Pe. Figueiredo (1950)

Capítulo 28

Ordenações acêrca dos hábitos pontificais, e sacerdotais de Aarão e seus filhos.

1Faze também que se cheguem a ti Aarão, teu irmão, com seus filhos, separados do meio dos filhos de Israel, para que êles exercitem diante de mim as funções do sacerdócio: Aarão, Nadab, Abiu, Eleazar, e Itamar.

2Farás um vestido santo, e sagrado a Aarão, teu irmão, para glória, e ornamento.

3Falarás a todos os que têm o coração cheio de sabedoria, aos quais eu dei um espírito de inteligência, para que façam um vestido a Aarão, e para que êle sendo santificado me sirva no seu ministério.

4Eis-aqui os vestidos que êles hão de fazer. O racional, o efod, a túnica, a camisa de linho, que será mais estreita, a mitra, e o cíngulo. Êstes são os vestidos santos, que êles devem fazer a Aarão, teu irmão, e a seus filhos, para exercitarem diante de mim as funções do sacerdócio.[1]EFODCompunha-se de duas partes, anterior e posterior; era o paramento próprio do grande sacerdote. Samuel (1 Rs 2, 18), Davi (2 Rs 6, 14) usaram um efod, mas era diferente dêste, com o qual só tinha de comum o nome e a forma geral.

5Nisto empregarão êles o ouro, o jacinto, a púrpura, a escarlata tinta duas vêzes, e o linho fino.

6Farão o efod de ouro, de jacinto, de púrpura, de escarlata tinta duas vêzes, de linho fino retorcido, cuja obra será tecida da mistura destas côres.

7O efod em cima terá duas aberturas nos ombros, que correspondam uma à outra: e estas aberturas estendendo-se para êle se pôr, se tornarão a juntar depois de pôsto.

8Tôda a obra será com agradável variedade tecida de ouro, de jacinto, de púrpura, de escarlata tinta duas vêzes, e de linho fino retorcido.

9Tomarás também duas ágatas, onde gravarás os nomes dos filhos de Israel.

10Uma pedra terá seis nomes, outra outros seis, segundo a ordem do seu nascimento.

11Nisto empregarás tu a arte do escultor, e do lapidário: porque hás de gravar nas duas pedras os nomes dos filhos de Israel depois de os teres engastado em ouro.

12Pô-las-ás no efod de uma, e outra parte, para servirem de monumento aos filhos de Israel. Aarão trará os seus nomes diante do Senhor, gravados nas duas pedras sôbre os ombros para lembrança.

13Farás também uns ganchos de ouro,

14e duas pequenas cadeias de ouro o mais puro, cujos fuzis estejam enlaçados uns aos outros, e prendê-las-ás a êstes ganchos.

15Farás outrossim o racional, que será como o efod tecido de ouro, de jacinto, de púrpura, de escarlata tinta duas vêzes, e de linho fino retorcido.[2]RACIONALOs altos personagens egípcios usavam sôbre o peito o peitoral, que era um sinal de elevada posição, e por isso sempre precioso. O mais célebre que se conhece foi o que Mariette achou sôbre a múmia da rainha Aah-Hotep, mãe do rei Alomès ou Amósis, chefe da XVIIIa dinastia, anterior a Moisés. Conserva-se no museu de Gisé. Deus quis que o pontífice usasse desta insígnia, distintivo de poderio e grandeza, para que fôsse sempre respeitado, e ao mesmo tempo que os artistas hebraicos confeccionassem esta obra de arte, para que o culto revestisse o condigno esplendor, ficando à posteridade um monumento do estado de civilização do povo escolhido. Mas tudo quanto podia lembrar a idolatria foi escrupulosamente banido do peitoral mosaico, onde tudo recordava a Santidade do Senhor.

16Êle será quadrado e dobrado: terá um palmo tanto de comprido, como de largo.[3]UM PALMOEm hebreu Zereth; êste palmo é correspondente a meio côvado. Dividia-se em dois pequenos palmos tefakh.

17Porás nêle quatro ordens de pedras preciosas. Na primeira haverá o sardônio, o topázio, a esmeralda:

18Na segunda o carbúnculo, a safira, e o jaspe:

19Na terceira o ligúrio, a ágata, e a ametista:

20Na quarta a crisólita, a cornalina, e o berilo, encastoadas em ouro, conforme a sua ordem.

21Porás nelas os nomes dos filhos de Israel: Os seus nomes serão nelas gravados, cada um em sua pedra; conforme a ordem das doze tribos.

22Farás para o racional duas pequenas cadeias de ouro o mais puro, cujos fuzis estejam enlaçados uns nos outros:

23e duas argolinhas de ouro, que tu porás no alto do racional a um e outro lado.

24Enfiarás as duas cadeias pelas duas argolinhas, que estarão em cima nas duas extremidades do racional;

25e prenderás as extremidades das duas cadeias aos dois ganchos de ouro, que estarão nos dois lados do efod, que corresponde ao racional.

