Capítulo 14
1Tornou o Senhor a falar a Moisés, e lhe disse:
2Dize aos filhos de Israel, que retrocedam, e que se vão acampar diante de Piairote, que fica entre Magdal, e o mar, defronte de Beelsefon. Vós vos acampareis defronte dêste sítio sôbre o mar.[1]PIAIROTE — Tudo leva a crer que seja o Adjroud atual, o que contudo não passa duma hipótese, com fundamento sólido, mas mera hipótese, por isso que não conhecemos hoje os dois pontos da referência indicados no texto — Beelsefon e Magdal. Do primeiro supõe-se, atendendo à topografia do Istmo, que seja Djebel Attaka, a cordilheira situada a sudoeste do Suez; quanto a Magdal, não obstante encontrar-se o seu nome nas inscrições egípcias, não se pode conjeturar, com razões sólidas, coisa alguma. Porém, como quer que seja, Piairote não devia estar distanciado do mar Vermelho. O nome é egípcio, e era simplesmente Hairote; o prefixo Pi significa lugar. O notável egiptólogo Neville achou em Tell-el-Maskhuta uma estela em granito negro do rei Ptolomeu 2.° Filadelfo, onde se menciona por duas vêzes uma cidade Pikeheret, não determinando a sua localização, sendo porém os críticos concordes em declarar ser a mesma cidade de que fala o texto Bíblico. Para nós, porém, o principal é saber que o campo dos hebreus estava nas vizinhanças de Djebel Attaka, que vai a oeste e nordeste do Mar Vermelho.
3Porque Faraó há de dizer, falando dos filhos de Israel: Êles estão embaraçados nuns lugares estreitos, e estão fechados no deserto.
4Eu lhe endurecerei o coração, e êle irá em vosso alcance: e eu serei glorificado em Faraó, e em todo o seu exército. E os egípcios saberão que eu sou o Senhor. Fizeram pois os filhos de Israel o que o Senhor lhes tinha ordenado.
5E vieram dizer a Faraó, rei dos egípcios, que o povo tinha fugido. Com isto se mudou o coração de Faraó, e o de seus servos a respeito dêste povo, e êles disseram: Que é o que nós fizemos, deixando ir Israel, para que êle nos não servisse?
6Faraó pois fêz preparar a sua carroça, e tomou consigo todo o seu povo.
7Levou também seiscentas carroças escolhidas, e tudo o que no Egito se achou de carroças de guerra, com os capitães de todo o exército.
8O Senhor endureceu o coração de Faraó, rei do Egito, e êste foi em alcance dos filhos de Israel. Mas êles tinham saído guiados de uma mão poderosa.
9Indo pois os egípcios em alcance dos israelitas, e caminhando pelo rasto das suas pisadas, acharam-nos no seu campo sôbre o mar. Tôda a cavalaria, e carroças de Faraó com todo o seu exército estavam em Piairote, defronte de Beelsefon.
10Quando Faraó estava já próximo, levantando os filhos de Israel os olhos, e tendo visto os egípcios por detrás dêles, ficaram passados de mêdo: clamaram ao Senhor,
11e disseram para Moisés: Talvez não havia sepulcros no Egito, e por isso é que tu nos trouxeste aqui, para que nós morrêssemos na solidão. Que sentido foi o teu, quando nos fizeste sair do Egito?
12Não é isto o que nós te dizíamos, estando ainda no Egito: Retira-te de nós para servirmos os egípcios? Porque muito melhor era servi-los a êles, do que morrermos no deserto.
13Respondeu Moisés ao povo: Não temais, estai firmes, e considerai as maravilhas, que o Senhor está para fazer hoje. Porque os egípcios, que vós hoje vedes, vós os não tornareis a ver jamais.
14O Senhor pelejará por vós, e vós ficareis em silêncio.
15E o Senhor disse a Moisés: Porque clamas tu a mim? Dize aos filhos de Israel que marchem.
16E tu levantarás a tua vara, e estenderás a tua mão sôbre o mar, e o dividirás, para que os filhos de Israel caminhem em sêco pelo meio do mar.
17Eu endurecerei o coração dos egípcios, para que êles vão atrás de vós: e eu serei glorificado em Faraó, e em todo o seu exército, e nas suas carroças, e na sua cavalaria;
18e os egípcios saberão que eu sou o Senhor, quando eu assim fôr glorificado em Faraó e nas suas carroças e cavalaria.
19Então o anjo de Deus, que caminhava adiante do campo dos israelitas, se foi pôr atrás dêles: e ao mesmo tempo a coluna de nuvem, deixando a vanguarda do povo,[2]A COLUNA DE NUVEM — Vários escritores têm dado diversas interpretações a esta passagem bíblica, querendo alguns considerar êste fenômeno como natural. Thierbach sustentou, em 1830, Oster programm des Gymnasium zu Erfurt, que se podia explicar a coluna de nuvem e de fogo pela fosforescência do mar e por uma nuvem, em forma de coluna, fortemente carregada de eletricidade. Os críticos ortodoxos rejeitam esta interpretação e consideram êste fato como verdadeiramente sobrenatural. Esta coluna deslocava-se consoante as necessidades dos viajantes: de noite era fogo vivo e brilhante; de dia era nuvem que a todos conduzia; apareceu pela primeira vez, não nas margens do Mar Vermelho, mas em Etan (13,20), de onde só por milagre podia ser vista a fosforescência do mar. E, perguntam, como explicar naturalmente que uma nuvem carregada de eletricidade, acompanhasse sem cessar, durante quarenta anos, os israelitas?
