Pe. Figueiredo (1950)

Capítulo 14

Diferentes caracteres dos sábios, e dos insensatos. Sorte diferente dos justos, e dos injustos. Trabalho. Temor de Deus. Paciência. Compadecer-se dos pobres.

1A mulher prudente edifica a sua casa. A insipiente destruirá ainda com as suas mãos a que está já feita.[1]A MULHER PRUDENTE EDIFICA A SUA CASAPromove os bens dela com a sua vigilância, zêlo, acertado govôrno e boa educação de seus filhos.

2Aquêle que anda pelo caminho direito, e que teme a Deus, é desprezado pelo outro, que anda pelo caminho infame.

3Na bôca do insensato está a vara da soberba: Mas os lábios dos sábios são os que os conservam.[2]NA BÔCA DO INSENSATO ESTÁ A VARA DA SOBERBANa língua tem o insensato a origem do merecido castigo da sua soberba, ou porque se atreve a fazer-se juiz do próximo, chegando a infamar até os mesmos inocentes, ou porque as suas conversações o patenteiam mais digno de riso que de atenção. — Pereira.

4Onde não há bois despejada está a abegoaria: Mas onde há muitíssimas searas, aí está manifesta a fôrça do boi.

5A testemunha fiel não mente: Mas a testemunha dolosa profere a mentira.

6O mofador busca a sabedoria, e não a acha: A doutrina dos prudentes é fácil.

7Caminha ao contrário do homem insensato, pois não sabe as palavras da prudência.

8A sabedoria do homem sagaz é compreender bem o seu caminho: E a imprudência dos insensatos é errante.

9O insensato zombará com o pecado, e entre os justos morará a graça.

10Quando o coração conhece bem a amargura da sua alma, não se misturará o estranho na sua alegria.

11A casa dos ímpios será destruída: Mas as tendas dos justos florescerão.

12Há um caminho, que parece direito ao homem: E no cabo êle guia para a morte.[3]HÁ UM CAMINHO, QUE PARECE DIREITO AO HOMEMEsta mesma sentença se repete adiante no capítulo 16, versículo 25. Ela se verifica da falsa piedade, da falsa penitência, do zêlo indiscreto, da doutrina só aparentemente provável. E tanto os consultores, como os consulentes a devem trazer sempre na memória, para se não deixarem enganar de probabilidades, quando estas mais tendem a lisonjear as paixões humanas, do que a fomentar a sólida piedade. — Pereira.

13O riso será misturado com a dor, e aos fins do gôsto sucede a tristeza.

14O insensato será farto dos seus caminhos, e o homem virtuoso ficará superior a êle.[4]O INSENSATO SERÁ FARTO DOS SEUS CAMINHOSCastigarão ao insensato os seus costumes, e até ficar desgraçadamente farto receberá o pago, que mereceu pelas suas depravadas ações. Ou, pôsto que o insensato se farte das suas paixões, e daquelas coisas que desejou, será todavia de muito melhor condição o homem virtuoso. — Menochio.

15O inocente dá crédito a tudo o que se lhe diz: O sagaz considera os seus passos. Ao filho que não é sincero, nada lhe sairá bom: Mas o servo que tem juízo, será afortunado nas suas emprêsas, e ver-se-á bem dirigido no seu caminho.[5]AO FILHO QUE NÃO É SINCEROÊste versículo não se lê no hebreu, nem na versão de S. Jerônimo, nem nos Setenta do cardeal Ximenes, nem nos manuscritos latinos, nem em várias edições da Vulgata; mas trazem-no alguns exemplares gregos e latinos, no capítulo 13, versículo 13. — Calmet.

16O sábio teme, e desvia-se do mal: O insensato passa adiante, e dá-se por seguro.

17O impaciente fará ações de loucura: E o homem dissimulado é odioso.

18Os imprudentes possuirão a loucura: E os sagazes esperarão a ciência.[6]E OS SAGAZES ESPERARÃO A CIÊNCIAA lição do texto hebreu é: "E os prudentes se coroarão da sabedoria." — Pereira.

19Estarão deitados por terra os maus diante dos bons: E os ímpios diante das portas dos justos.

20O pobre será odioso até ao seu parente mais chegado: Porém os amigos dos ricos serão muitos.

21Aquêle que despreza ao seu próximo, peca: Mas o que se compadece do pobre será bem-aventurado. Aquêle que crê no Senhor ama a misericórdia.[7]AQUÊLE QUE CRÊ NO SENHORÊste verso falta no hebreu, e em S. Jerônimo, e no grego, e nos antigos manuscritos latinos. — Calmet.

22Os que obram mal erram: A misericórdia e a verdade são as que nos adquirem os bens.

