Capítulo 28
1O ímpio foge, sem que ninguém o persiga: O justo porém, como leão afoito, estará sem terror.[1]SEM QUE NINGUÉM O PERSIGA — Porque o maior perseguidor e algoz do ímpio são os remorsos da sua própria consciência. Confiram-se os exemplos de Adão. Gên 3, 8, de Caim, Ibid 4, 14; as ameaças de Deus ao povo de Israel, que se acham no Lev 26, 36, e finalmente, o contínuo sobressalto e pavor do ímpio, cuja descrição se lê no livro de Jó 15, 21. —Pereira.
2Por causa dos pecados da terra são muitos os príncipes dela: E por causa da sabedoria do homem, e pela ciência das coisas que se dizem, será mais dilatada a vida do príncipe.[2]SÃO MUITOS OS PRÍNCIPES DELA — Morrem depressa e sucedem uns aos outros, de onde costumam nascer discórdias e sedições na república. —Menochio. — E POR CAUSA DA SABEDORIA DO HOMEM: Por causa da sabedoria do príncipe reinante e dos conselheiros que tem a seu lado. —Menochio. — E PELA CIÊNCIA DAS COISAS QUE SE DIZEM: Por causa da oportunidade dos conselhos que se dão para o bom regímen da república, por meio dos quais se põe freio aos pecados do povo. —Menochio.
3O homem pobre, que calunia aos outros pobres, é semelhante a uma chuva impetuosa na qual se aparelha a fome.[3]QUE CALUNIA AOS OUTROS POBRES — Ou o sentido é: Que o povo, quando com guerras civis ou desavenças particulares se enfurece contra os seus conterrâneos e semelhantes, costuma dilacerar a república; ou, que todo aquêle que, sendo antes pobre, é promovido a algum cargo de grande autoridade e dependência, levado as mais das vêzes do desejo insaciável de enriquecer, vem a perder o estado e os pobres dêle com as suas extorsões. —Pereira.
4Aquêles que deixam a lei, louvam o ímpio: Os que a guardam irritam-se contra êle.
5Os homens maus não cuidam no que é justo: Mas os que buscam o Senhor advertem em tudo.
6Melhor é o pobre que anda na sua simplicidade, do que o rico que anda por caminhos perversos.
7Aquêle que guarda a lei, é filho sábio: Mas o que sustenta comilões, confunde a seu pai.[4]CONFUNDE A SEU PAI — Ou porque o faz envergonhar e entristecer, ou porque mostra que se descuidou em lhe sugerir as máximas de uma boa educação. —Pereira.
8Aquêle que amontoa riquezas por meio de usuras, e interêsses injustos, ajunta-as para o que há de ser liberal com os pobres.[5]AJUNTA-AS — É por certo coisa mui rara, que os bens mal adquiridos cheguem aos herdeiros ou filhos do usurário. Veja-se acima o capítulo 13, 22, o lugar do Ecl 2, 26, e o de Jó 27, 16-17. —Calmet.
9Daquele que desvia os seus ouvidos para não ouvir a lei, a mesma oração será execrável.[6]A MESMA ORAÇÃO SERÁ EXECRÁVEL — Como êle não quer abrir nem aplicar os ouvidos à lei de Deus, assim Deus, castigando-o com a exatíssima igualdade da justiça, não o atende também nas orações. —Pereira.
10Aquêle que seduz os justos, levando-os a um mau caminho, cairá no fôsso que êle mesmo abriu: E os símplices possuirão os seus bens.[7]LEVANDO-OS A UM MAU CAMINHO — À letra: "No mau caminho ficará na sua morte derrubado", isto é, achará na morte a sua última ruína. Por onde na tradução das palavras in interitu suo corruet, me encostei ao texto hebreu. —Pereira.
11O homem rico parece-lhe que é sábio: Mas o pobre que é prudente sondá-lo-á.[8]SONDÁ-LO-Á — Explorará, se assim é. O caldeu: desprezá-lo-á. Os Setenta: censurá-lo-á. O pobre prudente, se debater ou disputar com o rico, examinará, calculará a sua sabedoria e fará ver que é pouca ou nenhuma. —Menochio.
