Pe. Figueiredo (1950)

Capítulo 15

Brandura nas palavras. Docilidade às correções. Vítimas dos ímpios. Tudo é conhecido de Deus. Ruína dos soberbos. O preguiçoso, o insensato, o ímpio contrapostos ao diligente, ao sábio, ao justo.

1A resposta branda quebra a ira: A palavra dura suscita o furor.

2A língua dos sábios orna a ciência: A bôca dos insensatos tôda se desfaz em dizer loucuras.

3Os olhos do Senhor em todo o lugar contemplam aos bons e aos maus.

4A língua pacífica é uma árvore de vida: Mas a que é imoderada, quebrantará o espírito.

5O insensato faz escárnio da correção de seu pai: Mas o que toma para si as repreensões, far-se-á mais avisado. Na abundante justiça há uma grandíssima fôrça, mas os pensamentos dos ímpios serão desarraigados.[1]NA ABUNDANTE JUSTIÇAÊste versículo não se acha no hebreu, nem em S. Jerônimo, e falta também em muitos exemplares gregos e latinos. — Calmet.

6A casa do justo é mui grande fortaleza: E nos frutos do ímpio não há senão turbação.[2]A CASA DO JUSTOA casa do justo é repleta de bens, enquanto que os interêsses do homem ímpio só lhe acarretam remorsos pungentes, que o não deixam sossegar; o justo logra a tranquilidade do espírito e a mais imperturbável paz, na consciência; aquêle nesse desassossêgo tem o castigo da sua impiedade, êste o galardão da sua fidelidade.

7Os lábios dos sábios difundirão a ciência: O coração dos insensatos será dissemelhante.[3]O CORAÇÃO DOS INSENSATOSO hebreu: "É assim o coração dos insensatos."

8As vítimas dos ímpios são abomináveis ao Senhor: Os votos dos justos o aplacam.

9O caminho do ímpio é abominação para o Senhor: O que segue a justiça é amado dêle.

10A doutrina é má para o que deixa o caminho da vida: Aquêle que aborrece as repreensões, morrerá.[4]A DOUTRINA É MÁO hebreu diz: O castigo é duro, isto é, desabrido, áspero, e pesado, para o que deixa. — Pereira.

11O inferno e a perdição estão diante do Senhor: Quanto mais o estarão os corações dos filhos dos homens![5]O INFERNOSegundo os exegetas de melhor nome esta palavra significa aqui o lugar em que as almas esperavam a vinda do Redentor. Vigouroux, nota na Sainte Bible, de Glaire, edição de 1902. PERDIÇÃO — É o lugar particular onde recebem o castigo as almas dos maus. Vigouroux, ob. cit.

12O homem pernicioso não ama a quem o repreende: Nem vai buscar aos sábios.[6]PERNICIOSOIsto é, mau, perverso, ou como se pode verter segundo o hebreu, escarnecedor. — Pereira.

13O coração contente alegra o semblante: Com a tristeza de alma se abate o espírito.

14O coração do sábio busca a doutrina: E a bôca dos insensatos se apascenta de imperícia.

15Todos os dias do pobre são maus: A alma tranquila é como um banquete contínuo.

16Com temor do Senhor mais vale o pouco do que os grandes tesouros que nunca jamais saciam.[7]MAIS VALE O POUCOParece que foi desta passagem que S. Paulo tirou a sentença: Est autem quaestus magnus, pietas cum sufficientia. 1.ª Ep. a Tim 6,6.

17Mais vale ser chamado com afeto a comer umas ervas, do que comer um gordo novilho com desamor.

18O homem iracundo provoca reixas: O que é paciente aplaca as que tem já excitado.

19O caminho dos preguiçosos é como uma sebe de espinhos: O caminho dos justos é sem tropeço.

20O filho sábio alegra a seu pai: E o homem insensato despreza a sua mãe.

21A loucura é gôsto para o insensato: E o varão prudente mede os seus passos.

22Os pensamentos dissipam-se onde não há conselho: Mas onde há muitos conselheiros, se confirmam.[8]CONSELHOO hebreu diz: Onde não há segredo. — Pereira.

