Pe. Figueiredo (1950)

Capítulo 25

O coração dos reis é impenetrável. Não se exaltar a si mesmo. Palavra dita a propósito. Promessa sem efeito. Tristeza do coração. Fazer bem aos inimigos. Pôr freio à curiosidade.

1Estas são também Parábolas de Salomão, as quais transcreveram os servos de Ezequias rei de Judá.[1]SERVOS DE EZEQUIASSão sem dúvida os personagens do tempo dêste rei, e que êle mais distinguia pela sua prudência e saber, tais como Isaías, Eliacim, Joaé, Sobna. Esta inscrição prova que esta segunda coleção foi feita pelo ano 726 A. C., para servir de complemento a outra já existente.

2A glória de Deus é encobrir a palavra, e a glória dos reis é investigar o discurso.[2]A GLÓRIA DE DEUSOu o sentido é, que pertence à glória e majestade de Deus encobrir a palavra, isto é, esconder as razões dos seus juízos e conselhos; porque, sendo êle de todos o Senhor Supremo, não tem superior, ou igual, a quem seja obrigado a dar conta. A esta interpretação corresponde ao contrário a outra parte da sentença: “A glória dos reis é investigar o discurso”, como se dissera: É decoroso aos reis investigar e ter à mão as razões e os fundamentos dos seus decretos, para que possam tapar a bôca aos seus caluniadores. Ou, segundo outra inteligência, vem o insinuar, que diz respeito à glória de Deus o não se entender com facilidade a Sagrada Escritura, e que toca à honra dos reis averiguar os seus ocultos sentidos. –Menochio.

3O céu na sua altura, e a terra na sua profundidade, e o coração dos reis é inescrutável.[3]O CÉU NA SUA ALTURAAssim como é dificultoso investigar a distância que vai do Céu à terra, ou a altura do céu e a profundidade da terra, assim também o é querer sondar o coração do rei. –Menochio.

4Tira a ferrugem da prata, e sairá um vaso puríssimo:

5Tira a impiedade da presença do rei, e o seu trono se firmará na justiça.

6Não apareças ufano diante do rei, e não te ponhas no lugar dos grandes.

7Porque melhor é que te digam: Sobe para cá: Do que sêres humilhado diante do príncipe.

8Não descubras logo no princípio da contenda, o que viram os teus próprios olhos: Por não te suceder que tendo tu tirado a honra ao teu amigo, não possas depois tornar a reparar-lha:[4]O QUE VIRAM OS TEUS PRÓPRIOS OLHOSSe sabes alguma coisa que redunda em descrédito do teu próximo, cala-a e não lhe lances logo em rosto. –Pereira.

9Trata o teu negócio com o teu amigo, e não descubras o teu segrêdo a um estranho:

10Porque não suceda que te insulte, logo que o ouvir, e não cesse de to lançar em rosto. A graça e amizade livram: Conserva-as para ti, para que não caias em desprêzo.[5]A GRAÇA E A AMIZADE LIVRAMÊste versículo falta no hebreu e por isso o omitiu também S. Jerônimo na sua versão, mas trazem-no os Setenta. –Calmet.

11Aquêle que profere a palavra a seu tempo, é como uns pomos de ouro em leitos de prata.[6]AQUÊLE QUE PROFEREO homem que fala a tempo e a propósito distingue-se, brilha e realça tanto entre os mais, quanto os pomos de ouro imitados da arte, em forma de maçanêtas, aformoseiam os leitos de prata, sôbre cujos balaústres se acham ou engastados, ou pendentes. Confira-se o livro de Est 1, 6. –Pereira.

12Aquêle que argúi ao sábio, e ao ouvido obediente, é como umas arrecadas de ouro, e uma brilhante pérola.[7]AQUÊLE QUE ARGÚIAssim como a brilhante margarita orna muito a arrecada de ouro, em que está engastada, do mesmo modo a sábia advertência esmalta o ouvido obediente, que ouve com efeito a repreensão que se lhe dá. –Menochio.

13O embaixador fiel é para quem o enviou, o que é a frieza da neve no tempo da ceifa: Êle dá descanso à alma do seu amo.

14O homem que se gloria, e não cumpre as promessas, é como o vento, e as nuvens que não trazem chuva.

15O príncipe mitigar-se-á pela paciência, e a língua branda quebrantará a dureza.

16Achaste mel, come o que te basta, para que não suceda que depois de farto o vomites.

17Retira o teu pé da casa do teu próximo, para que não suceda que êle de enfastiado te venha a aborrecer.

18O homem que diz um falso testemunho contra o seu próximo, é um dardo e uma espada, e uma flecha penetrante.

