Pe. Figueiredo (1950)

Capítulo 8

A sabedoria convidando os homens a que venham a ela, e recebam as suas instruções. Excelência da sabedoria. Ela está em Deus desde tôda a eternidade. As suas delícias são estar com os homens. Felicidade dos que a ouvem. Infelicidade dos que a aborrecem.

1Porventura a sabedoria não está repetidas vêzes clamando, e a prudência não faz ouvir a sua voz?[1]PORVENTURAEste capítulo pode ser considerado como a sequência do antecedente; no anterior descreveu os perigos da sedução; agora os encantos da prudência, que nos tornará sábios e felizes. É uma prosopopéia. A sabedoria fala como uma rainha aos seus vassalos. SABEDORIA — A mor parte dos Padres entendem aqui a sabedoria divina e eterna: Dei cognitio. Lapide, como a segunda pessoa da Santíssima Trindade: Sapientia haec est hypostatica nempe Filius Dei, sive Christus. Lapide, sabedoria portanto referida à divindade e à humanidade do Filho de Deus. — Glaire.

2No mais alto e elevado das eminências, ao longo do caminho, no meio das veredas posta em pé,

3junto às portas da cidade, na mesma entrada, fala, dizendo:

4A vós, ó homens, é que eu estou continuamente clamando, e aos filhos dos homens é que se dirige a minha voz.

5Aprendei, ó pequeninos, a astúcia, e vós, insensatos, prestai-me atenção.

6Ouvi, porque tenho de vos falar acêrca de grandes coisas: E os meus lábios se abrirão para anunciarem o que é reto.

7A minha garganta meditará a verdade, e os meus lábios detestarão ao ímpio.[2]A MINHA GARGANTA MEDITARÁIsto é, a minha língua falará. — Menochio.

8Justos são todos os meus discursos, nêles não há coisa má, nem depravado:[3]JUSTOS SÃO TODOS OS MEUS DISCURSOSNão envolvem erro como os dos sábios do mundo. E tal é o caráter da divina sabedoria. — Pereira.

9Retos são para os inteligentes, e de equidade para os que acham ciência.

10Recebei as minhas instruções com maior gôsto, do que se recebêsseis dinheiro: Escolhei antes a doutrina que o ouro.

11Porque melhor é a sabedoria que tôdas as riquezas de mais subido valor: E tudo quanto é apetecível com ela se não pode comparar.

12Eu, a sabedoria, habito no conselho, e me acho presente aos pensamentos judiciosos.

13O temor do Senhor aborrece o mal: Eu detesto a arrogância, e a soberba, e o caminho corrompido, e a bôca de duas línguas.

14Meu é o conselho, e a equidade, minha é a prudência, minha é a fortaleza.

15Por mim reinam os reis, e por mim decretam os legisladores o que é justo:

16Por mim imperam os príncipes, e os poderosos decretam a justiça.

17Eu amo aos que me amam: E os que vigiam desde a manhã por me buscarem, achar-me-ão.

18Comigo estão as riquezas, e a glória, a magnífica opulência, e a justiça.[4]A MAGNÍFICA OPULÊNCIAO hebreu lê: "E a opulência estável". — Pereira.

19Porque melhor é o meu fruto que o ouro, e que a pedra preciosa, e as minhas produções melhores que a prata escolhida.

20Eu ando nos caminhos da justiça, no meio das veredas do juízo.

21Para enriquecer aos que me amam, e para encher os seus tesouros.[5]OS SEUS TESOUROSVeja-se Is 33, 6. — Pereira.

22O Senhor me possuiu no princípio de seus caminhos, desde o princípio antes que criasse coisa alguma.[6]O SENHOR ME POSSUIUEste versículo é célebre na história da teologia dogmática. Os arianos, sectários do célebre hereje Ário, negaram, como é sabido, a consubstancialidade do Verbo, ou da segunda pessoa da Trindade, que consideravam uma criatura, segundo a doutrina do seu chefe, exposta na famosa carta de Ário a Eusébio. No calor da discussão lembraram-se de citar este texto para demonstrarem a criabilidade do Verbo, deturpando-lhe o sentido claro, porque desta passagem só se pode concluir exatamente o inverso, isto é, que a Sabedoria ou o Verbo é coeterno e consubstancial ao Pai.

