Pe. Figueiredo (1950)

Capítulo 24

Não invejar a prosperidade dos maus. Não estimar senão a sabedoria. Suster-se no tempo da aflição. Não se regozijar com a ruína dos seus inimigos. Temer a Deus, e ao rei. Evitar a preguiça.

1Não tenhas inveja aos homens maus, nem desejes estar com êles:

2Porque o seu espírito medita rapinas, e os seus lábios falam enganos.

3A casa fundar-se-á com a sabedoria, e fortificar-se-á com a prudência.

4Pela doutrina encher-se-ão as despensas de tôda a substância preciosa e formosíssima.[1]ENCHER-SE-ÃOIsto é, tôdas as oficinas, e quartos da casa se encherão de todos os bens, e alfaias de grande valor, e de mui refulgente formosura. –Pereira.

5O varão sábio é forte: E o varão douto, robusto e valente.

6Porque a guerra pela boa ordem se maneja: E a salvação achar-se-á onde há muitos conselhos.

7Para o insensato é árdua a sabedoria; êle não abrirá na porta a sua bôca.[2]ÊLE NÃO ABRIRÁOu, de nenhum modo poderá ter assento nos tribunais para administrar a justiça às portas da cidade, por falta da sabedoria, que não chegou a alcançar; ou sendo ali apresentado como réu, não poderá desfazer as objeções da parte que o acusa, por se achar destituído das luzes e amparo da mesma sabedoria. –Pereira.

8Aquêle que anda cuidando em fazer males, será chamado insensato.

9O pensamento do insensato é o pecado: E o detrator é a abominação dos homens.

10Se tu perderes a esperança descorçoado no dia da angústia: Será minguada a tua fortaleza.[3]SE TU PERDERES A ESPERANÇAO sentido é, que vem a ser pequena a fortaleza, e a paciência daqueles que descoroçoam à vista de melhorar de estado. –Menochio.

11Tira do perigo aquêles que são levados à morte: E não cesses de livrar aos que são arrastados ao degoladouro.[4]AO DEGOLADOUROÀ carnificina, ou ao patíbulo, para se lhes tirar a vida. O que se deve entender, se fôrem inocentes, e não tiverem quem lhes acuda. Veja-se o Sl 81, 4. –Pereira.

12Se tu disseres: As fôrças não me ajudam: O mesmo que é inspetor do coração, o conhece, e ao guardador da tua alma nada se esconde, e êle retribuirá ao homem segundo as suas obras.[5]NÃO ME AJUDAMPara livrar o inocente resistindo aos caluniadores, e aos que injustamente a oprimem: “Não conheço a êste.” –Menochio.

13Come, meu filho, do mel, porque é bom, e do favo docíssimo à tua garganta:[6]COMEApetece tu os frutos da sabedoria, e quando os tiveres alcançado, goza dêles, porque são mais doces para a alma do que é o favo de mel ao paladar. –Menochio.

14Tal será também para a tua alma a doutrina da sabedoria: Quando tu a achares, terás esperança na tua última hora, e a tua esperança não perecerá.

15Não armes traições ao justo, e não andes buscando a impiedade na sua casa, nem perturbes o seu repouso.

16Porque o justo cairá sete vêzes, e tornar-se-á a levantar: Porém os ímpios serão precipitados no mal.[7]PORQUE O JUSTODêste lugar têm alguns adversários pretendido deduzir a insuficiência da religião para morigerar a humanidade, visto que o próprio justo peca sete vêzes ao dia, entre êstes é conhecido o autor do livro intitulado Nouvelles libertés de penser. Porém a objeção não colhe desde que o texto seja bem entendido. O que se encontra no texto original é: O justo cairá sete vêzes e levantar-se-á; os ímpios porém permanecerão no mal, ou mais à letra: “Esbarrarão de encontro ao mal”. A primeira coisa que se não encontra no texto é a expressão diàriamente, ou no dia, que não passa duma inversão dos adversários. Por sua vez o verbo Naphul, empregado mais de quatrocentas vêzes na Escritura, nunca tem a acepção de pecar, mas sim cair. Por isso os exegetas dizem que é forçar o texto entender estas quedas por pecados, mas que por estas se devem entender as desgraças, as aflições, as contrariedades freqüentes da vida. Entre outros lugares em que o citado verbo aparece com esta significação, temos êstes: Is 24, 20; Jer 25, 27; Am 8, 14, Miq 7, 8, etc.

17Não te alegres, quando cair o teu inimigo, nem o teu coração se regozije com a sua ruína.

18Por não suceder que o Senhor o veja, e que isto lhe desagrade, e que tire de cima dêle a sua ira.[8]E QUE TIRE DE CIMA DÊLE A SUA IRAE a desafogue contra ti.

19Não andes em competência com os homens péssimos, nem invejes aos ímpios:[9]NÃO ANDES EM COMPETÊNCIA COM OS HOMENS PÉSSIMOSImitando-os.

20Porque os maus não têm esperança alguma para o futuro, e a candeia dos ímpios apagar-se-á.

21Teme, meu filho, ao Senhor, e ao rei: e não te mistures com os detratores:

22Porque de repente se levantará a sua perdição: E quem sabe a ruína de ambos?[10]E QUEM SABE A RUÍNA DE AMBOS?Isto é, daquele que não respeita a Deus e do que nega sujeição ao rei. Outros expõem assim: Quem poderá alcançar com o entendimento a vingança, que Deus e o rei, êstes dois poderes já se sabe tão fortes e formidáveis, hão de exercitar contra o maldizente e o blasfemo? –Calmet.

