Pe. Figueiredo (1950)

Capítulo 11

Vantagem dos justos, e dos sábios, por contraposição às infelicidades dos maus, e dos insensatos.

1A balança enganosa é abominação diante do Senhor: E o pêso justo é a sua vontade.[1]BALANÇA ENGANOSAPor esta expressão quer o autor significar o que é capaz de causar dolo, de enganar incautos, originar fraudes. Intellige omnia in quibus fraus committi potest contrahendo. — Menochio.

2Onde houver soberba, aí haverá também ignomínia: Onde porém há humildade, aí há igualmente sabedoria.

3A simplicidade dos justos conduzi-los-á felizmente: E as sancadilhas dos perversos serão a sua ruína.

4As riquezas não servirão de nada no dia da vingança: Mas a justiça livrará da morte.

5A justiça do simples fará feliz o seu caminho: E pela sua impiedade se precipitará o ímpio.

6A justiça dos retos livrá-los-á: E em os seus mesmos laços serão apanhados os iníquos.

7Morto o homem ímpio, não restará mais esperança alguma: E a expectação dos ambiciosos perecerá.

8O justo foi livre da angústia: E o ímpio será entregue em lugar dêle.[2]O JUSTO FOI LIVREEsta verdade comprovam os exemplos de Mardoqueu, de Davi, de Daniel, de Susana e de outros muitos. — Pereira.

9O fingidor com a bôca engana ao seu amigo: Mas os justos serão livres pela ciência.

10Nos bens dos justos exultará a cidade: E na perdição dos ímpios haverá ação de graças.

11A cidade será exaltada pela bênção dos justos: E destruída pela bôca dos ímpios.

12O que não tem senso, despreza ao seu amigo: Mas o homem prudente calar-se-á.[3]DESPREZAQuando cai nalgum êrro, ou falta. — Menochio.

13O que anda com dobreza descobre os segredos: Mas o que é de coração leal, cala o que o amigo lhe confiou.

14Onde não há quem governe, perecerá o povo: Onde porém há muitos conselhos, aí haverá salvação.

15Aquêle que se faz responsável por um estranho, cairá na desventura: Mas o que evita os laços, estará em segurança.

16A mulher de engraçada compostura alcançará glória: E os robustos terão riquezas.[4]A MULHER DE ENGRAÇADA COMPOSTURACompara-se aqui a mulher dotada de formosura e virtude com o homem industrioso. Aquela faz-se a todos recomendável, como se diz de Jdt 8,7-8; êste com o seu trabalho e agência desfruta os bens, que adquire.

17O homem caritativo faz bem à sua alma: Mas o que é cruel, repele até os seus mesmos propínquos.

18O ímpio faz obra que não subsiste: Mas para o que semeia justiça, há fiel recompensa.[5]FIELIsto é, firme, segura e estável.

19A clemência abre o caminho para a vida: E o seguimento dos males conduz para a morte.

20Abominável é para o Senhor o coração corrompido: E o seu afeto é para os que andam em simplicidade.

21O mau não será inocente, ainda quando tiver uma mão sôbre a outra: Mas a linhagem dos justos será salva.

22A mulher formosa e insensata é como um anel de ouro na tromba duma porca.

23O desejo dos justos estende-se a todo o bem: A expectação dos ímpios é o furor.[6]O DESEJO DOS JUSTOSO justo põe sempre a mira na observância da lei de Deus, o ímpio só espera o que lhe dita o furor das suas paixões; ou receia a indignação e vingança divina. — Pereira.

24Uns repartem o que é seu, e ficam mais ricos: Outros arrebatam o que não é seu, e sempre estão em pobreza.

25A alma que faz bem será engrossada, o que embriaga, também êle mesmo será embriagado.[7]SERÁ ENGROSSADAFunda-se esta expressão em ser a banha, ou gordura símbolo da graça e divinas consolações. Pode conferir-se o lugar de Davi no Sl 72,8.

26O que esconde o trigo será amaldiçoado entre os povos: E a bênção virá sôbre a cabeça dos que o vendem.

27Aquêle que anda vendo como fará bem, é ditoso em se levantar ao romper da manhã: Aquêle porém que anda buscando como fará mal, será por êle oprimido.

28O que confia nas suas riquezas, cairá: Mas os justos crescerão como a árvore, que tem a fôlha sempre verde.

29O que traz a sua casa inquieta, não possuirá senão ventos: E o que é insensato servirá ao sábio.

30O fruto do justo é árvore de vida e o que ampara as almas é sábio.[8]E O QUE AMPARA AS ALMASO hebreu lê: E o que caça almas, lucrando-as para Deus, tanto pelo seu exemplo, como pela doutrina com que as instrui.

31Se o justo é punido na terra, quanto mais o será o ímpio e o pecador?

Nome do livro. — Os hebreus, denominando os livros pela palavra inicial, conheciam êste pela designação de Mischlé, têrmo derivado de maschal, que significa semelhança, comparação, e por extensão máxima, e também, embora mais raras vêzes, provérbio, também alegoria ou parábola, e ainda cânto irónico. Os primeiros cristãos adotaram a denominação dos Setenta, a que corresponde o latim Proverbia. Autor. — Segundo o que se deduz da análise do próprio livro, o autor é Salomão. Prov 1, 1; 10, 1; 25, 1 e ainda o 3 Rs 4, 32, Locutus est quoque Salomon tria millia parabolas (maschal). A origem salomônica de todos os provérbios é confirmada pela uniformidade do estilo e por nada se encontrar que não convenha a Salomão. É certo que acêrca dos capítulos 30 e 31 pode haver dúvida, pois são uns apêndices que têm respectivamente os nomes de Agur, filho de Jaqué e Lamuel, não faltando porém intérpretes que entendem que êstes mesmos nomes se referem a Salomão. Texto original e versões antigas. — O texto original e as mais antigas versões divergem em certos pontos. Os próprios exemplares hebraicos antigos não são rigorosamente uniformes; nuns faltam e em outros sobejam máximas, que aliás se compreende sem dificuldade, visto a forma como eram feitas as cópias. A mais antiga versão é a dos Setenta, que é mais livre do que literal, o que explica também certas variantes. Data do livro dos Provérbios. — A questão da data do livro na sua forma atual é diferente da do autor. A inscrição da segunda coleção dos Provérbios, 25, 1, prova que esta parte foi compilada no tempo de Ezequias, entre 725 e 696 antes de Cristo. Divisão geral. — O livro dos Provérbios compreende: Introdução (1, 1-6); Primeira parte (1, 7 ao c. 9); Segunda parte (10-24); Terceira parte (25-29); Apêndices (30-31).
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