Capítulo 22
1Mais vale o bom nome do que muitas riquezas: A amizade é mais estimável do que a prata e o ouro.[1]A AMIZADE — A letra se traduzirá: a boa graça, isto é, a boa aceitação, o ser aceito e agradável a Deus e aos homens, como explica Menochio.
2O rico e o pobre se encontraram: Dum e doutro é criador o Senhor.[2]O RICO — Ou o sentido é, que os ricos e os pobres, em razão de criaturas destinadas para o mesmo fim, são iguais diante de Deus, que só atende à sua virtude e ao amor com que o servem, ou que todos dependem mutuamente uns dos outros, o rico do préstimo do pobre e o pobre do socorro e amparo do rico. –Pereira.
3O homem sagaz viu o mal, e furtou-se a êle: O imprudente passou adiante, e recebeu o dano.
4O fim da modéstia é o temor do Senhor, as riquezas, e a glória, e a vida.[3]O FIM DA MODÉSTIA — Isto é, o fruto, ou perfeição do justo comedimento e da humildade interior do espírito. –Pereira.
5As armas e as espadas acham-se no caminho do perverso: Aquêle porém que guarda a sua alma, retira-se longe delas.
6É provérbio: O homem segundo o caminho que tomou sendo mancebo, dêle se não apartará, ainda quando fôr velho.[4]É PROVÉRBIO — Como nem no hebreu, nem nos Setenta, nem no caldeu se lêem estas palavras: É provável, adverte Calmet, que S. Jerônimo entende devê-las acrescentar aqui; para que os leitores tomassem melhor o pêso a esta máxima importantíssima da educação.
7O rico manda aos pobres. E o que toma emprestado, servo é do que lhe empresta.
8Aquêle que semeia a iniqüidade, segará males e será ferido pela vara da sua ira.[5]E SERÁ FERIDO — Ou à letra: “e será acabado”, isto é, consumido, perdido, arruinado. –Pereira.
9Aquêle que é propenso a fazer misericórdia, será abençoado porque deu dos seus pães ao pobre. Aquêle que faz presentes alcançará vitória e honra: Mas êle rouba a alma dos que os recebem.[6]AQUÊLE QUE FAZ PRESENTES — Êste versículo não se acha no hebreu, nem em S. Jerônimo, e falta também em várias edições latinas; mas trazem-no os Setenta. –Calmet.
10Lança fora o mofador, e com êle se irá a disputa, e cessarão as querelas e as contumélias.
11Aquêle que ama a candura do coração, terá por amigo ao rei por causa da sincera graça dos seus lábios.
12Os olhos do Senhor guardam a ciência: Mas as palavras do iníquo são postas por terra.
13O preguiçoso diz: O leão está lá fora, serei morto no meio das ruas.
14A bôca da mulher alheia é uma cova profunda: Aquêle contra quem o Senhor está irado, cairá nela.
15A loucura está atada ao coração do menino, e a vara da disciplina a afugentará.
16Aquêle que calunia ao pobre para acrescentar as suas riquezas, êle mesmo dará a outro mais rico, e virá a ser necessitado.
17Inclina o teu ouvido, e ouve as palavras da sabedoria: E aplica o teu coração à minha doutrina:
18A qual terás tu por formosa, quando a guardares dentro do teu ventre e êle trasbordará nos teus lábios:
19Para que ponhas no Senhor a tua confiança, por cuja causa também eu ta mostrarei hoje.
20Eis-aqui estou eu mesmo que ta descrevi em três maneiras, com pensamentos e com ciência:
21Para te mostrar a firmeza, e as expressões da verdade, a fim de responderes com estas coisas àqueles que te enviaram.
22Não faças violência ao pobre, porque é pobre, nem oprimas em juízo ao que não tem nada:[7]NEM OPRIMAS EM JUÍZO — Ainda que o texto latino diz: neque conteras egenum in porta, todos expõem aquêle in porta pelo juízo; porque é notório por outros muitos lugares da Escritura, e ainda dos Provérbios, que os tribunais, em que se julgavam as causas, eram antigamente às portas da cidade. E assim leremos no capítulo 31, verso 23: Nobilis in portis vir ejus: o que todos traduzem justamente assim: “Seu marido será ilustre nas assembléias dos juízes”. –Pereira.
23Porque o Senhor há de julgar a sua causa, e há de traspassar aos que traspassaram a sua alma.
24Não queiras ser amigo do homem iracundo, nem andes com o homem furioso:
25Por não suceder que aprendas as suas veredas, e dês à tua alma algum motivo de cair.
26Não te ires com aquêles que se obrigam apertando as mãos, e que se oferecem por fiadores para responderem pelas dívidas de outrem:
27Porque se tu não tens com que pagar, que razão há para que alguém te tire a coberta da tua cama?[8]QUE RAZÃO HÁ — Por que motivo te metes no apêrto de que, pedindo-te o credor o dinheiro, te vejas obrigado, por lhe não poderes satisfazer, a consentir que te faça apreensão no mesmo cobertor da tua cama? –Menochio.
28Não passes além dos antigos limites, que puseram teus pais.[9]NÃO PASSES — Proíbe-se aqui o apropriar-se qualquer de alguma parte da herdade ou campo alheio, com a mudança dos marcos, o que é contra a lei do Dt 19, 14, ou também o querer inovar máximas diferentes daquelas que se bebem no Depósito da Fé, e na constante tradição, ditame que impugna o preceito do Apóstolo a Timóteo na Epístola, 1, c. 6, v. 20. –Pereira.
29Viste a um homem, que faz as suas obras com velocidade? Êste terá cabimento com os reis, e não ficará no andar da plebe.[10]QUE FAZ AS SUAS OBRAS COM VELOCIDADE? — À letra se traduzirá: “Viste um homem veloz (isto é, pontual, ativo, pronto) na sua obra? Diante dos reis se levantará firme e não estará diante dos de baixa estofa. –Pereira.