Capítulo 30
1Palavras do que congrega, filho do que arrevesa sabedoria. Visão que expôs um varão, com quem está Deus, e que tendo sido confortado pela assistência de Deus que reside nêle, disse:[1]PALAVRAS DO QUE CONGREGA — O hebreu tem aqui: «Palavra de Agur filho de Iakeh.» O autor da Vulgata em lugar dêstes nomes próprios põe as suas interpretações. A dúvida é: Quem são êstes que o hebreu chama Agur e Iakeh? A maior parte dos modernos expositores tomam êstes nomes por nomes próprios de dois homens, diversos de Salomão e de Davi. Muitos Padres pelo contrário, e com êles alguns comentadores, querem que Salomão se designe aqui pelo nome "do que congrega", da mesma sorte que no princípio do livro do Eclesiastes, toma êle o nome de Eclesiastes, que quer dizer o "diretor da assembléia", e que debaixo do nome "do que arrevesa sabedoria", se designe Davi, que cheio do Espírito de Deus espalhou da sua bôca um grande número de Santos Cânticos. — VISÃO QUE EXPÔS UM VARÃO — O hebreu prossegue aqui: "Profecia, que êste homem dirigiu a Itbiel, e a Ucal." — Pereira.
2Eu sou o mais insensato dos homens, e a sabedoria dos homens não está comigo.[2]EU SOU — Solicitado talvez por seus discípulos para que falasse, responde o autor com esta modéstia, própria das pessoas do seu caráter. — E A SABEDORIA DOS HOMENS — A sabedoria adquirida pelo estudo, qual se acha em alguns homens doutos. — Menochio.
3Eu não aprendi a sabedoria, e não conheci a ciência dos santos.[3]A CIÊNCIA DOS SANTOS — A ciência das coisas santas e divinas. Ou a ciência que houve nos santos profetas e há nos santos anjos. — Menochio.
4Quem subiu ao céu, e desceu dêle? quem reteve o vento nas suas mãos? quem atou as águas como num vestido? quem firmou tôda a extensão da terra? Qual é o seu nome, e qual é o nome de seu filho, se é que o sabes?[4]E DESCEU DÊLE? — Nisto mostra o autor que só Deus foi quem lhe inspirou as verdades que aí a proferir e a publicar. — Pereira.
5Tôda a palavra de Deus é purificada ao fogo: Êle é um escudo para os que esperam nêle:
6Não acrescentes nada às suas palavras, para não sêres por isso repreendido, e achado mentiroso.
7Duas coisas são as que te pedi: Não mas negues antes que morra.
8Alonga de mim a vaidade, e as palavras de mentira: Não me dês nem a pobreza, nem as riquezas: Dá-me somente o que fôr necessário para viver:
9Para que não suceda que, estando farto, seja eu tentado a te renunciar, e a dizer: Quem é o Senhor? Ou que, constrangido da indigência, me ponha a furtar, e viole por um juramento o nome de meu Deus.
10Não acuses o servo diante de seu Senhor, para que não suceda amaldiçoar-te êle, e caíres tu.
11Há uma progênie, que amaldiçoa a seu pai, e que não abençoa a sua mãe.
12Há uma progênie, que crê de si que é pura, e contudo ela não está limpa das suas manchas.
13Há uma progênie, cujos olhos são altivos, e as suas pálpebras levantadas para cima.
14Há uma progênie, que em lugar de dentes tem espadas, e mastiga com os seus queixais, para devorar os que não têm nada na terra, e que são pobres entre os homens.[5]QUE EM LUGAR DE DENTES TEM ESPADAS — Entendem-se os homens cruéis e avarentos, que despedaçam os pobres como com dentes de fera, cujos dentes são como espadas. — Menochio.
15Duas são as filhas da sanguessuga, que dizem: Traze, traze. Há três coisas, que são insaciáveis, e uma quarta que nunca diz: Basta.
16O inferno, e a bôca da madre, e a terra, que se não farta de água: Do mesmo modo o fogo nunca diz: Basta:
17Quanto ao ôlho do que escarnece de seu pai, e do que despreza a paridura de sua mãe, arranquem-no os corvos, que andam à borda das torrentes, e comam-no os filhos da águia.
18Três coisas me são dificultosas de entender, e uma quarta eu a ignoro inteiramente:
19O caminho da águia no ar, o caminho da cobra sôbre a pedra, o caminho da nau no meio do mar, e o caminho do homem na sua mocidade.
20Tal é também o caminho da mulher adúltera, a qual come, e alimpando a sua bôca, diz: Eu não fiz mal nenhum.
21A terra estremece com três coisas, e a quarta não a pôde ela suportar:
22Com um escravo, quando êste reinar: Com um insensato, quando estiver farto de comer:
23Com uma mulher odiosa, quando um homem a receber: E com uma escrava, quando esta vier a ficar herdeira de sua senhora.
24Quatro coisas há na terra, que são muito pequenas, e que são mais sábias do que os mesmos sábios.
25As formigas, aquêle fraco povo, que faz o seu provimento durante a messe:
26Os coelhos, aquela débil tropa, que faz a sua habitação nos rochedos:
27Os gafanhotos, que não têm rei, e que todavia saem todos ordenados em seus esquadrões:
28O lagarto, que se sustém nas suas mãos, e que mora no palácio dos reis.[6]O LAGARTO — É o dhab, muito freqüente no vale do Jordão; os árabes comem-no, e servem-se da pele para fazer bainhas para os sabres, sacos para tabaco, etc.
29Há três coisas, que andam bem, e uma quarta que anda magnificamente:
30O leão, o mais forte dos animais, de nada que encontre terá mêdo:
31O galo, que anda mui senhor de si: E o carneiro: E um rei, a quem nada resiste.
32Tal homem há que pareceu um insensato, depois que foi elevado a uma sublime ordem: Porque se êle tivesse tido inteligência, teria pôsto a mão na sua bôca.
33Aquêle que com fôrça espreme a têta para tirar leite, faz sair dela um suco crasso: E aquêle que excita a ira produz discórdias.