Pe. Figueiredo (1950)

Capítulo 21

O coração do rei na mão de Deus. A preguiça, origem de misérias. Infelicidade daqueles que têm o coração duro para os pobres. Vantagens da justiça, e da sabedoria. Saúde é um dom do Senhor.

1Assim como se fazem os repartimentos das águas, assim o coração do rei se acha na mão do Senhor: Êle o inclinará para qualquer parte que quiser.[1]ASSIM COMOPela comparação dos cultivadores de jardins e hortas, que repartindo a água pelos regueiros, a encaminham aonde querem, mostra o sábio que também Deus inclina o coração dos reis aonde muito lhe apraz, e tem decretado, sem que para isso lhes imprima violência alguma no seu alvedrio. –Pereira.

2Todo o caminho do homem lhe parece a êle direito: Mas o Senhor pesa os corações.

3Fazer misericórdia e justiça é mais agradável ao Senhor do que as vítimas.

4A soberba do coração faz altivos os olhos: A candeia dos ímpios é o pecado.

5Os pensamentos do homem robusto produzem sempre abundância: Mas todo o preguiçoso está sempre em pobreza.

6Aquêle que ajunta tesouros com uma língua de mentira, é vão e sem juízo, e dará consigo nos laços da morte.

7As rapinas dos ímpios levá-los-ão à sua ruína, porque não quiseram obrar segundo a justiça.

8O caminho perverso do homem é um caminho estranho: Mas quando o homem é puro, são retas as suas obras.

9Melhor é estar assentado no terraço, do que habitar com uma mulher litigiosa, e numa casa comum.[2]TERRAÇONa Palestina e no Egito as casas em lugar de telhados tinham terraços. É pois o sentido: que mais vale tranqüilamente viver sujeito às injúrias e inclemências do ar, do que abrigado numa casa, tendo de portas a dentro uma mulher litigiosa.

10A alma do ímpio deseja o mal, não se compadecerá do seu próximo.

11Quando o homem pestilento fôr castigado, o simples ficará daí mais sábio: E se êle aderir ao homem sábio, adquirirá a ciência.

12O justo considera com aplicação a casa do ímpio, para retrair os ímpios do mal.

13Aquêle que tapa os seus ouvidos ao clamor do pobre, êsse mesmo também clamará, e não será ouvido.

14O presente secreto extingue as iras: E a dádiva que se mete no seio de outrem, a maior indignação.

15O justo acha a sua alegria na prática da justiça: Mas os que cometem a iniqüidade estão em pavor.

16O homem, que se extraviar do caminho da doutrina, terá por morada a assembléia dos gigantes.

17Aquêle que ama os banquetes, viverá na indigência: O que ama o vinho, e a mesa esplêndida, não enriquecerá.

18O ímpio é entregue em lugar do justo. E o iníquo em lugar dos retos.

19Melhor é habitar numa terra erma, do que com uma mulher rixosa e iracunda.

20Na casa do justo há um tesouro apetecível, e há azeite: Mas o homem imprudente dissipará tudo.

21Aquêle que exercita a justiça e a misericórdia, achará vida, justiça e glória.

22O sábio fêz-se senhor da cidade dos valentes e destruiu a fôrça em que ela confiava.[3]O SÁBIOEnsina o Sábio que à fortaleza do corpo leva grande excesso a sabedoria; porque várias vêzes sucede serem muitas cidades bem guarnecidas tomadas por estratagema e ardil, as quais não poderia a fôrça reduzir ao poder do conquistador, que lhe dá o assalto. Isto é o que se diz na Sab. 7, 2. “Melhor é a sabedoria do que as fôrças, e o homem prudente do que o forte”. –Menochio.

23Aquêle que guarda a sua bôca, e a sua língua, guarda a sua alma de grandes apertos.

24O soberbo, e o presumido é chamado ignorante, porque, estando irado, faz ações insolentes.

