Capítulo 8
1Porventura a sabedoria não está repetidas vêzes clamando, e a prudência não faz ouvir a sua voz?[1]PORVENTURA — Este capítulo pode ser considerado como a sequência do antecedente; no anterior descreveu os perigos da sedução; agora os encantos da prudência, que nos tornará sábios e felizes. É uma prosopopéia. A sabedoria fala como uma rainha aos seus vassalos. SABEDORIA — A mor parte dos Padres entendem aqui a sabedoria divina e eterna: Dei cognitio. Lapide, como a segunda pessoa da Santíssima Trindade: Sapientia haec est hypostatica nempe Filius Dei, sive Christus. Lapide, sabedoria portanto referida à divindade e à humanidade do Filho de Deus. — Glaire.
2No mais alto e elevado das eminências, ao longo do caminho, no meio das veredas posta em pé,
3junto às portas da cidade, na mesma entrada, fala, dizendo:
4A vós, ó homens, é que eu estou continuamente clamando, e aos filhos dos homens é que se dirige a minha voz.
5Aprendei, ó pequeninos, a astúcia, e vós, insensatos, prestai-me atenção.
6Ouvi, porque tenho de vos falar acêrca de grandes coisas: E os meus lábios se abrirão para anunciarem o que é reto.
7A minha garganta meditará a verdade, e os meus lábios detestarão ao ímpio.[2]A MINHA GARGANTA MEDITARÁ — Isto é, a minha língua falará. — Menochio.
8Justos são todos os meus discursos, nêles não há coisa má, nem depravado:[3]JUSTOS SÃO TODOS OS MEUS DISCURSOS — Não envolvem erro como os dos sábios do mundo. E tal é o caráter da divina sabedoria. — Pereira.
9Retos são para os inteligentes, e de equidade para os que acham ciência.
10Recebei as minhas instruções com maior gôsto, do que se recebêsseis dinheiro: Escolhei antes a doutrina que o ouro.
11Porque melhor é a sabedoria que tôdas as riquezas de mais subido valor: E tudo quanto é apetecível com ela se não pode comparar.
12Eu, a sabedoria, habito no conselho, e me acho presente aos pensamentos judiciosos.
13O temor do Senhor aborrece o mal: Eu detesto a arrogância, e a soberba, e o caminho corrompido, e a bôca de duas línguas.
14Meu é o conselho, e a equidade, minha é a prudência, minha é a fortaleza.
15Por mim reinam os reis, e por mim decretam os legisladores o que é justo:
16Por mim imperam os príncipes, e os poderosos decretam a justiça.
17Eu amo aos que me amam: E os que vigiam desde a manhã por me buscarem, achar-me-ão.
18Comigo estão as riquezas, e a glória, a magnífica opulência, e a justiça.[4]A MAGNÍFICA OPULÊNCIA — O hebreu lê: "E a opulência estável". — Pereira.
19Porque melhor é o meu fruto que o ouro, e que a pedra preciosa, e as minhas produções melhores que a prata escolhida.
20Eu ando nos caminhos da justiça, no meio das veredas do juízo.
21Para enriquecer aos que me amam, e para encher os seus tesouros.[5]OS SEUS TESOUROS — Veja-se Is 33, 6. — Pereira.
22O Senhor me possuiu no princípio de seus caminhos, desde o princípio antes que criasse coisa alguma.[6]O SENHOR ME POSSUIU — Este versículo é célebre na história da teologia dogmática. Os arianos, sectários do célebre hereje Ário, negaram, como é sabido, a consubstancialidade do Verbo, ou da segunda pessoa da Trindade, que consideravam uma criatura, segundo a doutrina do seu chefe, exposta na famosa carta de Ário a Eusébio. No calor da discussão lembraram-se de citar este texto para demonstrarem a criabilidade do Verbo, deturpando-lhe o sentido claro, porque desta passagem só se pode concluir exatamente o inverso, isto é, que a Sabedoria ou o Verbo é coeterno e consubstancial ao Pai.
23Desde a eternidade fui constituída, e desde o princípio, antes da terra ser criada.[7]FUI CONSTITUÍDA — Lê o hebreu: "Tive o principado". — Pereira.
24Ainda não havia os abismos, e eu estava já concebida: Ainda as fontes das águas não tinham arrebentado:
25Ainda se não tinham assentado os montes sôbre a sua pesada massa: Antes de haver outeiros, era eu dada à luz:
26Ainda êle não tinha feito a terra, nem os rios, nem tinha firmado o mundo sôbre os seus polos.
27Quando êle preparava os céus, eu me achava presente: Quando com lei certa, e dentro do seu âmbito encerrava os abismos:
28Quando firmava lá no alto a região etérea, e quando equilibrava as fontes das águas:
29Quando circunscrevia ao mar o seu têrmo, e punha lei às águas, para que não passassem os seus limites: Quando sustentava pendentes os fundamentos da terra.
30Estava eu com êle regulando tôdas as coisas: E cada dia me deleitava, brincando em todo o tempo diante dêle:
31Brincando na redondeza da terra: E achando as minhas delícias em estar com os filhos dos homens.
32Agora pois, filhos, ouvi-me: Bem-aventurados os que guardam os meus caminhos.
33Ouvi a instrução e sêde sábios, e não queirais rejeitá-la.
34Bem-aventurado o homem que me ouve e que vela todos os dias à entrada da minha casa, e que está feito espia às umbreiras da minha porta.
35Aquêle que me achar, achará a vida, e haverá do Senhor a salvação:
36Aquêle porém que pecar contra mim fará mal à sua alma. Todos os que me aborrecem, amam a morte.