Pe. Figueiredo (1950)

Capítulo 7

Exortação ao amor da sabedoria. Defender-se dos artifícios da mulher adúltera. Infelicidade daqueles que se deixam cativar dela.

1Meu filho, guarda as minhas expressões, e esconde dentro de ti os meus preceitos.

2Filho, observa os meus mandamentos, e viverás: E guarda a minha lei como a menina do teu ôlho:

3Traze-a atada aos teus dedos, escreve-a nas tábuas do teu coração.

4Dize à sabedoria, tu és minha irmã; E chama à prudência a tua amiga,

5para que te guarde da mulher estranha, e da alheia, que adoça as suas palavras.

6Porque desde a janela da minha casa me tenho pôsto a olhar por entre as gelosias,[1]GELOSIASNa Palestina, as janelas não tinham vidros, eram fechadas com gelosias, rótulas móveis de madeira, havendo também a adufa, que era um anteparo de pau.

7e vejo aos incautos, considero a um mancebo insensato,

8que passa pela rua junto da esquina, e pelo pé da casa daquela, anda,

9sendo já escuro, quando o dia se vai acabando nas trevas, e obscuridade da noite.

10E eis-aqui que lhe sai ao encontro esta mulher ornada à moda das prostitutas, prevenida para caçar as almas: Faladora e vagabunda,

11não lhe sofrendo o coração estar quêda, nem podendo ter os pés dentro em casa,

12pondo-se de emboscada, umas vêzes fora outras nas praças, outras às esquinas.

13E tendo mão num mancebo, o beija, e com uma cara sem vergonha lhe faz carícias, dizendo:

14Pela tua saúde ofereci vítimas, e hoje dei cumprimento aos meus votos:

15Por isso te saí ao encontro, desejando ver-te, e eis que te achei.

16Fiz sôbre cordões a minha cama, cobri-a com colchas bordadas do Egito:[2]FIZ SÔBRE CORDÕESIsto é, fiz a minha cama sobre cordões, faixas, ou cintas, e não sobre tábuas, para ficar mais brando. COLCHAS BORDADAS — Os tapetes fabricados no Egito adquiriram reputação famosa, sendo muito apreciados. — Ez 27, 7.

17Perfumei a câmara de mirra, e de aloés, e de cinamomo.

18Vem, embriaguemo-nos de amores, e gozemos abraços desejados, até que amanheça o dia:

19Porque meu marido não está em sua casa, foi fazer uma jornada muito dilatada:

20Levou consigo um saco de dinheiro: Lá para o dia da lua cheia é que há de voltar à sua casa.

21Meteu-o assim na rêde com os seus longos discursos, e o arrastou com as lisonjas dos seus lábios.

22Segue-a logo como boi que é levado ao sacrifício, e como cordeiro que vai saltando, e ignora o néscio que é arrastado para uma prisão.

23Até que uma seta lhe traspassa o fígado: Como ave que apressada corre ao laço, e não sabe que se trata do perigo da sua vida.

24Ouve-me pois agora, meu filho, e está atento às palavras da minha bôca:

25Não se deixe arrastar o teu espírito a ir pelos caminhos desta mulher: Nem tu te deixes enganar das suas veredas:

26Porque a muitos derribou feridos, e os mais fortes por ela foram mortos.[3]E OS MAIS FORTESComo foram, por exemplo, Sansão, Davi, e o mesmo Salomão.

27Caminhos do inferno são a sua casa, que penetram até às entranhas da morte.

Nome do livro. — Os hebreus, denominando os livros pela palavra inicial, conheciam êste pela designação de Mischlé, têrmo derivado de maschal, que significa semelhança, comparação, e por extensão máxima, e também, embora mais raras vêzes, provérbio, também alegoria ou parábola, e ainda cânto irónico. Os primeiros cristãos adotaram a denominação dos Setenta, a que corresponde o latim Proverbia. Autor. — Segundo o que se deduz da análise do próprio livro, o autor é Salomão. Prov 1, 1; 10, 1; 25, 1 e ainda o 3 Rs 4, 32, Locutus est quoque Salomon tria millia parabolas (maschal). A origem salomônica de todos os provérbios é confirmada pela uniformidade do estilo e por nada se encontrar que não convenha a Salomão. É certo que acêrca dos capítulos 30 e 31 pode haver dúvida, pois são uns apêndices que têm respectivamente os nomes de Agur, filho de Jaqué e Lamuel, não faltando porém intérpretes que entendem que êstes mesmos nomes se referem a Salomão. Texto original e versões antigas. — O texto original e as mais antigas versões divergem em certos pontos. Os próprios exemplares hebraicos antigos não são rigorosamente uniformes; nuns faltam e em outros sobejam máximas, que aliás se compreende sem dificuldade, visto a forma como eram feitas as cópias. A mais antiga versão é a dos Setenta, que é mais livre do que literal, o que explica também certas variantes. Data do livro dos Provérbios. — A questão da data do livro na sua forma atual é diferente da do autor. A inscrição da segunda coleção dos Provérbios, 25, 1, prova que esta parte foi compilada no tempo de Ezequias, entre 725 e 696 antes de Cristo. Divisão geral. — O livro dos Provérbios compreende: Introdução (1, 1-6); Primeira parte (1, 7 ao c. 9); Segunda parte (10-24); Terceira parte (25-29); Apêndices (30-31).
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