Pe. Figueiredo (1950)

Capítulo 27

Não se gloriar na esperança do futuro. Dos bons conselhos. Trabalhar por adquirir a sabedoria. Do servo fiel. Os louvores são a prova do coração. Obrigações dos pastores.

1Não te glories pelo dia de amanhã, não sabendo que coisa dará de si o dia seguinte.

2Seja outro o que te louve, e não a tua bôca: Seja um estranho, e não os teus próprios lábios.

3A pedra é pesada, e a areia é carregada: Mas a ira do insensato pesa mais do que uma e outra.

4A ira não tem misericórdia, nem o furor que rompe: Mas quem poderá suportar o ímpeto dum homem arrebatado?[1]O ÍMPETO DUM HOMEM ARREBATADO?O hebreu traz: "A crueldade é uma escandescência, um furor, uma inundação; mas quem parará diante da inveja?" Os Setenta lêem: "A indignação é cruel, e a ira aguda (de agudos fios), mas o ciúme nada suporta."

5Melhor é a correção manifesta, do que o amor escondido.

6Melhores são as feridas feitas pelo que ama, do que os ósculos fraudulentos do que quer mal.

7A alma farta pisará o favo do mel: E a alma faminta até o amargo tomará por doce.

8Assim como periga a avé que passa do seu ninho a outra parte, do mesmo modo o homem que deixa o seu lugar.[2]ASSIM COMO PERIGAO sentido é, que se expõe a muitos incômodos e perigos aquêle que abandona o seu estado e a sua vocação, pois é semelhante às aves, que ao tempo que voam do ninho, e vagueiam duma para outra parte ou são apanhadas com visco, ou por algum outro modo vêm a ser prêsa dos caçadores. —Menochio.

9Com o perfume e variedade de cheiros se deleita o coração: E com os bons conselhos do amigo se banha a alma em doçura.

10Não largues o teu amigo, nem o amigo de teu pai: E não entres na casa de teu irmão no dia em que estiveres aflito. Melhor é o vizinho ao pé, do que o irmão ao longe.[3]NO DIA EM QUE ESTIVERES AFLITOÀ letra: "No dia da tua aflição." É pois o sentido, que muitas vêzes acontece achar-se maior agasalho, benevolência e socorro num amigo fiel e verdadeiro, do que num irmão, que olha os outros com indiferença, e que por isso a amizade sincera de tais pessoas deve conservar-se, como um bem hereditário nas famílias.

11Trabalha, meu filho, por adquirir a sabedoria, e alegra o meu coração, a fim de poderes responder ao que te impropera.

12O astuto vendo o mal, se escondeu: Os símplices passando adiante suportaram os danos.

13Tira o vestido àquele que ficou por fiador dum estranho: E leva-lhe de casa os penhores, que êle obrigou pelos outros.

14Aquêle que louva o seu vizinho a grandes vozes, levantando-se de noite, será semelhante ao que diz mal dêle.[4]AO QUE DIZ MAL DÊLEPorque na verdade o mesmo é louvar a outrem importuna e intempestivamente, que dizer mal dêle afrontando-o. —Pereira.

15Os telhados que gotejam em tempo de inverno, e a mulher litigiosa estão em igual paralelo:[5]EM TEMPO DE INVERNOÀ letra: Em dia de frio. O hebreu: Em tempo de chuva. Confira-se acima o capítulo 19, 13. —Pereira.

16Aquêle que a pretende reter, é como se quisesse fazer parar o vento, e êle trabalhará por que o azeite não escorra da sua mão.

17O ferro aguça-se com o ferro, e o homem aguça a face do seu amigo.[6]E O HOMEM AGUÇAO sentido é, que os homens que discrepam uns dos outros, se costumam irritar e incitar a ira, ou que uns pelo exemplo e presença dos outros se excitam à perfeição e prática das virtudes. —Pereira.

18Aquêle que guarda a figueira, comerá de seu fruto: E o que é guarda do seu Senhor, será glorificado.[7]E O QUE É GUARDAAquêle que põe todo o cuidado em servir o seu senhor com suma fidelidade e diligência, depois de ser aumentado com postos e cargos honoríficos, receberá o prêmio. —Calmet.

