Pe. Figueiredo (1950)

Capítulo 1

Conta dos israelitas, que vieram para o Egito. Novo rei do Egito, que vexa os israelitas. Parteiras do Egito galardoadas por Deus, por terem salvado os meninos dos hebreus.

1Eis-aqui os nomes dos filhos de Israel, que vieram para o Egito com Jacó, e que nêle entraram cada um com a sua família.

2Rúben, Simeão, Levi, Judá,

3Issacar, Zabulon, Benjamim,

4Dan, Neftali, Gad, e Aser.

5Todos os que tinham saído de Jacó faziam o número de setenta pessoas: José porém estava no Egito.

6Depois da morte de José, e da de todos seus irmãos, e de tôda esta parentela,

7cresceram os filhos de Israel, e como uns renovos se multiplicaram, e feitos em extremo fortes, encheram todo o país.

8Entretanto se levantou no Egito um novo rei, que não conhecia a José,[1]UM NOVO REIÊste rei pertencia à XIX dinastia. A perseguição, ao que parece começou no reinado de Seti 1.°; continuou com violências sob as ordens de Ramsés 2.°, o Sesóstris dos gregos, e um dos faraós de maior celebridade. A múmia dêste notável monarca foi descoberta no ano de 1881, em Deir-el-Bahari, e conserva-se no museu de Gisé, perto do Cairo.

9e que disse ao seu povo: Vós bem vedes que o povo dos filhos de Israel está muito numeroso, e que é mais forte do que nós.

10Oprimamo-lo pois com manha, para que não suceda, que êle se multiplique ainda mais; e se sobrevier alguma guerra, se una com os nossos inimigos, e depois de nos vencerem, saiam do Egito.

11Constituiu pois o rei sôbre êles certos intendentes de obras, a fim de os afligir com carregos: e os israelitas edificaram a Faraó as cidades das Tendas, Fitom, e Ramessés.[2]FITOMHoje é Tell-el-Maskuta. Esta povoação foi rodeada por um muro de tijolos compreendendo quatro hectares de terreno. A superfície era ocupada por armazéns, tabernáculo da vulgata. As investigações modernas descobriram importantes vestígios de Fitom. Ramessés devia estar próximo, pois que aí estava o arsenal da terra de Gessen.

12Mas quanto êle mais os oprimia, tanto os israelitas mais se multiplicavam, e cresciam.

13Pelo que os egípcios aborreciam os filhos de Israel, e os afligiam com insultos.

14Faziam-lhes amargosa a vida, ocupando-os no penoso trabalho de acarretarem cal traçada, e tijolo, e constrangendo-os a cultivar-lhes seus campos.

15Ora o rei do Egito falou às parteiras dos hebreus, das quais uma se chamava Séfora, outra Fua,

16e lhes deu esta ordem: Quando vós partejardes as mulheres dos hebreus, tanto que a criança nascer, se fôr macho, matai-a; se fôr fêmea, deixai-a viver.

17Mas as parteiras temeram a Deus, e não fizeram o que o rei do Egito lhes tinha mandado, antes pelo contrário conservaram os meninos machos.

18O rei, tendo-as mandado vir à sua presença, lhes disse: Que é isto que vós quisestes fazer, perdoando aos meninos machos?

19Elas lhe responderam: As mulheres dos hebreus não são como as dos egípcios: Porque elas mesmas se sabem partejar, e, antes de nós chegarmos, parem.

20Galardoou Deus pois estas parteiras, e o povo foi crescendo, e fortificando-se extraordinariamente.

21E porque as parteiras temeram a Deus, êle lhes estabeleceu as suas casas.[3]LHES ESTABELECEU AS SUAS CASASS. Agostinho interpreta êste lugar da seguinte forma: Deus concedeu-lhe a prosperidade e uma numerosa família. S. Agostinho, Contra mendacium, 15, ss.

22Então pôs Faraó a todo o povo êste preceito: Lançai no rio todo o que nascer macho, e não reserveis senão as fêmeas.

O Êxodo, em hebreu chamado veelle semoth, eis-aqui os nomes, em grego êxodos, saída, é o segundo livro do Pentateuco, escrito por Moisés; conta-nos o cativeiro dos israelitas no Egito, o jugo dos Faraós, e a libertação pela Providência Divina, que suscitou, no meio do povo escolhido, Moisés; narram-se os milagres que acompanharam o têrmo da escravidão; a promulgação da lei no Sinai e a construção do tabernáculo. O Êxodo divide-se em três partes: PRIMEIRA PARTE a) Os acontecimentos que precedem e preparam a saída do Egito: Compreende os doze primeiros capítulos e subdivide-se assim: 1.° Quadro da opressão de Israel, 1 — 2.° História dos primeiros quarenta anos da vida de Moisés, 2 — 3.° Vocação de Moisés e sua volta para o Egito, 3; 4. — 4.° Tentativas inúteis empregadas junto de Faraó para obter a liberdade de Israel, 5; 6 — 5.° Descrição das nove primeiras pragas que não comovem o Faraó, 7-10 — 6.° A décima praga, instituição da Páscoa, morte dos primogénitos e partida precipitada de Israel, 11; 12, 36. SEGUNDA PARTE b) Saída do Egito 12, 37; 18. Contém cinco subdivisões: 1.° Primeiros acampamentos dos hebreus; prescrições para a Páscoa; santificação dos primogênitos; aparição da coluna de nuvens, 12, 37; 13 — 2.° Passagem do Mar Vermelho, 14; 15, 21 — 3.° Viagem dos israelitas e primeiras estações no deserto; o maná: a água milagrosa, 15, 22; 17, 7 — 4.° Vitória alcançada sôbre os Amalecitas, 17, 8-16 — 5.° Visita de Jetro, 18. TERCEIRA PARTE c) Promulgação da lei no Monte Sinai e construção do tabernáculo: Abrange os capítulos 19-40. Subdivide-se: 1.° Conclusão da aliança entre Deus e os hebreus; chegada ao Sinai e preparativos para a promulgação da lei, 19 — 2.° Decálogo, 20 — 3.° Primeiras leis, 21-23, 19 — 4.° Advertências sôbre o ingresso na terra do Canaã, 23, 20; 24, 11 — 5.° Prescrições relativas à construção da Arca e do Tabernáculo, 24, 12; 27 — 6.° Prescrições referentes ao sacerdócio, 28-30 — 7.° Vocação de Belezeel, 31, 1-12 — 8.° A lei de sábado, 31, 12-18 — 9.° A apostasia do povo, adorando o bezerro de ouro; o arrependimento e a oração de Moisés, 32-35. — 10.° Construção do Tabernáculo 35-40. Por aqui se vê que êste livro é a continuação da história da formação da nacionalidade hebraica, e nêle encontramos bem traçada a figura do próprio autor, o grande legislador dos hebreus — Moisés — seu caráter, e a sua obra, obra importantíssima, que seria inexplicável se não recorrermos à intervenção da Providência, como o faz sinceramente o autor sagrado, que coloca sob os nossos olhos a ação de Deus manifestada em favor do seu povo, por tantas, tão variadas e tão evidentes formas.
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