Pe. Figueiredo (1950)

Capítulo 17

Deus prova os corações. Não desprezar ao pobre. Juízos injustos abomináveis diante de Deus. O amigo é-o em todo o tempo. O insensato passa por sábio enquanto não fala.

1Um bocadinho de pão sêco com alegria vale mais do que uma casa cheia de vítimas com pelejas.[1]VÍTIMASAlude o sábio ao rito de poderem antigamente nos sacrifícios pacíficos tomar uma parte das carnes das vítimas, para fazer o banquete do costume na companhia dos convidados. Veja-se o Lev 7,19, e confira-se o c. 7,14, dêste mesmo livro. — Pereira.

2O servo com juízo dominará os filhos insensatos, e repartirá a herança entre os irmãos.

3Bem como a prata se prova no fogo, e o oiro no crisol: Assim o Senhor prova os corações.

4O mau obedece à língua iníqua, e o enganador dá ouvidos aos lábios mentirosos.

5Aquêle que despreza ao pobre, insulta ao seu Criador: E o que se alegra com a ruína de outrem, não ficará impune.[2]AQUÊLE QUE DESPREZA AO POBREConfira-se o c. 11,31.

6Os filhos dos filhos são a coroa dos velhos: E a glória dos filhos são os pais dêles.

7As palavras compostas não convêm ao insensato.[3]AS PALAVRASNem o falar de coisas graves e com autoridade está bem ao insensato, nem o mentir e faltar ao que prometeu diz bem num príncipe.

8A expectação de quem espera é uma pérola belíssima: Para qualquer parte que êle se volta, obra com prudência.

9Aquêle que encobre o delito, busca amizades: O que por outro teor o repete, separa os unidos.[4]O QUE POR OUTRO TEOR O REPETEJá acrescentando, já diminuindo, e expondo-o revestido de mui diferentes circunstâncias.

10Ao homem prudente serve-lhe mais uma repreensão, do que ao insensato um cento de golpes.

11O mau sempre anda buscando distúrbios: Mas o anjo cruel será enviado contra êle.[5]MAS O ANJO CRUELPor êste anjo cruel entendem uns o anjo de morte ou o anjo exterminador, que Deus envia para o castigo dos pecadores, qual o que matou a todos os primogénitos do Egito, e qual o que destruiu o exército de Senaquerib, ou êle seja anjo bom ou seja anjo mau. Outros por anjo cruel entendem a má nova ou a mesma morte. — Pereira.

12É melhor encontrar uma ursa, à qual foram roubados os seus filhinhos, do que a um insensato que se fia na sua loucura.

13Não se apartará o mal da casa daquele que dá males por bens.

14O que dá saída à água represada, é origem de contendas: E antes de padecer a afronta, desampara a justiça.[6]O QUE DÁ SAÍDAO homem, que pela sua maledicência trava de razões com outrem, motivando alguma dissensão, é semelhante àquele que destapa, ou solta a água retida, que, aumentando cada vez mais a sua enchente, alaga tudo; e, se acontece fazerem-lhe qualquer injúria, é porque êle deu primeiro causa a isso, tendo já pecado contra a justiça. Também, segundo Calmet, pode ter êste lugar outro sentido e é, que havendo na Palestina poucas águas e originando-se por isso muitos litígios, aquêle que fazia encaminhar para dentro da sua fazenda a levada das águas de algum ribeiro com detrimento dos vizinhos, buscava dêste modo meter em casa uma demanda, que sem dúvida ia a perder. Admoesta-o pois o sábio a que deixe a causa, antes de se começar o pleito, e que se componha com o contrário, primeiro que se dê a sentença, a qual é fôrça que êle mesmo tema sair-lhe contra. É esta inteligência, fundada no hebreu, que diz: Quem solta as águas é princípio de contenda, e tu, antes que se mova o pleito, deixa-o. A mesma doutrina se acha em Mt 5,25 e em Lc 12,58. Acêrca das contendas desta natureza vejam-se no Gên 26,20, as que houve entre os pastôres de Isaac e os de Abimelec, rei dos filisteus em Gerara.

15Aquêle que justifica ao ímpio, e aquêle que condena ao justo, ambos são abomináveis diante de Deus.

