Pe. Figueiredo (1950)

Capítulo 3

Não esquecer dos preceitos da sabedoria. Pôr em Deus tôda a sua confiança. Não ser sábio a seus próprios olhos. Oferecer dos seus bens ao Senhor. Não recusar o castigo. Louvores da sabedoria. Felicidade dos que a possuem. Fazer bem a seu próximo. Não lhe fazer mal nenhum.

1Meu filho, não te esqueças da minha lei, e guarda no teu coração os meus preceitos.

2Porque êles te acrescentarão longura de dias, e anos de vida, e paz.

3Não te desamparem a misericórdia, e a verdade, põe-nas à roda do teu pescoço, e grava-as sôbre as tábuas do teu coração:[1]À RODA DO TEU PESCOÇOCompare-se esta frase com os lugares do Êx 13, 9; Dt 6, 8.

4E acharás graça, e sábia conduta diante de Deus e dos homens.

5Tem confiança no Senhor de todo o teu coração, e não te estribes na tua prudência.

6Traze-o no pensamento em todos os teus caminhos, e êle mesmo dirigirá os teus passos.

7Não sejas sábio a teus próprios olhos: Teme a Deus, e aparta-te do mal:

8Pois isto será saúde para o teu corpo, e a regadura dos teus ossos.

9Honra ao Senhor com a tua fazenda, e dá-lhe das primícias de todos os teus frutos:

10E se encherão os teus celeiros de fartura, e transbordarão de vinho os teus lagares.

11Não rejeites, meu filho, a correção do Senhor: Nem caias em abatimento, quando por êle és castigado:

12Porque o Senhor castiga aquêle a quem ama: E acha nêle a sua complacência, como um pai em seu filho.

13Bem-aventurado o homem que achou a sabedoria, e que está rico de prudência:

14Melhor é a sua aquisição do que o tráfico da prata, e seus frutos melhores do que o ouro mais fino, e mais depurado:

15Mais preciosa é que tôdas as riquezas: E tudo o mais que se deseja não se pode comparar com ela.

16Na sua direita está a longura de dias, e as riquezas, e a glória na sua esquerda.[2]NA SUA DIREITAPela mão direita se dão a entender os bens eternos, pela esquerda os temporais. — Pereira.

17Os seus caminhos são caminhos formosos, e de paz tôdas as suas veredas.

18É árvore da vida para aquêles que lançarem mão dela: E bem-aventurado o que a não largar.[3]É ÁRVORE DA VIDAO mesmo que era (segundo Santo Agostinho no livro 13 da Cidade de Deus, capítulo 20) no Paraíso terreal a árvore da vida, é no Paraíso espiritual da Igreja a sabedoria de Deus: aquela tornava imortal o corpo do homem, conservando-o na mesma idade; esta livra a sua alma da velhice do pecado, guardando-a para a vida eterna. — Pereira.

19O Senhor fundou a terra pela sabedoria, estabeleceu os céus pela prudência.

20Pela sua sabedoria é que os abismos se romperam, e as nuvens se condensam em orvalho.

21Meu filho, não te escapem estas coisas de diante dos teus olhos: Guarda a lei, e o conselho:

22E terá vida a tua alma, e engraçado adorno a tua garganta:

23Então andarás tu com confiança pelo teu caminho, e o teu pé não tropeçará:

24Se dormires, não temerás: Descansarás, e o teu sono será tranquilo:

25Não te assustes do repentino pavor, nem das poderosas arremetidas, com que os ímpios te acometam.

26Porque o Senhor estará ao teu lado, e êle guardará o teu pé para não seres apanhado no laço:

27Não impidas que faça bem aquêle que pode: Se podes, faze-o tu mesmo também.

28Não digas ao teu amigo: Vai, e torna: Amanhã te darei: Quando tu lhe podes dar logo.

29Não traces fazer mal ao teu amigo, tendo êle confiança em ti.

30Não façais processo contra qualquer homem sem motivo, quando êle te não fêz mal nenhum.

31Não invejes o homem injusto nem imites os seus caminhos:

32Porque abominação do Senhor é todo o enganador, e a sua conversação é com os símplices.[4]O ENGANADORA palavra illusor da Vulgata se deve tomar no sentido de perverso, como traz o hebreu; ou "transgressor da lei", como se lê nos Setenta. — Pereira.

33Haverá indigência na casa do ímpio enviada pelo Senhor: Porém as habitações dos justos serão abençoadas.[5]INDIGÊNCIAOs Setenta lêem maldição de Deus, e o mesmo se acha no texto hebreu. — Pereira.

34Êle escarnecerá dos escarnecedores, e dará graça aos mansos.

35Os sábios possuirão a glória: A exaltação dos insensatos será a sua ignomínia.

Nome do livro. — Os hebreus, denominando os livros pela palavra inicial, conheciam êste pela designação de Mischlé, têrmo derivado de maschal, que significa semelhança, comparação, e por extensão máxima, e também, embora mais raras vêzes, provérbio, também alegoria ou parábola, e ainda cânto irónico. Os primeiros cristãos adotaram a denominação dos Setenta, a que corresponde o latim Proverbia. Autor. — Segundo o que se deduz da análise do próprio livro, o autor é Salomão. Prov 1, 1; 10, 1; 25, 1 e ainda o 3 Rs 4, 32, Locutus est quoque Salomon tria millia parabolas (maschal). A origem salomônica de todos os provérbios é confirmada pela uniformidade do estilo e por nada se encontrar que não convenha a Salomão. É certo que acêrca dos capítulos 30 e 31 pode haver dúvida, pois são uns apêndices que têm respectivamente os nomes de Agur, filho de Jaqué e Lamuel, não faltando porém intérpretes que entendem que êstes mesmos nomes se referem a Salomão. Texto original e versões antigas. — O texto original e as mais antigas versões divergem em certos pontos. Os próprios exemplares hebraicos antigos não são rigorosamente uniformes; nuns faltam e em outros sobejam máximas, que aliás se compreende sem dificuldade, visto a forma como eram feitas as cópias. A mais antiga versão é a dos Setenta, que é mais livre do que literal, o que explica também certas variantes. Data do livro dos Provérbios. — A questão da data do livro na sua forma atual é diferente da do autor. A inscrição da segunda coleção dos Provérbios, 25, 1, prova que esta parte foi compilada no tempo de Ezequias, entre 725 e 696 antes de Cristo. Divisão geral. — O livro dos Provérbios compreende: Introdução (1, 1-6); Primeira parte (1, 7 ao c. 9); Segunda parte (10-24); Terceira parte (25-29); Apêndices (30-31).
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