20se veio pôr também detrás, entre o campo dos egípcios, e o campo de Israel. E esta nuvem duma parte era tenebrosa, e de outra alumiava a noite; de sorte que os dois exércitos se não puderam aproximar todo o tempo da noite.
21Tendo Moisés pois estendido a sua mão sôbre o mar, o Senhor lhe dividiu as águas fazendo que tôda a noite assoprasse um vento veemente, abrasador, que lhe secou o fundo. Estando a água assim dividida,[3]UM VENTO VEEMENTE — Seria o vento denominado qadim, vento de este ou de nordeste. J. Salvador, Histoire des Institutions de Moïse et du peuple hébreu, e outros escritores racionalistas citam esta circunstância do vento para negar o caráter miraculoso da passagem do Mar Vermelho. Observa Vigouroux que se Deus quisesse servir-se dum agente natural para contribuir para o prodígio, êste não era por isso menos sobrenatural; da mesma maneira que a peste e outros flagelos, naturais em si mesmos, tinham sido sobrenaturalmente empregados por Deus para castigo dos egípcios.
22entraram os filhos de Israel pelo meio do mar seco, tendo pela direita e esquerda a água que lhes servia como de muro.[4]ENTRARAM OS FILHOS DE ISRAEL — Têm os exegetas procurado determinar o número dos israelitas. O texto indica-nos seiscentos mil homens de pé, novecentas crianças, Ex 12, 37. Calmet, Dissertation sur la passage de la mer Rouge, chama a atenção para o recenseamento da população feito um ano depois dêste fato, onde se contam 683.550 homens na idade de tomar armas, 20.000 levitas, fora tôdas as mulheres, crianças, velhos decrépitos, escravos e alguns egípcios que a êstes se juntaram; e baseado nestes algarismos conclui que os que passaram as águas do Mar Vermelho deviam ser cêrca de dois milhões de indivíduos.
23E os egípcios, que os perseguiam, entraram depois dêles pelo meio do mar com tôda a cavalaria de Faraó, suas carroças e cavalos.
24Mas quando veio a vigília da manhã, o Senhor tendo olhado para o campo dos egípcios por entre a coluna de fogo e a coluna de nuvem, fêz perecer todo o seu exército.
25Êle embaraçou as rodas das carroças, e os egípcios foram ao fundo. Então disseram entre si os egípcios: Fujamos dos israelitas, porque o Senhor pugna por êles contra nós.
26Mas o Senhor disse a Moisés: Estende a tua mão sôbre o mar para que as águas se tornem sôbre os egípcios, sôbre as suas carroças, e sôbre a sua cavalaria.
27Estendeu pois Moisés a mão sôbre o mar, e ao primeiro romper da manhã se tornou o mar ao mesmo lugar, onde antes estava. Assim quando os egípcios iam fugindo, vieram as águas encontrar-se com êles, e o Senhor os involveu no meio das ondas.
28Tendo-se desta sorte tornado a ajuntar as águas, cobriram as carroças, e cavalaria de todo o exército de Faraó, que tinham entrado no mar em alcance dos israelitas, e não escapou dêles nem sequer um.
29Mas os filhos de Israel ao contrário passaram a pé enxuto pelo meio do mar, tendo à direita, e à esquerda as águas, que lhe serviram de muro.
30Naquele dia livrou o Senhor a Israel da mão dos egípcios.[5]NAQUELE DIA LIVROU O SENHOR A ISRAEL — Assim acabou a escravidão. Tinham passado 420 anos depois que Jacó se tinha estabelecido na terra de Gessen. O seu povo, próspero nos tempos dos reis pastôres, vivia oprimido bàrbaramente pelos reis da XIX.ª dinastia; Ramsés foi bárbaro; Meneftá cruel; e êste só depois das pragas que lhe assolaram o país, se resolveu a deixar sair o povo de Deus. Partiram êstes de Ramessés, passaram a Socote, depois a Etan, à entrada do deserto. Chegados aqui mudaram de direção, vieram tomar, seguindo a margem ocidental dos lagos amargos, o caminho que conduz ao Sinai. No momento em que se preparavam para entrar no deserto, acharam-se em frente do exército egípcio, que lhes impedia a passagem, mas Deus os salvou, abrindo-lhes no meio das águas uma estrada miraculosa, de onde seriam conduzidos às faldas do Sinai. Nenhum outro fato teve no Velho Testamento igual celebração. Nem a vocação de Abraão, nem a elevação de José à côrte dos Faraós, nem a primeira Páscoa, nem a conquista de Canaã, nem a lei outorgada no Sinai foram comemoradas com tanto entusiasmo, e admiração. Isaías chama-lhe o ato por excelência, no qual Deus manifesta o seu amor ao povo escolhido (Is 43, 16.17), e os Salmos cantam a grandiosidade dêste fato (Sl 76).
31E os israelitas viram os cadáveres dos egípcios sôbre a praia do mar, e os efeitos, que a poderosa mão do Senhor tinha obrado contra êles. Então temeu o povo o Senhor, creu no Senhor, e em seu servo Moisés.