Capítulo 6
1Meu filho, se ficares por fiador do teu amigo, deste por êle a tua mão a um estranho,[1]MEU FILHO — Não se condenam aqui as fianças, que do nosso préstimo requerem as leis da caridade, mas só as incautas e imprudentes. DESTE — É, como bem se deixa ver, alusão ao costume oriental de tocar a direita do credor aquele que tomava sobre si a fiança, em sinal da palavra dada. Xenofonte fala deste uso como vulgar entre os persas. Anabasis L. II-III.
2com as palavras da tua bôca te meteste no laço, e ficaste preso pelas tuas próprias expressões.
3Faze pois, meu filho, o que te digo, e livra-te a ti mesmo: Pois que caíste nas mãos do teu próximo. Discorre duma para outra parte, apressa-te, desperta ao teu amigo:
4Não deixes entregarem-se ao sono os teus olhos, nem dormitem as tuas pálpebras.
5Salva-te como uma corçazinha que escapa da mão e como um pássaro que foge dentre as mãos do armador.
6Vai ter, ó preguiçoso, com a formiga e considera os teus caminhos, e aprende dela a sabedoria:
7A qual não tendo condutor, nem mestre, nem príncipe,
8faz o seu provimento no estio, e ajunta no tempo da ceifa de que se sustentar.[2]FAZ O SEU PROVIMENTO — Esta passagem tem servido de argumento contra a inspiração deste livro. Objetam os adversários que a ciência desmente a pretendida previdência da formiga, celebrada nas fábulas de La Fontaine; porém a verdade é, segundo os modernos estudos, que a formiga é um carnívoro que se nutre de insetos que arrasta para o formigueiro, e que das substâncias não animais, só procura as que são açucaradas. Durante o inverno, acrescentam, a formiga não come, e então de que serviriam os grãos de trigo às formigas que passam o inverno amontoadas umas sobre as outras, e tão imóveis que parecem mortas? Réaumur e Latreille, Histoire naturelle des fourmis; Huber, Recherches sur les moeurs des fourmis. Mas de tudo isto nada se pode concluir contra a inspiração do autor sagrado, porque os adversários partem do falso suposto de que este lugar bíblico ensina que as formigas conservam para o inverno as provisões que juntam durante o estio, quando tal não há. Nem o texto original nem as mais antigas versões autorizam essa interpretação. Lê-se somente no texto sagrado que a formiga faz o seu provimento no estio, mas não fala do inverno. O que Salomão intenta é apresentar as formigas como modelo de atividade, e o citado Latreille fala dessa atividade laboriosa. On a célébré avec raison, la prévoyance de ces insectes et leur amour insatiable pour le travail. Quanto à provisão é um fato averiguado. Na conhecida revista Tour du Monde, 1881, 2.º semestre, p. 173, 174, encontra-se um belo artigo, firmado pelo Cfr. Loartet, em que este naturalista confessa que as formigas da Síria juntam em seus celeiros uma quantidade considerável de trigo, une quantité de blé, souvent très considérable, e acrescenta: Des milliers de travailleurs sont activement occupés à chercher des grains de blé tombés sur le sol et à les rentrer dans leurs vastes greniers souterrains etc.
9Até quando dormirás tu, ó preguiçoso? Quando te levantarás tu do teu sono?
10Um poucochinho dormirás, outro poucochinho dormitarás, outro poucochinho cruzarás as mãos para dormires:
11E virá sôbre ti a indigência, como um caminheiro, e a pobreza, como um homem armado. Se tu porém fôres diligente, virá a tua messe como uma fonte, e a indigência fugirá longe de ti.
12O homem apóstata é um homem inútil, caminha com bôca perversa,[3]O HOMEM APÓSTATA — É o que se rebela contra Deus, sacudindo o jugo da sua lei. No hebreu, é o que se lê: Homem de Belial, que é o mesmo que dizer: Homem do diabo, pois assim traduz a Vulgata. 3 Rs 21, 13.
13êle faz sinais com os olhos, bate com o pé, fala com os dedos,
14com depravado coração maquina o mal, e em todo o tempo semeia distúrbios:
15A êste tal virá de repente a sua perdição, e de improviso será quebrantado, e não terá mais daí por diante remédio.
16Seis são as coisas que o Senhor aborrece, e a sua alma detesta a sétima:
17Olhos altivos, língua mentirosa, mãos que derramam sangue inocente,
18coração que maquina malvadíssimos projetos, pés prontos para correr ao mal,
19testemunha falsa que profere mentiras e o que semeia discórdias entre seus irmãos.[4]E O QUE SEMEIA DISCÓRDIAS — Esta é a sétima coisa que Deus aborrece e detesta muito mais, que todas as seis que ficam apontadas, porque o semeador de cizânias rompe os laços da caridade entre o próximo, a qual é o fim dos mandamentos, 1 ad Tim 1, 5, e faz apagar o seu fogo, que Jesus Cristo quer que se ateie nos corações humanos. Lc 12, 49.
20Conserva, meu filho, preceitos de teu pai, e não largues a lei de tua mãe.
21Traze-os incessantemente atados ao teu coração, e põe-nos à roda da tua garganta.[5]TRAZE-OS INCESSANTEMENTE — Alusão ao que diz Moisés no Dt 6, 6-8. Confira-se com Prov 7, 3.
22Quando andares, êles te acompanhem: Quando dormires, êles te guardem, e em acordando fala com êles:
23Porque o mandamento é uma candeia, e a lei uma luz e a repreensão da disciplina o caminho da vida:
24Para que te guardem da má mulher, e da língua lisonjeira da estranha.
25Não cobice o teu coração a sua formosura, nem te deixes prender dos seus acenos:
26Porque o preço da meretriz apenas é de um pão: Mas a mulher cativa a alma do homem, a qual não tem preço.
27Acaso pode o homem esconder o fogo no seu seio, sem que ardam os seus vestidos?
28Ou pode êle andar por cima das brasas, sem que se queime a planta dos seus pés?
29Assim o que se chega à mulher de seu próximo, não ficará limpo depois de a tocar.
30Não é grande culpa, quando algum furtar: Porque furta para saciar a sua esfaimada alma:
31Também depois de colhido às mãos, pagará sete vêzes em dôbro, e entregará todos os bens da sua casa.
32Porém o que é adúltero perderá a sua alma por causa da loucura do seu coração:
33Êle ajunta para si a infâmia e a ignomínia e não se apagará o seu opróbrio:
34Porque o ciúme e o furor do marido não lhe perdoará no dia da vingança,
35nem êle se dobrará aos rogos de nenhum, nem receberá em satisfação presentes, ainda que sejam em mui grande número.