Pe. Figueiredo (1950)

Capítulo 22

Preço da boa reputação. Vantagens do coração puro. Exortação à sabedoria. Não oprimir o pobre. Não transgredir os antigos limites.

1Mais vale o bom nome do que muitas riquezas: A amizade é mais estimável do que a prata e o ouro.[1]A AMIZADEA letra se traduzirá: a boa graça, isto é, a boa aceitação, o ser aceito e agradável a Deus e aos homens, como explica Menochio.

2O rico e o pobre se encontraram: Dum e doutro é criador o Senhor.[2]O RICOOu o sentido é, que os ricos e os pobres, em razão de criaturas destinadas para o mesmo fim, são iguais diante de Deus, que só atende à sua virtude e ao amor com que o servem, ou que todos dependem mutuamente uns dos outros, o rico do préstimo do pobre e o pobre do socorro e amparo do rico. –Pereira.

3O homem sagaz viu o mal, e furtou-se a êle: O imprudente passou adiante, e recebeu o dano.

4O fim da modéstia é o temor do Senhor, as riquezas, e a glória, e a vida.[3]O FIM DA MODÉSTIAIsto é, o fruto, ou perfeição do justo comedimento e da humildade interior do espírito. –Pereira.

5As armas e as espadas acham-se no caminho do perverso: Aquêle porém que guarda a sua alma, retira-se longe delas.

6É provérbio: O homem segundo o caminho que tomou sendo mancebo, dêle se não apartará, ainda quando fôr velho.[4]É PROVÉRBIOComo nem no hebreu, nem nos Setenta, nem no caldeu se lêem estas palavras: É provável, adverte Calmet, que S. Jerônimo entende devê-las acrescentar aqui; para que os leitores tomassem melhor o pêso a esta máxima importantíssima da educação.

7O rico manda aos pobres. E o que toma emprestado, servo é do que lhe empresta.

8Aquêle que semeia a iniqüidade, segará males e será ferido pela vara da sua ira.[5]E SERÁ FERIDOOu à letra: “e será acabado”, isto é, consumido, perdido, arruinado. –Pereira.

9Aquêle que é propenso a fazer misericórdia, será abençoado porque deu dos seus pães ao pobre. Aquêle que faz presentes alcançará vitória e honra: Mas êle rouba a alma dos que os recebem.[6]AQUÊLE QUE FAZ PRESENTESÊste versículo não se acha no hebreu, nem em S. Jerônimo, e falta também em várias edições latinas; mas trazem-no os Setenta. –Calmet.

10Lança fora o mofador, e com êle se irá a disputa, e cessarão as querelas e as contumélias.

11Aquêle que ama a candura do coração, terá por amigo ao rei por causa da sincera graça dos seus lábios.

12Os olhos do Senhor guardam a ciência: Mas as palavras do iníquo são postas por terra.

13O preguiçoso diz: O leão está lá fora, serei morto no meio das ruas.

14A bôca da mulher alheia é uma cova profunda: Aquêle contra quem o Senhor está irado, cairá nela.

15A loucura está atada ao coração do menino, e a vara da disciplina a afugentará.

16Aquêle que calunia ao pobre para acrescentar as suas riquezas, êle mesmo dará a outro mais rico, e virá a ser necessitado.

17Inclina o teu ouvido, e ouve as palavras da sabedoria: E aplica o teu coração à minha doutrina:

18A qual terás tu por formosa, quando a guardares dentro do teu ventre e êle trasbordará nos teus lábios:

19Para que ponhas no Senhor a tua confiança, por cuja causa também eu ta mostrarei hoje.

20Eis-aqui estou eu mesmo que ta descrevi em três maneiras, com pensamentos e com ciência:

21Para te mostrar a firmeza, e as expressões da verdade, a fim de responderes com estas coisas àqueles que te enviaram.