12Na exaltação dos justos há muita glória: Reinando os ímpios, acontecem as ruínas dos homens.[9]NA EXALTAÇÃO DOS JUSTOS — Quando os justos sobem ao auge da sua prosperidade, resulta daí grande proveito e glória à república; mas se os ímpios tomam as rédeas do govêrno, todas as pessoas, principalmente as de merecimento e de bem, fogem da sua tirania, vindo assim a ficar perdido e exposto à última decadência o estado. —Pereira.
13Aquêle que esconde as suas maldades não será bem sucedido: Aquêle, porém, que as confessar, e se retirar delas, alcançará misericórdia.[10]AQUÊLE, PORÉM, QUE AS CONFESSAR — Assim como aquêle que, depois de ser justamente repreendido, quer ainda escusar a culpa, e até encobrir o mal que cometeu, mostra que é incorrigível, por conseqüência incapaz de melhoramento; do mesmo modo o que reconhecer e confessar os seus erros e se emendar dêles, alcançará dos homens indulgência, e de Deus perdão e misericórdia. Ora tanto do lugar do Eclesiástico, em o capítulo 4, versículo 31, como do presente dos Provérbios, colhem comumente os escritores documentos importantíssimos ainda para a Confissão Sacramental. Dêste dos Provérbios, coligem duas condições que êle deve ter essenciais: uma é a manifestação humilde e sincera dos pecados, a outra o resoluto e firme propósito de nunca mais tornar a cometer. Daquele do Eclesiástico provam a grande circunspecção que deve haver na escolha dos diretores e confessores. Filosofia da Confissão Sacramental, Dr. Lino, Coimbra, 1875.
14Bem-aventurado o homem que sempre está com temor: Mas o que é de coração duro, cairá no mal.[11]COM TEMOR — Com temor e desconfiança de ofender a Deus de algum pensamento, palavra ou ação. Confira-se o livro de Jó 9, 28.
15Um príncipe ímpio sôbre um povo pobre é um leão que ruge, e um urso que tem fome.
16Um príncipe falto de prudência oprimirá a muitos pelas suas calúnias: Mas os dias do que aborrece a avareza, serão prolongados.
17Se o homem que por calúnia derrama o sangue de qualquer pessoa, fugir até se arremessar no fôsso, ninguém o sustém.[12]NINGUÉM O SUSTÉM — Ninguém se compadecerá dêle, ninguém deterá ou demoverá o seu ímpeto ou a sua carreira. —Menochio.
18Aquêle que anda em simplicidade, será salvo: O que anda por caminhos perversos, cairá por uma vez.[13]CAIRÁ POR UMA VEZ — Cairá sem esperança alguma de se tornar a levantar, ou cairá enfim nalguma ocasião. —Calmet.
19Aquêle que lavra a sua terra, terá fartura de pão: Mas o que ama a ociosidade, estará cheio de indigência.
20O homem fiel será muito louvado: Mas o que dá pressa a se enriquecer, não será inocente.[14]NÃO SERÁ INOCENTE — A razão é porque, segundo o Apóstolo na 1 Ep a Tim 6, 9, "os que querem fazer-se ricos caem na tentação e no laço do diabo, e em muitos desejos inúteis e perniciosos, que precipitam os homens no abismo da morte e da perdição." —Pereira.
21Aquêle que quando julga guarda respeito à pessoa, não faz bem: Um tal homem até desampara a verdade por um bocado de pão.
22O homem que se apressa por enriquecer, e tem inveja aos outros, não sabe que há-de vir sôbre êle a pobreza.[15]NÃO SABE QUE HÁ-DE VIR SÔBRE ÊLE A POBREZA — Com a morte que não tarda e que o despoja de todos os bens da vida. —Pereira.
23Aquêle que repreende a um homem, achará depois graça para com êle, muito mais do que aquêle outro que o engana com as lisonjas da sua língua.
24Aquêle que tira alguma coisa a seu pai, e a sua mãe, e diz que isto não é pecado, tem parte no crime dos homicidas.
25Aquêle que se jacta, e que se incha de soberba, excita contendas: Mas o que espera no Senhor, será curado.
26Aquêle que confia no seu coração é um insensato: Mas o que anda sàbiamente, será com efeito salvo.
27Aquêle que dá ao pobre, não terá necessidade: Aquêle que o despreza quando lhe pede, cairá em penúria.
28Quando os ímpios fôrem elevados, esconder-se-ão os homens: Quando êles perecerem, multiplicar-se-ão os justos.