23Desde a eternidade fui constituída, e desde o princípio, antes da terra ser criada.[7]FUI CONSTITUÍDALê o hebreu: "Tive o principado". — Pereira.

24Ainda não havia os abismos, e eu estava já concebida: Ainda as fontes das águas não tinham arrebentado:

25Ainda se não tinham assentado os montes sôbre a sua pesada massa: Antes de haver outeiros, era eu dada à luz:

26Ainda êle não tinha feito a terra, nem os rios, nem tinha firmado o mundo sôbre os seus polos.

27Quando êle preparava os céus, eu me achava presente: Quando com lei certa, e dentro do seu âmbito encerrava os abismos:

28Quando firmava lá no alto a região etérea, e quando equilibrava as fontes das águas:

29Quando circunscrevia ao mar o seu têrmo, e punha lei às águas, para que não passassem os seus limites: Quando sustentava pendentes os fundamentos da terra.

30Estava eu com êle regulando tôdas as coisas: E cada dia me deleitava, brincando em todo o tempo diante dêle:

31Brincando na redondeza da terra: E achando as minhas delícias em estar com os filhos dos homens.

32Agora pois, filhos, ouvi-me: Bem-aventurados os que guardam os meus caminhos.

33Ouvi a instrução e sêde sábios, e não queirais rejeitá-la.

34Bem-aventurado o homem que me ouve e que vela todos os dias à entrada da minha casa, e que está feito espia às umbreiras da minha porta.

35Aquêle que me achar, achará a vida, e haverá do Senhor a salvação:

36Aquêle porém que pecar contra mim fará mal à sua alma. Todos os que me aborrecem, amam a morte.

Nome do livro. — Os hebreus, denominando os livros pela palavra inicial, conheciam êste pela designação de Mischlé, têrmo derivado de maschal, que significa semelhança, comparação, e por extensão máxima, e também, embora mais raras vêzes, provérbio, também alegoria ou parábola, e ainda cânto irónico. Os primeiros cristãos adotaram a denominação dos Setenta, a que corresponde o latim Proverbia. Autor. — Segundo o que se deduz da análise do próprio livro, o autor é Salomão. Prov 1, 1; 10, 1; 25, 1 e ainda o 3 Rs 4, 32, Locutus est quoque Salomon tria millia parabolas (maschal). A origem salomônica de todos os provérbios é confirmada pela uniformidade do estilo e por nada se encontrar que não convenha a Salomão. É certo que acêrca dos capítulos 30 e 31 pode haver dúvida, pois são uns apêndices que têm respectivamente os nomes de Agur, filho de Jaqué e Lamuel, não faltando porém intérpretes que entendem que êstes mesmos nomes se referem a Salomão. Texto original e versões antigas. — O texto original e as mais antigas versões divergem em certos pontos. Os próprios exemplares hebraicos antigos não são rigorosamente uniformes; nuns faltam e em outros sobejam máximas, que aliás se compreende sem dificuldade, visto a forma como eram feitas as cópias. A mais antiga versão é a dos Setenta, que é mais livre do que literal, o que explica também certas variantes. Data do livro dos Provérbios. — A questão da data do livro na sua forma atual é diferente da do autor. A inscrição da segunda coleção dos Provérbios, 25, 1, prova que esta parte foi compilada no tempo de Ezequias, entre 725 e 696 antes de Cristo. Divisão geral. — O livro dos Provérbios compreende: Introdução (1, 1-6); Primeira parte (1, 7 ao c. 9); Segunda parte (10-24); Terceira parte (25-29); Apêndices (30-31).
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