23O que vou a dizer, é também para os sábios: Não é bom fazer acepção de pessoas nos juízos.

24Àqueles que dizem ao ímpio: Tu és justo: Amaldiçoá-los-ão os povos, e detestá-los-ão as tribos.

25Aquêles que o repreendem serão louvados: E virá sôbre êles a bênção.

26Aquêle que dá uma resposta direita, beijará os seus lábios.[11]BEIJARÁ OS SEUS LÁBIOSResponder correta e verdadeiramente é provar a amizade que se consagra ao interlocutor, e como o ósculo é o sinal de amizade, o autor emprega esta expressão tropológica.

27Prepara de fora a tua obra, e lavra cuidadosamente o teu campo: Para que depois edifiques a tua casa.[12]PREPARA DE FORAÉ êste, segundo Menochio e outros, um preceito de economia, que ensina dever-se, antes de levantar casas em povoado, tratar da cultura do campo. Mas tomado no sentido alegórico vem a dizer, que ninguém há de lançar mão duma emprêsa, sem que primeiro considere muito devagar se tem suficientes fôrças para a levar ao cabo. Veja-se Lc 14, 28. –Pereira.

28Não sejas testemunha em vão contra o teu próximo: Nem seduzas a ninguém com os teus lábios.[13]EM VÃOOu, como lêem os Setenta: falsa. –Pereira.

29Não digas: Como êle me fêz a mim, assim farei eu a êle: Tornarei a cada um segundo as suas obras.[14]COMO ÊLE ME FÊZ A MIMDepois da proibição do ódio, como já se viu acima no versículo 17, proíbe-se também aqui a vingança. Nem a lei de Talião, que se acha no Lev 24, 19-20, se opõe a esta doutrina; porque, tomada à letra, nunca vinha jamais a aprovar a vingança, mas a coarctá-la e pôr-lhe limites; sendo esta, como pondera Santo Agostinho sôbre o salmo 108, se assim se pode dizer, a justiça dos injustos: Hæc, si dici potest, injustorum justitia est; e a entender-se noutro sentido, mandava só que se proporcionasse com escrupulosa igualdade a pena com o delito. De qualquer modo que se considere a mencionada lei, dizia só respeito aos juízes e magistrados, estabelecendo uma regra certa para os castigos públicos. –Pereira.

30Passei pelo campo do homem preguiçoso, e pela vinha do homem insensato:

31E eis-que achei que tudo estava cheio de urtigas, e que os espinhos cobriam a sua superfície, e que o muro de pedra estava caído.

32O que tendo eu visto, pu-lo no meu coração, e dêste exemplo aprendi a disciplina.[15]PU-LO NO MEU CORAÇÃOIsto é, depositei dentro do meu coração êste reparo, e à vista do que observara, tomei exemplo para me corrigir e fazer mais vigilante e circunspecto na reforma da minha vida. Os Setenta lêem: “Por último eu tenho feito penitência, e tenho pôsto a mira em eleger a correção, ou o castigo.”

33Um pouco, disse eu comigo, dormirás, outro breve espaço dormitarás, outro poucochinho cruzarás as mãos, para descansares:

34E virá sôbre ti a indigência como um caminheiro, e a mendiguez como homem armado.

Nome do livro. — Os hebreus, denominando os livros pela palavra inicial, conheciam êste pela designação de Mischlé, têrmo derivado de maschal, que significa semelhança, comparação, e por extensão máxima, e também, embora mais raras vêzes, provérbio, também alegoria ou parábola, e ainda cânto irónico. Os primeiros cristãos adotaram a denominação dos Setenta, a que corresponde o latim Proverbia. Autor. — Segundo o que se deduz da análise do próprio livro, o autor é Salomão. Prov 1, 1; 10, 1; 25, 1 e ainda o 3 Rs 4, 32, Locutus est quoque Salomon tria millia parabolas (maschal). A origem salomônica de todos os provérbios é confirmada pela uniformidade do estilo e por nada se encontrar que não convenha a Salomão. É certo que acêrca dos capítulos 30 e 31 pode haver dúvida, pois são uns apêndices que têm respectivamente os nomes de Agur, filho de Jaqué e Lamuel, não faltando porém intérpretes que entendem que êstes mesmos nomes se referem a Salomão. Texto original e versões antigas. — O texto original e as mais antigas versões divergem em certos pontos. Os próprios exemplares hebraicos antigos não são rigorosamente uniformes; nuns faltam e em outros sobejam máximas, que aliás se compreende sem dificuldade, visto a forma como eram feitas as cópias. A mais antiga versão é a dos Setenta, que é mais livre do que literal, o que explica também certas variantes. Data do livro dos Provérbios. — A questão da data do livro na sua forma atual é diferente da do autor. A inscrição da segunda coleção dos Provérbios, 25, 1, prova que esta parte foi compilada no tempo de Ezequias, entre 725 e 696 antes de Cristo. Divisão geral. — O livro dos Provérbios compreende: Introdução (1, 1-6); Primeira parte (1, 7 ao c. 9); Segunda parte (10-24); Terceira parte (25-29); Apêndices (30-31).
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