Capítulo 3
1Meu filho, não te esqueças da minha lei, e guarda no teu coração os meus preceitos.
2Porque êles te acrescentarão longura de dias, e anos de vida, e paz.
3Não te desamparem a misericórdia, e a verdade, põe-nas à roda do teu pescoço, e grava-as sôbre as tábuas do teu coração:[1]À RODA DO TEU PESCOÇO — Compare-se esta frase com os lugares do Êx 13, 9; Dt 6, 8.
4E acharás graça, e sábia conduta diante de Deus e dos homens.
5Tem confiança no Senhor de todo o teu coração, e não te estribes na tua prudência.
6Traze-o no pensamento em todos os teus caminhos, e êle mesmo dirigirá os teus passos.
7Não sejas sábio a teus próprios olhos: Teme a Deus, e aparta-te do mal:
8Pois isto será saúde para o teu corpo, e a regadura dos teus ossos.
9Honra ao Senhor com a tua fazenda, e dá-lhe das primícias de todos os teus frutos:
10E se encherão os teus celeiros de fartura, e transbordarão de vinho os teus lagares.
11Não rejeites, meu filho, a correção do Senhor: Nem caias em abatimento, quando por êle és castigado:
12Porque o Senhor castiga aquêle a quem ama: E acha nêle a sua complacência, como um pai em seu filho.
13Bem-aventurado o homem que achou a sabedoria, e que está rico de prudência:
14Melhor é a sua aquisição do que o tráfico da prata, e seus frutos melhores do que o ouro mais fino, e mais depurado:
15Mais preciosa é que tôdas as riquezas: E tudo o mais que se deseja não se pode comparar com ela.
16Na sua direita está a longura de dias, e as riquezas, e a glória na sua esquerda.[2]NA SUA DIREITA — Pela mão direita se dão a entender os bens eternos, pela esquerda os temporais. — Pereira.
17Os seus caminhos são caminhos formosos, e de paz tôdas as suas veredas.
18É árvore da vida para aquêles que lançarem mão dela: E bem-aventurado o que a não largar.[3]É ÁRVORE DA VIDA — O mesmo que era (segundo Santo Agostinho no livro 13 da Cidade de Deus, capítulo 20) no Paraíso terreal a árvore da vida, é no Paraíso espiritual da Igreja a sabedoria de Deus: aquela tornava imortal o corpo do homem, conservando-o na mesma idade; esta livra a sua alma da velhice do pecado, guardando-a para a vida eterna. — Pereira.
19O Senhor fundou a terra pela sabedoria, estabeleceu os céus pela prudência.
20Pela sua sabedoria é que os abismos se romperam, e as nuvens se condensam em orvalho.
21Meu filho, não te escapem estas coisas de diante dos teus olhos: Guarda a lei, e o conselho:
22E terá vida a tua alma, e engraçado adorno a tua garganta:
23Então andarás tu com confiança pelo teu caminho, e o teu pé não tropeçará:
24Se dormires, não temerás: Descansarás, e o teu sono será tranquilo:
25Não te assustes do repentino pavor, nem das poderosas arremetidas, com que os ímpios te acometam.
26Porque o Senhor estará ao teu lado, e êle guardará o teu pé para não seres apanhado no laço:
27Não impidas que faça bem aquêle que pode: Se podes, faze-o tu mesmo também.
28Não digas ao teu amigo: Vai, e torna: Amanhã te darei: Quando tu lhe podes dar logo.
29Não traces fazer mal ao teu amigo, tendo êle confiança em ti.
30Não façais processo contra qualquer homem sem motivo, quando êle te não fêz mal nenhum.
31Não invejes o homem injusto nem imites os seus caminhos:
32Porque abominação do Senhor é todo o enganador, e a sua conversação é com os símplices.[4]O ENGANADOR — A palavra illusor da Vulgata se deve tomar no sentido de perverso, como traz o hebreu; ou "transgressor da lei", como se lê nos Setenta. — Pereira.
33Haverá indigência na casa do ímpio enviada pelo Senhor: Porém as habitações dos justos serão abençoadas.[5]INDIGÊNCIA — Os Setenta lêem maldição de Deus, e o mesmo se acha no texto hebreu. — Pereira.
34Êle escarnecerá dos escarnecedores, e dará graça aos mansos.
35Os sábios possuirão a glória: A exaltação dos insensatos será a sua ignomínia.