Pe. Figueiredo (1950)

Capítulo 13

O filho sábio, ou insensato. Reserva que deve haver nas palavras. O pobre rico, e o rico pobre. Breve duração do esplendor dos ímpios. Bens adquiridos muito depressa. Passar a vida com os sábios. Castigar a seus filhos. Cobiça dos maus insaciável.

1O filho sábio é a doutrina do pai: O que porém é mofador, não ouve quando é arguido.[1]O FILHO SÁBIO É A DOUTRINA DO PAIIsto é, reluz nêle a doutrina do pai por quem foi educado. In eo relucet doctrina et institutio patris. — Menochio.

2O homem será farto de bens pelo fruto da sua bôca: Mas a alma dos prevaricadores é cheia de iniquidade.

3Aquêle que guarda a sua bôca, guarda a sua alma: Mas o que é inconsiderado para falar, sentirá males.

4O preguiçoso quer e não quer: Mas a alma dos que trabalham engordará.[2]O PREGUIÇOSO QUER E NÃO QUERMuda continuamente de propósito, acovardado pelo trabalho, que se lhe representa penoso, e procrastinando outrossim nos seus bons desejos, nunca, ou raras vêzes chega a pô-los por obra.

5O justo detestará a palavra mentirosa: Mas o ímpio confunde e será confundido.[3]MAS O ÍMPIO CONFUNDEConfunde-se, envergonha-se e desacredita-se a si mesmo, e será igualmente confundido e envergonhado pelos que chegam a podê-lo arguir de mentiroso.

6A justiça guarda o caminho do inocente: Mas a impiedade faz dar sancadilha ao pecador.

7Há um que parece rico, não tendo nada: E há outro que parece pobre, achando-se no meio de muitas riquezas.

8O resgate da vida do homem são as suas riquezas, mas o que é pobre não suporta a increpação.[4]MAS O QUE É POBRENão podendo remir o pobre a sua vexação por falta de posses, a tudo e a todos cede no centro da sua desgraça; o que não acontece de ordinário às pessoas abastadas, que até da enfermidade e da morte se podem livrar por meio de mui caros e subidos medicamentos. O hebreu lê: E o pobre não ouve a ameaça e neste sentido quer dizer, que a sua mesma pobreza o defende e põe longe dos perigos e reveses, que sobrevêm aos opulentos.

9A luz dos justos alegra: Mas a candeia dos ímpios apagar-se-á.

10Entre os soberbos sempre há contendas: Mas os que tudo fazem com conselho, regem-se pela sabedoria.

11Os bens que se ajuntam muito depressa, diminuir-se-ão: mas os que se colhem à mão pouco a pouco, multiplicar-se-ão.[5]OS BENS QUE SE AJUNTAM MUITO DEPRESSATrata-se aqui da riqueza bem ou mal adquirida. — Pereira.

12A esperança, que se retarda, aflige a alma: O desejo que se cumpre é uma árvore de vida.

13Aquêle que detrai de alguma coisa, por si mesmo se obriga para o futuro: Mas o que teme o preceito, andará em paz. As almas dolosas erram nos pecados: Mas os justos são compassivos, e usam de misericórdia.[6]AQUÊLE QUE DETRAI DE ALGUMA COISAO hebreu lê: O que despreza a palavra de Deus, andará em perdição, etc. Daqui se colhe o sentido da Vulgata, que é ficar o desprezador da lei sujeito à pena, que ela prescreve contra os seus transgressores. — Pereira.

14A lei do sábio é uma fonte de vida, para evitar a ruína da morte.[7]A RUÍNA DA MORTEOu como se lê no hebreu, os laços da morte, isto é, o pecado e suas ocasiões.

15A boa doutrina dará graça: No caminho dos desprezadores há voragem.[8]NO CAMINHO DOS DESPREZADORES HÁ VORAGEMOs que desprezam a sólida e santa doutrina são bem como um tragadouro e abismo de perdição. No hebreu se lê: "O bom entendimento conciliará graça; mas o caminho dos prevaricadores é duro". — Pereira.

16O homem prudente tudo faz com conselho; mas o que é insensato descobre a sua loucura.

