Capítulo 17
1Um bocadinho de pão sêco com alegria vale mais do que uma casa cheia de vítimas com pelejas.[1]VÍTIMAS — Alude o sábio ao rito de poderem antigamente nos sacrifícios pacíficos tomar uma parte das carnes das vítimas, para fazer o banquete do costume na companhia dos convidados. Veja-se o Lev 7,19, e confira-se o c. 7,14, dêste mesmo livro. — Pereira.
2O servo com juízo dominará os filhos insensatos, e repartirá a herança entre os irmãos.
3Bem como a prata se prova no fogo, e o oiro no crisol: Assim o Senhor prova os corações.
4O mau obedece à língua iníqua, e o enganador dá ouvidos aos lábios mentirosos.
5Aquêle que despreza ao pobre, insulta ao seu Criador: E o que se alegra com a ruína de outrem, não ficará impune.[2]AQUÊLE QUE DESPREZA AO POBRE — Confira-se o c. 11,31.
6Os filhos dos filhos são a coroa dos velhos: E a glória dos filhos são os pais dêles.
7As palavras compostas não convêm ao insensato.[3]AS PALAVRAS — Nem o falar de coisas graves e com autoridade está bem ao insensato, nem o mentir e faltar ao que prometeu diz bem num príncipe.
8A expectação de quem espera é uma pérola belíssima: Para qualquer parte que êle se volta, obra com prudência.
9Aquêle que encobre o delito, busca amizades: O que por outro teor o repete, separa os unidos.[4]O QUE POR OUTRO TEOR O REPETE — Já acrescentando, já diminuindo, e expondo-o revestido de mui diferentes circunstâncias.
10Ao homem prudente serve-lhe mais uma repreensão, do que ao insensato um cento de golpes.
11O mau sempre anda buscando distúrbios: Mas o anjo cruel será enviado contra êle.[5]MAS O ANJO CRUEL — Por êste anjo cruel entendem uns o anjo de morte ou o anjo exterminador, que Deus envia para o castigo dos pecadores, qual o que matou a todos os primogénitos do Egito, e qual o que destruiu o exército de Senaquerib, ou êle seja anjo bom ou seja anjo mau. Outros por anjo cruel entendem a má nova ou a mesma morte. — Pereira.
12É melhor encontrar uma ursa, à qual foram roubados os seus filhinhos, do que a um insensato que se fia na sua loucura.
13Não se apartará o mal da casa daquele que dá males por bens.
14O que dá saída à água represada, é origem de contendas: E antes de padecer a afronta, desampara a justiça.[6]O QUE DÁ SAÍDA — O homem, que pela sua maledicência trava de razões com outrem, motivando alguma dissensão, é semelhante àquele que destapa, ou solta a água retida, que, aumentando cada vez mais a sua enchente, alaga tudo; e, se acontece fazerem-lhe qualquer injúria, é porque êle deu primeiro causa a isso, tendo já pecado contra a justiça. Também, segundo Calmet, pode ter êste lugar outro sentido e é, que havendo na Palestina poucas águas e originando-se por isso muitos litígios, aquêle que fazia encaminhar para dentro da sua fazenda a levada das águas de algum ribeiro com detrimento dos vizinhos, buscava dêste modo meter em casa uma demanda, que sem dúvida ia a perder. Admoesta-o pois o sábio a que deixe a causa, antes de se começar o pleito, e que se componha com o contrário, primeiro que se dê a sentença, a qual é fôrça que êle mesmo tema sair-lhe contra. É esta inteligência, fundada no hebreu, que diz: Quem solta as águas é princípio de contenda, e tu, antes que se mova o pleito, deixa-o. A mesma doutrina se acha em Mt 5,25 e em Lc 12,58. Acêrca das contendas desta natureza vejam-se no Gên 26,20, as que houve entre os pastôres de Isaac e os de Abimelec, rei dos filisteus em Gerara.
15Aquêle que justifica ao ímpio, e aquêle que condena ao justo, ambos são abomináveis diante de Deus.
16De que serve ao insensato o ter grandes riquezas, se êle não pode comprar com elas a sabedoria? Aquêle que levanta muito alto a sua casa busca a sua ruína: E o que evita aprender cairá nos males.[7]AQUÊLE QUE LEVANTA MUITO ALTO A SUA CASA — Êste versículo, em que se repreendem os que por soberba ou querem avultar no mundo ou recusam a aprender a sã doutrina que se lhes propõe, não vem no hebreu, nem em S. Jerônimo, mas acha-se nos Setenta. — Calmet.
17Aquêle que é amigo, é-o em todo o tempo: E o irmão conhece-se nos transes apertados.
18O homem insensato baterá com as mãos, quando se declarar fiador pelo seu amigo.[8]QUANDO SE DECLARAR FIADOR — Já o sábio deixou acima explicado sôbre êste ponto no capítulo 6,1.2.3. — Pereira.
19Aquêle que medita discórdias, ama as reixas: E o que levanta a sua porta, busca a sua ruína.
20O que é de coração perverso, não achará o bem: E o que tem a língua dobre, cairá no mal.
21O insensato nasceu para ignomínia sua: Pois nem o pai se alegrará com o filho estulto.
22O ânimo alegre faz idade florida: O espírito triste seca os ossos.
23O ímpio recebe presentes do seio, para perverter as veredas da justiça.[9]DO SEIO — Ou sendo juiz aceita as dádivas do seio, isto é, às escondidas e secretamente da mão dos litigantes, ou, sendo parte, as toma do seu seio para as dar ao juiz, a fim de torcer êste a vara da justiça. — Menochio.
24A sabedoria reluz no rosto do prudente: Os olhos dos insensatos nas extremidades da terra.[10]NAS EXTREMIDADES DA TERRA — Como se dissera: e pelo contrário os olhos dos insensatos são vagabundos, porque êles os voltam de contínuo para uma e para outra parte. — Menochio.
25O filho insensato é a indignação do pai: E a dor da mãe que o gerou.
26Não é bom fazer dano ao justo: Nem ferir ao príncipe que julga segundo a justiça.
27Aquêle que é moderado nas suas palavras, é douto e prudente: E o homem erudito é de espírito precioso.[11]É DE ESPÍRITO PRECIOSO — O homem sábio guarda com muita cautela, como coisas preciosas, os seus pensamentos. Dá com isto Salomão a entender que o sábio deve conter a língua em silêncio, ou falar com grande circunspecção. — Calmet.
28Até o insensato passará por sábio, se estiver calado: E por inteligente, se cerrar os seus lábios.