos profetas e há nos santos anjos. — Menochio.

4Quem subiu ao céu, e desceu dêle? quem reteve o vento nas suas mãos? quem atou as águas como num vestido? quem firmou tôda a extensão da terra? Qual é o seu nome, e qual é o nome de seu filho, se é que o sabes?[4]E DESCEU DÊLE?Nisto mostra o autor que só Deus foi quem lhe inspirou as verdades que aí a proferir e a publicar. — Pereira.

5Tôda a palavra de Deus é purificada ao fogo: Êle é um escudo para os que esperam nêle:

6Não acrescentes nada às suas palavras, para não sêres por isso repreendido, e achado mentiroso.

7Duas coisas são as que te pedi: Não mas negues antes que morra.

8Alonga de mim a vaidade, e as palavras de mentira: Não me dês nem a pobreza, nem as riquezas: Dá-me somente o que fôr necessário para viver:

9Para que não suceda que, estando farto, seja eu tentado a te renunciar, e a dizer: Quem é o Senhor? Ou que, constrangido da indigência, me ponha a furtar, e viole por um juramento o nome de meu Deus.

10Não acuses o servo diante de seu Senhor, para que não suceda amaldiçoar-te êle, e caíres tu.

11Há uma progênie, que amaldiçoa a seu pai, e que não abençoa a sua mãe.

12Há uma progênie, que crê de si que é pura, e contudo ela não está limpa das suas manchas.

13Há uma progênie, cujos olhos são altivos, e as suas pálpebras levantadas para cima.

14Há uma progênie, que em lugar de dentes tem espadas, e mastiga com os seus queixais, para devorar os que não têm nada na terra, e que são pobres entre os homens.[5]QUE EM LUGAR DE DENTES TEM ESPADASEntendem-se os homens cruéis e avarentos, que despedaçam os pobres como com dentes de fera, cujos dentes são como espadas. — Menochio.

15Duas são as filhas da sanguessuga, que dizem: Traze, traze. Há três coisas, que são insaciáveis, e uma quarta que nunca diz: Basta.

16O inferno, e a bôca da madre, e a terra, que se não farta de água: Do mesmo modo o fogo nunca diz: Basta:

17Quanto ao ôlho do que escarnece de seu pai, e do que despreza a paridura de sua mãe, arranquem-no os corvos, que andam à borda das torrentes, e comam-no os filhos da águia.

18Três coisas me são dificultosas de entender, e uma quarta eu a ignoro inteiramente:

19O caminho da águia no ar, o caminho da cobra sôbre a pedra, o caminho da nau no meio do mar, e o caminho do homem na sua mocidade.

20Tal é também o caminho da mulher adúltera, a qual come, e alimpando a sua bôca, diz: Eu não fiz mal nenhum.

21A terra estremece com três coisas, e a quarta não a pôde ela suportar:

22Com um escravo, quando êste reinar: Com um insensato, quando estiver farto de comer:

23Com uma mulher odiosa, quando um homem a receber: E com uma escrava, quando esta vier a ficar herdeira de sua senhora.

24Quatro coisas há na terra, que são muito pequenas, e que são mais sábias do que os mesmos sábios.

25As formigas, aquêle fraco povo, que faz o seu provimento durante a messe:

26Os coelhos, aquela débil tropa, que faz a sua habitação nos rochedos:

27Os gafanhotos, que não têm rei, e que todavia saem todos ordenados em seus esquadrões:

28O lagarto, que se sustém nas suas mãos, e que mora no palácio dos reis.[6]O LAGARTOÉ o dhab, muito freqüente no vale do Jordão; os árabes comem-no, e servem-se da pele para fazer bainhas para os sabres, sacos para tabaco, etc.

29Há três coisas, que andam bem, e uma quarta que anda magnificamente:

30O leão, o mais forte dos animais, de nada que encontre terá mêdo:

31O galo, que anda mui senhor de si: E o carneiro: E um rei, a quem nada resiste.

32Tal homem há que pareceu um insensato, depois que foi elevado a uma sublime ordem: Porque se êle tivesse tido inteligência, teria pôsto a mão na sua bôca.

33Aquêle que com fôrça espreme a têta para tirar leite, faz sair dela um suco crasso: E aquêle que excita a ira produz discórdias.

Nome do livro. — Os hebreus, denominando os livros pela palavra inicial, conheciam êste pela designação de Mischlé, têrmo derivado de maschal, que significa semelhança, comparação, e por extensão máxima, e também, embora mais raras vêzes, provérbio, também alegoria ou parábola, e ainda cânto irónico. Os primeiros cristãos adotaram a denominação dos Setenta, a que corresponde o latim Proverbia. Autor. — Segundo o que se deduz da análise do próprio livro, o autor é Salomão. Prov 1, 1; 10, 1; 25, 1 e ainda o 3 Rs 4, 32, Locutus est quoque Salomon tria millia parabolas (maschal). A origem salomônica de todos os provérbios é confirmada pela uniformidade do estilo e por nada se encontrar que não convenha a Salomão. É certo que acêrca dos capítulos 30 e 31 pode haver dúvida, pois são uns apêndices que têm respectivamente os nomes de Agur, filho de Jaqué e Lamuel, não faltando porém intérpretes que entendem que êstes mesmos nomes se referem a Salomão. Texto original e versões antigas. — O texto original e as mais antigas versões divergem em certos pontos. Os próprios exemplares hebraicos antigos não são rigorosamente uniformes; nuns faltam e em outros sobejam máximas, que aliás se compreende sem dificuldade, visto a forma como eram feitas as cópias. A mais antiga versão é a dos Setenta, que é mais livre do que literal, o que explica também certas variantes. Data do livro dos Provérbios. — A questão da data do livro na sua forma atual é diferente da do autor. A inscrição da segunda coleção dos Provérbios, 25, 1, prova que esta parte foi compilada no tempo de Ezequias, entre 725 e 696 antes de Cristo. Divisão geral. — O livro dos Provérbios compreende: Introdução (1, 1-6); Primeira parte (1, 7 ao c. 9); Segunda parte (10-24); Terceira parte (25-29); Apêndices (30-31).
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