17O mensageiro do ímpio cairá no mal: Mas o embaixador fiel é saúde.[9]O MENSAGEIRO DO ÍMPIO CAIRÁ NO MALA lição dos Setenta é: "Um rei temerário cairá em males; mas um enviado sábio o livrará". Um embaixador de circunspecção e prudência é a saúde e conservação dos povos, porque dirige tudo ao maior bem do estado e à justiça dos seus interêsses.

18Aquêle que deixa a disciplina experimentará indigência e ignomínia: Mas o que se sujeita a quem o repreende será glorificado.

19O desejo no caso que se cumpra, deleita a alma: Os insensatos detestam aos que fogem do mal.

20Aquêle que anda com sábios será sábio: O amigo dos insensatos far-se-á semelhante a êles.

21O mal persegue aos pecadores: E os bens serão a recompensa dos justos.

22O homem virtuoso deixa por herdeiros a seus filhos e seus netos: E os bens do pecador estão reservados para o justo.[10]OS BENS DO PECADOR ESTÃO RESERVADOS PARA O JUSTOConfira-se o Evangelho de S. Mateus no capítulo 25, v. 28.

23Nos campos que se herdam dos pais, nascem abundantes frutos: E êstes vêm a ajuntar-se para outros por falta de juízo.[11]ÊSTES VÊM A AJUNTAR-SE PARA OUTROSA Vulgata diz aqui: et alis congregantur absque judicio. O que Sacy verte: os outros se ajuntam sem juízo. Para outros, quer dizer para os estranhos. O sentido é êste: Os que herdam bens de seus pais e não têm juízo para manter a sua posse perdem essa herança, que vai reverter em favor de estranhos.

24Aquêle que poupa a vara, aborrece seu filho: Mas o que o ama, continuadamente o corrige.

25O justo come, e enche a sua alma: Mas o ventre dos ímpios é insaciável.[12]O JUSTO COMEO justo de tudo tira proveito para se adiantar no caminho da virtude; mas o ímpio, como se acha destituído do verdadeiro alimento da alma, que é a caridade, não o podendo saciar os bens temporais a que aspira, sempre está com fome, segundo a expressão do texto hebreu. — Pereira.

Nome do livro. — Os hebreus, denominando os livros pela palavra inicial, conheciam êste pela designação de Mischlé, têrmo derivado de maschal, que significa semelhança, comparação, e por extensão máxima, e também, embora mais raras vêzes, provérbio, também alegoria ou parábola, e ainda cânto irónico. Os primeiros cristãos adotaram a denominação dos Setenta, a que corresponde o latim Proverbia. Autor. — Segundo o que se deduz da análise do próprio livro, o autor é Salomão. Prov 1, 1; 10, 1; 25, 1 e ainda o 3 Rs 4, 32, Locutus est quoque Salomon tria millia parabolas (maschal). A origem salomônica de todos os provérbios é confirmada pela uniformidade do estilo e por nada se encontrar que não convenha a Salomão. É certo que acêrca dos capítulos 30 e 31 pode haver dúvida, pois são uns apêndices que têm respectivamente os nomes de Agur, filho de Jaqué e Lamuel, não faltando porém intérpretes que entendem que êstes mesmos nomes se referem a Salomão. Texto original e versões antigas. — O texto original e as mais antigas versões divergem em certos pontos. Os próprios exemplares hebraicos antigos não são rigorosamente uniformes; nuns faltam e em outros sobejam máximas, que aliás se compreende sem dificuldade, visto a forma como eram feitas as cópias. A mais antiga versão é a dos Setenta, que é mais livre do que literal, o que explica também certas variantes. Data do livro dos Provérbios. — A questão da data do livro na sua forma atual é diferente da do autor. A inscrição da segunda coleção dos Provérbios, 25, 1, prova que esta parte foi compilada no tempo de Ezequias, entre 725 e 696 antes de Cristo. Divisão geral. — O livro dos Provérbios compreende: Introdução (1, 1-6); Primeira parte (1, 7 ao c. 9); Segunda parte (10-24); Terceira parte (25-29); Apêndices (30-31).
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