16De que serve ao insensato o ter grandes riquezas, se êle não pode comprar com elas a sabedoria? Aquêle que levanta muito alto a sua casa busca a sua ruína: E o que evita aprender cairá nos males.[7]AQUÊLE QUE LEVANTA MUITO ALTO A SUA CASAÊste versículo, em que se repreendem os que por soberba ou querem avultar no mundo ou recusam a aprender a sã doutrina que se lhes propõe, não vem no hebreu, nem em S. Jerônimo, mas acha-se nos Setenta. — Calmet.

17Aquêle que é amigo, é-o em todo o tempo: E o irmão conhece-se nos transes apertados.

18O homem insensato baterá com as mãos, quando se declarar fiador pelo seu amigo.[8]QUANDO SE DECLARAR FIADORJá o sábio deixou acima explicado sôbre êste ponto no capítulo 6,1.2.3. — Pereira.

19Aquêle que medita discórdias, ama as reixas: E o que levanta a sua porta, busca a sua ruína.

20O que é de coração perverso, não achará o bem: E o que tem a língua dobre, cairá no mal.

21O insensato nasceu para ignomínia sua: Pois nem o pai se alegrará com o filho estulto.

22O ânimo alegre faz idade florida: O espírito triste seca os ossos.

23O ímpio recebe presentes do seio, para perverter as veredas da justiça.[9]DO SEIOOu sendo juiz aceita as dádivas do seio, isto é, às escondidas e secretamente da mão dos litigantes, ou, sendo parte, as toma do seu seio para as dar ao juiz, a fim de torcer êste a vara da justiça. — Menochio.

24A sabedoria reluz no rosto do prudente: Os olhos dos insensatos nas extremidades da terra.[10]NAS EXTREMIDADES DA TERRAComo se dissera: e pelo contrário os olhos dos insensatos são vagabundos, porque êles os voltam de contínuo para uma e para outra parte. — Menochio.

25O filho insensato é a indignação do pai: E a dor da mãe que o gerou.

26Não é bom fazer dano ao justo: Nem ferir ao príncipe que julga segundo a justiça.

27Aquêle que é moderado nas suas palavras, é douto e prudente: E o homem erudito é de espírito precioso.[11]É DE ESPÍRITO PRECIOSOO homem sábio guarda com muita cautela, como coisas preciosas, os seus pensamentos. Dá com isto Salomão a entender que o sábio deve conter a língua em silêncio, ou falar com grande circunspecção. — Calmet.

28Até o insensato passará por sábio, se estiver calado: E por inteligente, se cerrar os seus lábios.

Nome do livro. — Os hebreus, denominando os livros pela palavra inicial, conheciam êste pela designação de Mischlé, têrmo derivado de maschal, que significa semelhança, comparação, e por extensão máxima, e também, embora mais raras vêzes, provérbio, também alegoria ou parábola, e ainda cânto irónico. Os primeiros cristãos adotaram a denominação dos Setenta, a que corresponde o latim Proverbia. Autor. — Segundo o que se deduz da análise do próprio livro, o autor é Salomão. Prov 1, 1; 10, 1; 25, 1 e ainda o 3 Rs 4, 32, Locutus est quoque Salomon tria millia parabolas (maschal). A origem salomônica de todos os provérbios é confirmada pela uniformidade do estilo e por nada se encontrar que não convenha a Salomão. É certo que acêrca dos capítulos 30 e 31 pode haver dúvida, pois são uns apêndices que têm respectivamente os nomes de Agur, filho de Jaqué e Lamuel, não faltando porém intérpretes que entendem que êstes mesmos nomes se referem a Salomão. Texto original e versões antigas. — O texto original e as mais antigas versões divergem em certos pontos. Os próprios exemplares hebraicos antigos não são rigorosamente uniformes; nuns faltam e em outros sobejam máximas, que aliás se compreende sem dificuldade, visto a forma como eram feitas as cópias. A mais antiga versão é a dos Setenta, que é mais livre do que literal, o que explica também certas variantes. Data do livro dos Provérbios. — A questão da data do livro na sua forma atual é diferente da do autor. A inscrição da segunda coleção dos Provérbios, 25, 1, prova que esta parte foi compilada no tempo de Ezequias, entre 725 e 696 antes de Cristo. Divisão geral. — O livro dos Provérbios compreende: Introdução (1, 1-6); Primeira parte (1, 7 ao c. 9); Segunda parte (10-24); Terceira parte (25-29); Apêndices (30-31).
📄 PDF
📄 Original