25Os desejos matam ao preguiçoso: Porque as suas mãos não quiseram fazer nada.

26Êle passa todo o dia a cobiçar, e a desejar: Mas o que é justo, dará e não cessará.

27As vítimas dos ímpios são abomináveis, porque o que oferecem é dos seus crimes.

28A testemunha mentirosa perecerá: O homem obediente cantará a vitória.[4]O HOMEM OBEDIENTEO que obedece a Deus, à lei, à razão, aos superiores, alcançará vitória de seus adversários, de Satanaz e de si mesmo. Assim se costuma explicar êste lugar. Até aqui são palavras de Calmet, conservando o sentido que oferece a Vulgata. Porém o hebreu lê: “O varão que ouve”, isto é, o que relata, e depõe o que viu e ouviu, “falará vitoriosamente”, fará triunfar a verdade, falando sempre pela mesma bôca e ostentando-se em todo o tempo e lugar como uma fiel e verídica testemunha.

29O homem ímpio mostra no seu rosto uma segurança desavergonhada: Mas o que é reto, emenda o seu caminho.[5]MOSTRA NO SEU ROSTOO ímpio cerra-se, teima e obstinado se confirma no seu mau propósito, e não duvidando mofar descaradamente das saudáveis advertências que lhe fazem, até defende o mal que fêz, querendo sempre achar escapula a seus vícios. –Pereira.

30Não há sabedoria, não há prudência, não há conselho contra o Senhor.

31O cavalo prepara-se para o dia da batalha: Mas o Senhor é o que dá a vitória.[6]O CAVALODebalde se fazem os aparatos da guerra; debalde se juntam as carroças e a cavalaria; porque não é o soldado, o que dá a vitória, mas só Deus (Sl 32, 17). Entre os hebreus e os povos orientais não se fazia uso de cavalos, senão para a guerra. O boi era destinado para a cultura dos campos e para levar os carros ordinários; o jumento e o camelo para as cargas, para os fardos, para a jornada; o cavalo só para a guerra se reserva. –Calmet.

Nome do livro. — Os hebreus, denominando os livros pela palavra inicial, conheciam êste pela designação de Mischlé, têrmo derivado de maschal, que significa semelhança, comparação, e por extensão máxima, e também, embora mais raras vêzes, provérbio, também alegoria ou parábola, e ainda cânto irónico. Os primeiros cristãos adotaram a denominação dos Setenta, a que corresponde o latim Proverbia. Autor. — Segundo o que se deduz da análise do próprio livro, o autor é Salomão. Prov 1, 1; 10, 1; 25, 1 e ainda o 3 Rs 4, 32, Locutus est quoque Salomon tria millia parabolas (maschal). A origem salomônica de todos os provérbios é confirmada pela uniformidade do estilo e por nada se encontrar que não convenha a Salomão. É certo que acêrca dos capítulos 30 e 31 pode haver dúvida, pois são uns apêndices que têm respectivamente os nomes de Agur, filho de Jaqué e Lamuel, não faltando porém intérpretes que entendem que êstes mesmos nomes se referem a Salomão. Texto original e versões antigas. — O texto original e as mais antigas versões divergem em certos pontos. Os próprios exemplares hebraicos antigos não são rigorosamente uniformes; nuns faltam e em outros sobejam máximas, que aliás se compreende sem dificuldade, visto a forma como eram feitas as cópias. A mais antiga versão é a dos Setenta, que é mais livre do que literal, o que explica também certas variantes. Data do livro dos Provérbios. — A questão da data do livro na sua forma atual é diferente da do autor. A inscrição da segunda coleção dos Provérbios, 25, 1, prova que esta parte foi compilada no tempo de Ezequias, entre 725 e 696 antes de Cristo. Divisão geral. — O livro dos Provérbios compreende: Introdução (1, 1-6); Primeira parte (1, 7 ao c. 9); Segunda parte (10-24); Terceira parte (25-29); Apêndices (30-31).
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