Capítulo 27
1Não te glories pelo dia de amanhã, não sabendo que coisa dará de si o dia seguinte.
2Seja outro o que te louve, e não a tua bôca: Seja um estranho, e não os teus próprios lábios.
3A pedra é pesada, e a areia é carregada: Mas a ira do insensato pesa mais do que uma e outra.
4A ira não tem misericórdia, nem o furor que rompe: Mas quem poderá suportar o ímpeto dum homem arrebatado?[1]O ÍMPETO DUM HOMEM ARREBATADO? — O hebreu traz: "A crueldade é uma escandescência, um furor, uma inundação; mas quem parará diante da inveja?" Os Setenta lêem: "A indignação é cruel, e a ira aguda (de agudos fios), mas o ciúme nada suporta."
5Melhor é a correção manifesta, do que o amor escondido.
6Melhores são as feridas feitas pelo que ama, do que os ósculos fraudulentos do que quer mal.
7A alma farta pisará o favo do mel: E a alma faminta até o amargo tomará por doce.
8Assim como periga a avé que passa do seu ninho a outra parte, do mesmo modo o homem que deixa o seu lugar.[2]ASSIM COMO PERIGA — O sentido é, que se expõe a muitos incômodos e perigos aquêle que abandona o seu estado e a sua vocação, pois é semelhante às aves, que ao tempo que voam do ninho, e vagueiam duma para outra parte ou são apanhadas com visco, ou por algum outro modo vêm a ser prêsa dos caçadores. —Menochio.
9Com o perfume e variedade de cheiros se deleita o coração: E com os bons conselhos do amigo se banha a alma em doçura.
10Não largues o teu amigo, nem o amigo de teu pai: E não entres na casa de teu irmão no dia em que estiveres aflito. Melhor é o vizinho ao pé, do que o irmão ao longe.[3]NO DIA EM QUE ESTIVERES AFLITO — À letra: "No dia da tua aflição." É pois o sentido, que muitas vêzes acontece achar-se maior agasalho, benevolência e socorro num amigo fiel e verdadeiro, do que num irmão, que olha os outros com indiferença, e que por isso a amizade sincera de tais pessoas deve conservar-se, como um bem hereditário nas famílias.
11Trabalha, meu filho, por adquirir a sabedoria, e alegra o meu coração, a fim de poderes responder ao que te impropera.
12O astuto vendo o mal, se escondeu: Os símplices passando adiante suportaram os danos.
13Tira o vestido àquele que ficou por fiador dum estranho: E leva-lhe de casa os penhores, que êle obrigou pelos outros.
14Aquêle que louva o seu vizinho a grandes vozes, levantando-se de noite, será semelhante ao que diz mal dêle.[4]AO QUE DIZ MAL DÊLE — Porque na verdade o mesmo é louvar a outrem importuna e intempestivamente, que dizer mal dêle afrontando-o. —Pereira.
15Os telhados que gotejam em tempo de inverno, e a mulher litigiosa estão em igual paralelo:[5]EM TEMPO DE INVERNO — À letra: Em dia de frio. O hebreu: Em tempo de chuva. Confira-se acima o capítulo 19, 13. —Pereira.
16Aquêle que a pretende reter, é como se quisesse fazer parar o vento, e êle trabalhará por que o azeite não escorra da sua mão.
17O ferro aguça-se com o ferro, e o homem aguça a face do seu amigo.[6]E O HOMEM AGUÇA — O sentido é, que os homens que discrepam uns dos outros, se costumam irritar e incitar a ira, ou que uns pelo exemplo e presença dos outros se excitam à perfeição e prática das virtudes. —Pereira.
18Aquêle que guarda a figueira, comerá de seu fruto: E o que é guarda do seu Senhor, será glorificado.[7]E O QUE É GUARDA — Aquêle que põe todo o cuidado em servir o seu senhor com suma fidelidade e diligência, depois de ser aumentado com postos e cargos honoríficos, receberá o prêmio. —Calmet.
19Assim como na água resplandece o rosto dos que se estão vendo nela, assim os corações dos homens são descobertos aos prudentes.
20O inferno e a perdição nunca se enchem: Assim também os olhos dos homens são insaciáveis.
21Do modo que a prata é provada no vaso de derreter e o ouro na fornalha: Assim o homem é provado pela bôca do que o louva. O coração do iníquo busca o mal: E o coração reto busca a ciência.[8]O CORAÇÃO DO INÍQUO — Falta êste versículo no hebreu e em S. Jerônimo, mas vem nos Setenta. —Pereira.
22Se tu pisares o imprudente num gral, como se pisam os grãos de cevada, ferindo-os de cima a mão do mesmo gral, não se lhe tirará a sua estultícia.
23Conhece diligentemente de vista o teu gado, e considera os teus rebanhos.[9]CONHECE DILIGENTEMENTE — Êste preceito econômico dirigido ao pai de famílias para ver com seus próprios olhos e examinar pessoalmente o estado dos seus gados, adverte aqui também por uma alegoria aos príncipes e superiores eclesiásticos a obrigação que têm de atender pelo bem dos seus súditos.
24Porque nem sempre terás poder sôbre êles: Mas ser-te-á dada uma coroa em geração e geração.[10]PORQUE NEM SEMPRE — Não governarás sempre aos outros, não serás sempre príncipe, ou não exercitarás a magistratura, será necessário que dês conta do teu govêrno. Ou se dá a entender que se deve preferir a vida pastoril à vida política, porque além de outras comodidades de que logo fala, tem a vida pastoril uma grande prerrogativa, e é, que perdendo-se fàcilmente as honras a que aspiram os que vivem nas cidades, e passando de uns para outros, as riquezas que se adquirem pela indústria e arte pastoril, têm permanência e passam aos outros herdeiros. —Menochio.
25Abriram-se os prados e apareceram as verdes ervas, e recolheu-se o feno dos montes.[11]E RECOLHEU-SE O FENO DOS MONTES — Para sustento do gado, o que tudo são comodidades da vida pastoril. —Pereira.
26Os cordeiros são para te vestires: E os cabritos para o preço do campo.
27Baste-te o leite das cabras para o teu sustento, e para o que a tua casa houver mister: E para o sustento de tuas escravas.