19Assim como na água resplandece o rosto dos que se estão vendo nela, assim os corações dos homens são descobertos aos prudentes.

20O inferno e a perdição nunca se enchem: Assim também os olhos dos homens são insaciáveis.

21Do modo que a prata é provada no vaso de derreter e o ouro na fornalha: Assim o homem é provado pela bôca do que o louva. O coração do iníquo busca o mal: E o coração reto busca a ciência.[8]O CORAÇÃO DO INÍQUOFalta êste versículo no hebreu e em S. Jerônimo, mas vem nos Setenta. —Pereira.

22Se tu pisares o imprudente num gral, como se pisam os grãos de cevada, ferindo-os de cima a mão do mesmo gral, não se lhe tirará a sua estultícia.

23Conhece diligentemente de vista o teu gado, e considera os teus rebanhos.[9]CONHECE DILIGENTEMENTEÊste preceito econômico dirigido ao pai de famílias para ver com seus próprios olhos e examinar pessoalmente o estado dos seus gados, adverte aqui também por uma alegoria aos príncipes e superiores eclesiásticos a obrigação que têm de atender pelo bem dos seus súditos.

24Porque nem sempre terás poder sôbre êles: Mas ser-te-á dada uma coroa em geração e geração.[10]PORQUE NEM SEMPRENão governarás sempre aos outros, não serás sempre príncipe, ou não exercitarás a magistratura, será necessário que dês conta do teu govêrno. Ou se dá a entender que se deve preferir a vida pastoril à vida política, porque além de outras comodidades de que logo fala, tem a vida pastoril uma grande prerrogativa, e é, que perdendo-se fàcilmente as honras a que aspiram os que vivem nas cidades, e passando de uns para outros, as riquezas que se adquirem pela indústria e arte pastoril, têm permanência e passam aos outros herdeiros. —Menochio.

25Abriram-se os prados e apareceram as verdes ervas, e recolheu-se o feno dos montes.[11]E RECOLHEU-SE O FENO DOS MONTESPara sustento do gado, o que tudo são comodidades da vida pastoril. —Pereira.

26Os cordeiros são para te vestires: E os cabritos para o preço do campo.

27Baste-te o leite das cabras para o teu sustento, e para o que a tua casa houver mister: E para o sustento de tuas escravas.

Nome do livro. — Os hebreus, denominando os livros pela palavra inicial, conheciam êste pela designação de Mischlé, têrmo derivado de maschal, que significa semelhança, comparação, e por extensão máxima, e também, embora mais raras vêzes, provérbio, também alegoria ou parábola, e ainda cânto irónico. Os primeiros cristãos adotaram a denominação dos Setenta, a que corresponde o latim Proverbia. Autor. — Segundo o que se deduz da análise do próprio livro, o autor é Salomão. Prov 1, 1; 10, 1; 25, 1 e ainda o 3 Rs 4, 32, Locutus est quoque Salomon tria millia parabolas (maschal). A origem salomônica de todos os provérbios é confirmada pela uniformidade do estilo e por nada se encontrar que não convenha a Salomão. É certo que acêrca dos capítulos 30 e 31 pode haver dúvida, pois são uns apêndices que têm respectivamente os nomes de Agur, filho de Jaqué e Lamuel, não faltando porém intérpretes que entendem que êstes mesmos nomes se referem a Salomão. Texto original e versões antigas. — O texto original e as mais antigas versões divergem em certos pontos. Os próprios exemplares hebraicos antigos não são rigorosamente uniformes; nuns faltam e em outros sobejam máximas, que aliás se compreende sem dificuldade, visto a forma como eram feitas as cópias. A mais antiga versão é a dos Setenta, que é mais livre do que literal, o que explica também certas variantes. Data do livro dos Provérbios. — A questão da data do livro na sua forma atual é diferente da do autor. A inscrição da segunda coleção dos Provérbios, 25, 1, prova que esta parte foi compilada no tempo de Ezequias, entre 725 e 696 antes de Cristo. Divisão geral. — O livro dos Provérbios compreende: Introdução (1, 1-6); Primeira parte (1, 7 ao c. 9); Segunda parte (10-24); Terceira parte (25-29); Apêndices (30-31).
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