Capítulo 13
1O filho sábio é a doutrina do pai: O que porém é mofador, não ouve quando é arguido.[1]O FILHO SÁBIO É A DOUTRINA DO PAI — Isto é, reluz nêle a doutrina do pai por quem foi educado. In eo relucet doctrina et institutio patris. — Menochio.
2O homem será farto de bens pelo fruto da sua bôca: Mas a alma dos prevaricadores é cheia de iniquidade.
3Aquêle que guarda a sua bôca, guarda a sua alma: Mas o que é inconsiderado para falar, sentirá males.
4O preguiçoso quer e não quer: Mas a alma dos que trabalham engordará.[2]O PREGUIÇOSO QUER E NÃO QUER — Muda continuamente de propósito, acovardado pelo trabalho, que se lhe representa penoso, e procrastinando outrossim nos seus bons desejos, nunca, ou raras vêzes chega a pô-los por obra.
5O justo detestará a palavra mentirosa: Mas o ímpio confunde e será confundido.[3]MAS O ÍMPIO CONFUNDE — Confunde-se, envergonha-se e desacredita-se a si mesmo, e será igualmente confundido e envergonhado pelos que chegam a podê-lo arguir de mentiroso.
6A justiça guarda o caminho do inocente: Mas a impiedade faz dar sancadilha ao pecador.
7Há um que parece rico, não tendo nada: E há outro que parece pobre, achando-se no meio de muitas riquezas.
8O resgate da vida do homem são as suas riquezas, mas o que é pobre não suporta a increpação.[4]MAS O QUE É POBRE — Não podendo remir o pobre a sua vexação por falta de posses, a tudo e a todos cede no centro da sua desgraça; o que não acontece de ordinário às pessoas abastadas, que até da enfermidade e da morte se podem livrar por meio de mui caros e subidos medicamentos. O hebreu lê: E o pobre não ouve a ameaça e neste sentido quer dizer, que a sua mesma pobreza o defende e põe longe dos perigos e reveses, que sobrevêm aos opulentos.
9A luz dos justos alegra: Mas a candeia dos ímpios apagar-se-á.
10Entre os soberbos sempre há contendas: Mas os que tudo fazem com conselho, regem-se pela sabedoria.
11Os bens que se ajuntam muito depressa, diminuir-se-ão: mas os que se colhem à mão pouco a pouco, multiplicar-se-ão.[5]OS BENS QUE SE AJUNTAM MUITO DEPRESSA — Trata-se aqui da riqueza bem ou mal adquirida. — Pereira.
12A esperança, que se retarda, aflige a alma: O desejo que se cumpre é uma árvore de vida.
13Aquêle que detrai de alguma coisa, por si mesmo se obriga para o futuro: Mas o que teme o preceito, andará em paz. As almas dolosas erram nos pecados: Mas os justos são compassivos, e usam de misericórdia.[6]AQUÊLE QUE DETRAI DE ALGUMA COISA — O hebreu lê: O que despreza a palavra de Deus, andará em perdição, etc. Daqui se colhe o sentido da Vulgata, que é ficar o desprezador da lei sujeito à pena, que ela prescreve contra os seus transgressores. — Pereira.
14A lei do sábio é uma fonte de vida, para evitar a ruína da morte.[7]A RUÍNA DA MORTE — Ou como se lê no hebreu, os laços da morte, isto é, o pecado e suas ocasiões.
15A boa doutrina dará graça: No caminho dos desprezadores há voragem.[8]NO CAMINHO DOS DESPREZADORES HÁ VORAGEM — Os que desprezam a sólida e santa doutrina são bem como um tragadouro e abismo de perdição. No hebreu se lê: "O bom entendimento conciliará graça; mas o caminho dos prevaricadores é duro". — Pereira.
16O homem prudente tudo faz com conselho; mas o que é insensato descobre a sua loucura.
17O mensageiro do ímpio cairá no mal: Mas o embaixador fiel é saúde.[9]O MENSAGEIRO DO ÍMPIO CAIRÁ NO MAL — A lição dos Setenta é: "Um rei temerário cairá em males; mas um enviado sábio o livrará". Um embaixador de circunspecção e prudência é a saúde e conservação dos povos, porque dirige tudo ao maior bem do estado e à justiça dos seus interêsses.
18Aquêle que deixa a disciplina experimentará indigência e ignomínia: Mas o que se sujeita a quem o repreende será glorificado.
19O desejo no caso que se cumpra, deleita a alma: Os insensatos detestam aos que fogem do mal.
20Aquêle que anda com sábios será sábio: O amigo dos insensatos far-se-á semelhante a êles.
21O mal persegue aos pecadores: E os bens serão a recompensa dos justos.
22O homem virtuoso deixa por herdeiros a seus filhos e seus netos: E os bens do pecador estão reservados para o justo.[10]OS BENS DO PECADOR ESTÃO RESERVADOS PARA O JUSTO — Confira-se o Evangelho de S. Mateus no capítulo 25, v. 28.
23Nos campos que se herdam dos pais, nascem abundantes frutos: E êstes vêm a ajuntar-se para outros por falta de juízo.[11]ÊSTES VÊM A AJUNTAR-SE PARA OUTROS — A Vulgata diz aqui: et alis congregantur absque judicio. O que Sacy verte: os outros se ajuntam sem juízo. Para outros, quer dizer para os estranhos. O sentido é êste: Os que herdam bens de seus pais e não têm juízo para manter a sua posse perdem essa herança, que vai reverter em favor de estranhos.
24Aquêle que poupa a vara, aborrece seu filho: Mas o que o ama, continuadamente o corrige.
25O justo come, e enche a sua alma: Mas o ventre dos ímpios é insaciável.[12]O JUSTO COME — O justo de tudo tira proveito para se adiantar no caminho da virtude; mas o ímpio, como se acha destituído do verdadeiro alimento da alma, que é a caridade, não o podendo saciar os bens temporais a que aspira, sempre está com fome, segundo a expressão do texto hebreu. — Pereira.