Pe. Figueiredo (1950)

Capítulo 5

Exortação à castidade. Entregar-se à sua espôsa. Consequências funestas do adultério.

1Meu filho, atende à minha sabedoria, e inclina o teu ouvido para a minha prudência,

2a fim de vigiares sôbre a guarda dos teus pensamentos, e para que os teus lábios conservem a disciplina. Não te iludas com os artifícios da mulher.

3Porque os lábios da prostituta são como o favo que distila o mel, e a sua garganta é mais lustrosa do que o óleo:[1]MELÉ muito comum na Palestina, e tanto que se lhe chama a terra onde corre o mel. Êx 3, 8, e por isso é frequentíssima esta metáfora.

4Mas o seu fim é amargoso como o absinto, e talhante como a espada de dois gumes.[2]ABSINTOA doçura do mel do v. 3 contrapõe o autor a amargura do absinto, comum na Palestina e principalmente aos arredores de Belém. Os orientais fazem grande uso desta planta não obstante a sua proverbial amargura.

5Os seus pés descem à morte, e os seus passos penetram até aos infernos.

6Êles não andam pela vereda da vida, os seus passos são vagabundos, e ininvestigáveis.

7Agora pois, meu filho, ouve-me, e não te apartes das palavras da minha bôca.

8Alonga dela o teu caminho, e não chegues às portas de sua casa.

9Não dês a tua honra às alheias, nem os teus anos à cruel:

10Para que não suceda que os estranhos enriqueçam dos teus bens e que os teus trabalhos estejam na casa de outrem,[3]E QUE OS TEUS TRABALHOSIsto é, a fazenda e cabedais, que tens adquirido com a tua indústria e trabalho.

11e que tu gemas no fim, quando tiveres consumido as tuas carnes e o teu corpo e digas:

12Por que detestei eu a disciplina, e por que não cedeu às repreensões o meu coração,

13nem ouvi a voz dos que me ensinavam, nem apliquei aos mestres o meu ouvido?

14Quase que em todo o mal me achei, no meio da Igreja e da Sinagoga.[4]QUASE QUE EM TODO O MAL ME ACHEIEstas palavras argúem o despejo, e a devassidão dos costumes de muitos, que pouco falta para se entregarem públicamente ao excesso das suas criminosas paixões. Também, como querem alguns, podem ser palavras de um pecador que cai na conta do mal passado, e se converte a Deus de todo o coração. Porém comumente se entendem da falsa penitência dos que parece que detestam as culpas, mas eficazmente não tratam de se emendar delas. — Pereira.

15Bebe da água da tua cisterna, e das correntes do teu poço:[5]BEBE DA ÁGUA DA TUA CISTERNACom esta elegante, e decentíssima metáfora, quer dar a entender Salomão, que o homem se contente com a sua legítima mulher. — Bossuet.

16Corram fora os regatos da tua fonte, e reparte as tuas águas nas ruas.[6]CORRAM FORA OS REGATOS DA TUA FONTEIsto é, sejam muitos os filhos que tenhas dela. — Bossuet.

17Possui-as tu só, e não tenham parte nelas os estranhos.

18A tua fonte seja bendita, e vive alegre com a mulher que tomaste na tua adolescência:

19Ela seja para ti a corça que muito amas, e o teu engraçadíssimo veadinho: Os seus peitos te embebedem em todo o tempo, no seu amor busca sempre o teu prazer.[7]A CORÇAEm todo o Oriente, a corça, por causa da sua timidez, da ternura do seu olhar e da elegância das suas formas, é o símbolo da beleza. — Mgr. Mislin. NO SEU AMOR BUSCA SEMPRE O TEU PRAZER — Não cometendo adultério com outras, e observando, não como conselho mas como preceito, a máxima do Apóstolo 1 ad Cor 7, 29. 30. 31.

20Por que te deixas, meu filho, enganar da alheia, e repousas no seio duma outra?

21O Senhor olha atentamente para os caminhos do homem, e considera todos os seus passos.

22As suas mesmas iniquidades prendem ao ímpio, e é apertado com as ataduras dos seus pecados.

23Êle morrerá, porque não admitiu a correção, e se achará enganado pelo excesso da sua loucura.

Nome do livro. — Os hebreus, denominando os livros pela palavra inicial, conheciam êste pela designação de Mischlé, têrmo derivado de maschal, que significa semelhança, comparação, e por extensão máxima, e também, embora mais raras vêzes, provérbio, também alegoria ou parábola, e ainda cânto irónico. Os primeiros cristãos adotaram a denominação dos Setenta, a que corresponde o latim Proverbia. Autor. — Segundo o que se deduz da análise do próprio livro, o autor é Salomão. Prov 1, 1; 10, 1; 25, 1 e ainda o 3 Rs 4, 32, Locutus est quoque Salomon tria millia parabolas (maschal). A origem salomônica de todos os provérbios é confirmada pela uniformidade do estilo e por nada se encontrar que não convenha a Salomão. É certo que acêrca dos capítulos 30 e 31 pode haver dúvida, pois são uns apêndices que têm respectivamente os nomes de Agur, filho de Jaqué e Lamuel, não faltando porém intérpretes que entendem que êstes mesmos nomes se referem a Salomão. Texto original e versões antigas. — O texto original e as mais antigas versões divergem em certos pontos. Os próprios exemplares hebraicos antigos não são rigorosamente uniformes; nuns faltam e em outros sobejam máximas, que aliás se compreende sem dificuldade, visto a forma como eram feitas as cópias. A mais antiga versão é a dos Setenta, que é mais livre do que literal, o que explica também certas variantes. Data do livro dos Provérbios. — A questão da data do livro na sua forma atual é diferente da do autor. A inscrição da segunda coleção dos Provérbios, 25, 1, prova que esta parte foi compilada no tempo de Ezequias, entre 725 e 696 antes de Cristo. Divisão geral. — O livro dos Provérbios compreende: Introdução (1, 1-6); Primeira parte (1, 7 ao c. 9); Segunda parte (10-24); Terceira parte (25-29); Apêndices (30-31).
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