23Alegra-se o homem na sentença da sua bôca: Mas a palavra oportuna é a melhor.[9]ALEGRA-SE O HOMEMCada um fàcilmente se satisfaz e dá por bem pago do seu dito e sentimento; mas se falou a tempo e com acêrto.

24A vereda da vida está acima do homem instruído, para se desviar do mais profundo do inferno.[10]A VEREDA DA VIDAÀ letra, e mais inteligível, é isto: O caminho da vida, para o homem instruído, é o que conduz ao Céu. Ou então: "O homem douto é aquêle que procura a vida, não na terra, mas no alto, isto é, no Céu, olhando para o seu Criador". Vitam hanc quaerit, non deorum in terra, sed sursum in Caelis, ad Creatorem suum respiciens. — Menochio.

25O Senhor demolirá a casa dos soberbos, e firmará os limites do campo da viúva.[11]E FIRMARÁ OS LIMITESOs têrmos, ou marcos do campo da viúva, que intentava arrancar o soberbo. — Menochio.

26Os maus pensamentos são a abominação do Senhor: E a palavra pura como muito agradável, será por êle aprovada.

27Aquêle que vai atrás da avareza, perturba a sua casa: O que porém aborrece as dádivas viverá. Os pecados purificam-se pela misericórdia e pela fé: E todo o homem evita o mal por meio do temor do Senhor.[12]OS PECADOS PURIFICAM-SEÊste versículo falta aqui no hebreu, mas êle o traz no capítulo seguinte, versículo 6, onde a Vulgata também o repete. Os Setenta trazem-no aqui, e omitem-no ali. — Calmet.

28A alma do justo medita a obediência: A bôca dos ímpios trasborda em males.

29O Senhor está longe dos ímpios: E êle atenderá às orações dos justos.

30A luz dos olhos alegra a alma: A boa reputação engorda os ossos.

31O ouvido que ouve as repreensões salutares terá a sua morada no meio dos sábios.

32Aquêle que rejeita a disciplina, despreza a sua alma: Mas o que está pelas repreensões, é possuidor do seu coração.

33O temor do Senhor é a disciplina da sabedoria: E a humildade precede a glória.

Nome do livro. — Os hebreus, denominando os livros pela palavra inicial, conheciam êste pela designação de Mischlé, têrmo derivado de maschal, que significa semelhança, comparação, e por extensão máxima, e também, embora mais raras vêzes, provérbio, também alegoria ou parábola, e ainda cânto irónico. Os primeiros cristãos adotaram a denominação dos Setenta, a que corresponde o latim Proverbia. Autor. — Segundo o que se deduz da análise do próprio livro, o autor é Salomão. Prov 1, 1; 10, 1; 25, 1 e ainda o 3 Rs 4, 32, Locutus est quoque Salomon tria millia parabolas (maschal). A origem salomônica de todos os provérbios é confirmada pela uniformidade do estilo e por nada se encontrar que não convenha a Salomão. É certo que acêrca dos capítulos 30 e 31 pode haver dúvida, pois são uns apêndices que têm respectivamente os nomes de Agur, filho de Jaqué e Lamuel, não faltando porém intérpretes que entendem que êstes mesmos nomes se referem a Salomão. Texto original e versões antigas. — O texto original e as mais antigas versões divergem em certos pontos. Os próprios exemplares hebraicos antigos não são rigorosamente uniformes; nuns faltam e em outros sobejam máximas, que aliás se compreende sem dificuldade, visto a forma como eram feitas as cópias. A mais antiga versão é a dos Setenta, que é mais livre do que literal, o que explica também certas variantes. Data do livro dos Provérbios. — A questão da data do livro na sua forma atual é diferente da do autor. A inscrição da segunda coleção dos Provérbios, 25, 1, prova que esta parte foi compilada no tempo de Ezequias, entre 725 e 696 antes de Cristo. Divisão geral. — O livro dos Provérbios compreende: Introdução (1, 1-6); Primeira parte (1, 7 ao c. 9); Segunda parte (10-24); Terceira parte (25-29); Apêndices (30-31).
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