19Quem espera no desleal no dia da angústia, procura fazer fôrça num dente podre, e num pé cansado,

20e perde a capa num dia de frio. Aquêle que canta canções a um coração péssimo, é como o vinagre que se lança no nitro. Assim como a traça come o vestido, e o caruncho a madeira: Do mesmo modo rói a tristeza o coração do homem.[8]O VINAGREO têrmo original homets significa acidus, violentos, ou como no Salmo 70. Cfr. Lexicon hebraicum et chaldaicum, e os Setenta entenderam ser acepção do coração aflito. Divergem os intérpretes na explicação dêste lugar, desta sorte: Da mesma maneira que o vinagre misturado com o nitro lhe aumenta a fôrça e o torna apto para tirar as manchas do rosto, assim também o cântico dos cantares dissipa a tristeza e a melancolia dum coração triste. Outros interpretam pela seguinte forma: Assim como o vinagre, quando se lhe mistura o nitro, reforça a propriedade de apagar as manchas, assim também o canto dos cantares, longe de acalmar as angústias de um coração aflito, faz com que estas recrudesçam e se tornem mais intensas. Vigouroux nas notas à Sainte Bible de Glaire, 19, 2, tem esta última interpretação como mais autorizada. – Assim como a traça: Falta êste versículo no hebreu e na versão de S. Jerônimo; mas vem nos Setenta. –Calmet.

21Se o teu inimigo tiver fome, dá-lhe de comer: Se tiver sêde, dá-lhe água para beber:

22Porque assim amontoarás brasas vivas sôbre a sua cabeça, e o Senhor te dará a paga.[9]PORQUE ASSIMAmontoarás brasas vivas, como explica Menochio, não de ira ou de vingança, mas de caridade e de amor, que o inflama, para te amar em correspondência. Confira-se S. Paulo aos Rom 12, 20.

23O vento do Aquilão dissipa as chuvas: E o rosto triste a língua maldizente.

24É melhor estar assentado a um canto do eirado, do que habitar com uma mulher litigiosa, e numa casa comum.

25Tão saborosa é a água fria à alma que tem sêde como é uma boa nova que vem de um país remoto.

26O justo que cai diante do ímpio, é como uma fonte que turvaram com o pé, e como uma veia de água que corromperam.[10]QUE CAI DIANTE DO ÍMPIOO justo que cai, ou em pecado, ou em tribulação, em pusilanimidade de espírito diante do ímpio e à fôrça das suas persuasões e artifícios, não se atrevendo a impugná-lo, o que diz principalmente respeito nos pastores de almas (Ez 34, 18-19), fica de todo o ponto afrontado, e coberto de ignomínia; porque o seu pecado serve de tropêço ao ímpio; as calamidades que padece, lhe dão ocasião de negar a Providência, e o seu apoucado ânimo faz com que o mesmo ímpio cada vez mais se perverta, encontrando nêle baixa lisonja, quando devia achar valor e constância. –Pereira.

27Assim como não é bom o mel para aquêle que o come em demasia: Assim o que é esquadrinhador da majestade será oprimido da glória.

28Assim como é uma cidade tôda aberta, e que não está cercada de muros, assim é o homem, que quando fala não pode conter o seu espírito.

Nome do livro. — Os hebreus, denominando os livros pela palavra inicial, conheciam êste pela designação de Mischlé, têrmo derivado de maschal, que significa semelhança, comparação, e por extensão máxima, e também, embora mais raras vêzes, provérbio, também alegoria ou parábola, e ainda cânto irónico. Os primeiros cristãos adotaram a denominação dos Setenta, a que corresponde o latim Proverbia. Autor. — Segundo o que se deduz da análise do próprio livro, o autor é Salomão. Prov 1, 1; 10, 1; 25, 1 e ainda o 3 Rs 4, 32, Locutus est quoque Salomon tria millia parabolas (maschal). A origem salomônica de todos os provérbios é confirmada pela uniformidade do estilo e por nada se encontrar que não convenha a Salomão. É certo que acêrca dos capítulos 30 e 31 pode haver dúvida, pois são uns apêndices que têm respectivamente os nomes de Agur, filho de Jaqué e Lamuel, não faltando porém intérpretes que entendem que êstes mesmos nomes se referem a Salomão. Texto original e versões antigas. — O texto original e as mais antigas versões divergem em certos pontos. Os próprios exemplares hebraicos antigos não são rigorosamente uniformes; nuns faltam e em outros sobejam máximas, que aliás se compreende sem dificuldade, visto a forma como eram feitas as cópias. A mais antiga versão é a dos Setenta, que é mais livre do que literal, o que explica também certas variantes. Data do livro dos Provérbios. — A questão da data do livro na sua forma atual é diferente da do autor. A inscrição da segunda coleção dos Provérbios, 25, 1, prova que esta parte foi compilada no tempo de Ezequias, entre 725 e 696 antes de Cristo. Divisão geral. — O livro dos Provérbios compreende: Introdução (1, 1-6); Primeira parte (1, 7 ao c. 9); Segunda parte (10-24); Terceira parte (25-29); Apêndices (30-31).
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