23Em todo o trabalho haverá abundância: Mas onde há muitíssimas palavras, aí freqüentemente se acha a indigência.[8]EM TODO O TRABALHO HAVERÁ ABUNDÂNCIAA abundância é filha do trabalho e da indústria; a indigência, porém, das palavras desacompanhadas de obras. — Pereira.

24As riquezas dos sábios são a sua coroa: A fatuidade dos insensatos é imprudência.[9]AS RIQUEZAS DOS SÁBIOSOs sábios com liberalidade e honra sabem usar das riquezas, quando as convertem e despendem sàbiamente em proveito dos outros: mas os insensatos sempre são insensatos; e em tôdas as coisas que empreendem, manifestam a sua demência. — Calmet.

25A testemunha fiel livra as almas: A que porém é dobre profere mentiras.

26No temor do Senhor há confiança cheia de fortaleza, e seus filhos terão esperança.

27O temor do Senhor é uma fonte de vida, para que se desviem da ruína da morte.

28Na multidão do povo está a dignidade do rei: E na pouquidade da plebe a ignomínia do príncipe.

29O que é paciente, governa-se com muita prudência: O que porém é impaciente, assinala a sua loucura.

30A saúde do coração é a vida da carne: A inveja é a podridão dos ossos.[10]A SAÚDE DO CORAÇÃOO sentido é, que a saúde do corpo depende muito da tranquilidade do espírito, e que a inveja roi os ossos, e em certo modo os apodrece. — Menochio.

31O que calunia ao necessitado, insulta ao que o criou: Mas honra-o aquêle que se compadece do pobre.[11]O QUE CALUNIAIsto é, o que ultraja com afrontosa contumélia ao necessitado, só porque o é, insulta, ou como à letra diz o texto, lança em rosto ao seu mesmo Criador a pobreza; porque diz Cristo: "O que deste a um dêstes pequeninos, a mim o fizeste"; ou porque parece repreender e condenar a Deus, que dispôs, quis e permitiu que fôsse pobre. É o sentido que tem o verbo original liascliack, que significa agere violenter et injuste, Lexicon Hebraicum, que a Vulgata traduziu por calumniare.

32O ímpio será expelido na sua malícia: Mas o justo espera na sua morte.

33A sabedoria descansa no coração do prudente, e êle instruirá todos os ignorantes.[12]E ÊLE INSTRUIRÁ TODOS OS IGNORANTESO hebreu lê: "E será conhecido no meio dos insensatos." Os Setenta: "E no coração dos insensatos se não divisa." — Pereira.

34A justiça exalta as nações: Mas o pecado faz miseráveis os povos.

35O ministro inteligente é aceito ao rei: O inútil sentirá a sua ira.

Nome do livro. — Os hebreus, denominando os livros pela palavra inicial, conheciam êste pela designação de Mischlé, têrmo derivado de maschal, que significa semelhança, comparação, e por extensão máxima, e também, embora mais raras vêzes, provérbio, também alegoria ou parábola, e ainda cânto irónico. Os primeiros cristãos adotaram a denominação dos Setenta, a que corresponde o latim Proverbia. Autor. — Segundo o que se deduz da análise do próprio livro, o autor é Salomão. Prov 1, 1; 10, 1; 25, 1 e ainda o 3 Rs 4, 32, Locutus est quoque Salomon tria millia parabolas (maschal). A origem salomônica de todos os provérbios é confirmada pela uniformidade do estilo e por nada se encontrar que não convenha a Salomão. É certo que acêrca dos capítulos 30 e 31 pode haver dúvida, pois são uns apêndices que têm respectivamente os nomes de Agur, filho de Jaqué e Lamuel, não faltando porém intérpretes que entendem que êstes mesmos nomes se referem a Salomão. Texto original e versões antigas. — O texto original e as mais antigas versões divergem em certos pontos. Os próprios exemplares hebraicos antigos não são rigorosamente uniformes; nuns faltam e em outros sobejam máximas, que aliás se compreende sem dificuldade, visto a forma como eram feitas as cópias. A mais antiga versão é a dos Setenta, que é mais livre do que literal, o que explica também certas variantes. Data do livro dos Provérbios. — A questão da data do livro na sua forma atual é diferente da do autor. A inscrição da segunda coleção dos Provérbios, 25, 1, prova que esta parte foi compilada no tempo de Ezequias, entre 725 e 696 antes de Cristo. Divisão geral. — O livro dos Provérbios compreende: Introdução (1, 1-6); Primeira parte (1, 7 ao c. 9); Segunda parte (10-24); Terceira parte (25-29); Apêndices (30-31).
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