22Não faças violência ao pobre, porque é pobre, nem oprimas em juízo ao que não tem nada:[7]NEM OPRIMAS EM JUÍZOAinda que o texto latino diz: neque conteras egenum in porta, todos expõem aquêle in porta pelo juízo; porque é notório por outros muitos lugares da Escritura, e ainda dos Provérbios, que os tribunais, em que se julgavam as causas, eram antigamente às portas da cidade. E assim leremos no capítulo 31, verso 23: Nobilis in portis vir ejus: o que todos traduzem justamente assim: “Seu marido será ilustre nas assembléias dos juízes”. –Pereira.

23Porque o Senhor há de julgar a sua causa, e há de traspassar aos que traspassaram a sua alma.

24Não queiras ser amigo do homem iracundo, nem andes com o homem furioso:

25Por não suceder que aprendas as suas veredas, e dês à tua alma algum motivo de cair.

26Não te ires com aquêles que se obrigam apertando as mãos, e que se oferecem por fiadores para responderem pelas dívidas de outrem:

27Porque se tu não tens com que pagar, que razão há para que alguém te tire a coberta da tua cama?[8]QUE RAZÃO HÁPor que motivo te metes no apêrto de que, pedindo-te o credor o dinheiro, te vejas obrigado, por lhe não poderes satisfazer, a consentir que te faça apreensão no mesmo cobertor da tua cama? –Menochio.

28Não passes além dos antigos limites, que puseram teus pais.[9]NÃO PASSESProíbe-se aqui o apropriar-se qualquer de alguma parte da herdade ou campo alheio, com a mudança dos marcos, o que é contra a lei do Dt 19, 14, ou também o querer inovar máximas diferentes daquelas que se bebem no Depósito da Fé, e na constante tradição, ditame que impugna o preceito do Apóstolo a Timóteo na Epístola, 1, c. 6, v. 20. –Pereira.

29Viste a um homem, que faz as suas obras com velocidade? Êste terá cabimento com os reis, e não ficará no andar da plebe.[10]QUE FAZ AS SUAS OBRAS COM VELOCIDADE?À letra se traduzirá: “Viste um homem veloz (isto é, pontual, ativo, pronto) na sua obra? Diante dos reis se levantará firme e não estará diante dos de baixa estofa. –Pereira.

Nome do livro. — Os hebreus, denominando os livros pela palavra inicial, conheciam êste pela designação de Mischlé, têrmo derivado de maschal, que significa semelhança, comparação, e por extensão máxima, e também, embora mais raras vêzes, provérbio, também alegoria ou parábola, e ainda cânto irónico. Os primeiros cristãos adotaram a denominação dos Setenta, a que corresponde o latim Proverbia. Autor. — Segundo o que se deduz da análise do próprio livro, o autor é Salomão. Prov 1, 1; 10, 1; 25, 1 e ainda o 3 Rs 4, 32, Locutus est quoque Salomon tria millia parabolas (maschal). A origem salomônica de todos os provérbios é confirmada pela uniformidade do estilo e por nada se encontrar que não convenha a Salomão. É certo que acêrca dos capítulos 30 e 31 pode haver dúvida, pois são uns apêndices que têm respectivamente os nomes de Agur, filho de Jaqué e Lamuel, não faltando porém intérpretes que entendem que êstes mesmos nomes se referem a Salomão. Texto original e versões antigas. — O texto original e as mais antigas versões divergem em certos pontos. Os próprios exemplares hebraicos antigos não são rigorosamente uniformes; nuns faltam e em outros sobejam máximas, que aliás se compreende sem dificuldade, visto a forma como eram feitas as cópias. A mais antiga versão é a dos Setenta, que é mais livre do que literal, o que explica também certas variantes. Data do livro dos Provérbios. — A questão da data do livro na sua forma atual é diferente da do autor. A inscrição da segunda coleção dos Provérbios, 25, 1, prova que esta parte foi compilada no tempo de Ezequias, entre 725 e 696 antes de Cristo. Divisão geral. — O livro dos Provérbios compreende: Introdução (1, 1-6); Primeira parte (1, 7 ao c. 9); Segunda parte (10-24); Terceira parte (25-29); Apêndices (30-31).
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