26Farás outras duas argolinhas de ouro, que porás nos dois lados inferiores do racional, nas ourelas, que correspondem ao efod pela parte detrás.

27Farás mais outras duas argolinhas do efod, que correspondam às duas argolinhas de ouro em baixo no racional, para que assim possa o racional prender-se ao efod,

28por meio duma fita de côr de jacinto, que passará pelas argolinhas do efod, e pelas argolinhas do racional; para que êles fiquem bem ao próprio atados um no outro, e para que o efod e o racional se não possam separar.

29Aarão trará os nomes dos filhos de Israel no racional do juízo, que êle terá sôbre o peito, quando entrar no santuário, para servir dum eterno monumento diante do Senhor.

30Gravarás no racional do juízo estas duas palavras: Doutrina e Verdade, as quais estarão sôbre o peito de Aarão, quando êle entrar à presença do Senhor; e êle trará sempre sôbre o seu peito o juízo dos filhos de Israel diante do Senhor.[4]DOUTRINA E VERDADEEm hebreu está Urim e Thummim, que literalmente significam Luz e perfeição. Eram duas pedras. Uma destas simbolizava Deus como luz e verdade, Urim: a outra como Soberana Justiça e Suprema perfeição moral, Thummim, nomes que estão no plural de excelência, por se referirem a Deus. Estas pedras eram distintas das doze que ornavam o peitoral, e onde estavam gravados os nomes das tribos de Israel; estavam colocadas dentro do peitoral, como numa bôlsa, e daí as tirava o Pontífice para consultar Deus: uma dava a resposta afirmativa, a outra respondia negativamente (A. Vigouroux, La Sainte Bible Polyglotte).

31Farás também a túnica do efod, que será tôda de côr de jacinto.

32Em cima no meio dela haverá uma abertura, e ao redor desta abertura um ponteado, como o que se costuma fazer nas extremidades dos vestidos para se não romperem.

33Por baixo ao redor da mesma túnica porás tu umas como pequenas romãs feitas de jacinto, de púrpura, e de escarlata tinta duas vêzes; e pelo meio delas entressachadas umas campainhas.

34de sorte, que esteja uma campainha de ouro, e uma granada; outra campainha de ouro, e outra granada.[5]UMA CAMPAINHA DE OURO E UMA GRANADANos túmulos egípcios tem-se encontrado campainhas e granadas, como se pode ver no museu do Louvre e no British Museum. As campainhas têm uma argola na parte superior, e as granadas terminam por um anel, o que indica que estavam suspensas num vestuário, ou num colar.

35Desta túnica estará vestido Aarão, quando fizer as funções do seu ministério, para que se ouça o som destas campainhas, quando êle entrar no santuário à presença do Senhor, ou quando dêle sair, para que não morra.

36Farás também uma lâmina do mais puro ouro, na qual farás gravar por algum bom artífice estas palavras: Santidade ao Senhor.[6]UMA LÂMINAEra uma espécie de diadema formado por uma tênue fôlha de ouro.

37E atá-la-ás à mitra com uma fita de côr de jacinto sôbre a testa do pontífice.

38E Aarão trará sôbre si tôdas as iniquidades, que os filhos de Israel cometerem em todos os donativos, e em todos os presentes, que oferecerem, e consagrarem ao Senhor. Êle trará sempre esta lâmina por diante da testa, para que o Senhor lhes seja propício.

39Farás outrossim uma camisa de linho fino, e uma mitra do mesmo linho, e um cíngulo todo bordado.

40Farás também camisas de linho para os filhos de Aarão, cíngulos, e mitras para glória e ornamento.

41De todos êstes paramentos vestirás tu a Aarão, teu irmão, e a seus filhos com êle. A todos sagrarás as mãos, e a todos santificarás, para que êles exercitem as funções do meu sacerdócio.

42Far-lhe-ás também calções de linho para cobrirem as suas partes, desde os rins até as coxas.

43Aarão, e seus filhos usarão dêles, quando entrarem no tabernáculo do testemunho, ou quando se chegarem ao altar para servirem no santuário; para que não suceda fazerem-se culpáveis de iniquidade, e morrerem. Esta ordenação será estável, e perpétua para Aarão, e para a sua posteridade depois dêle.

O Êxodo, em hebreu chamado veelle semoth, eis-aqui os nomes, em grego êxodos, saída, é o segundo livro do Pentateuco, escrito por Moisés; conta-nos o cativeiro dos israelitas no Egito, o jugo dos Faraós, e a libertação pela Providência Divina, que suscitou, no meio do povo escolhido, Moisés; narram-se os milagres que acompanharam o têrmo da escravidão; a promulgação da lei no Sinai e a construção do tabernáculo. O Êxodo divide-se em três partes: PRIMEIRA PARTE a) Os acontecimentos que precedem e preparam a saída do Egito: Compreende os doze primeiros capítulos e subdivide-se assim: 1.° Quadro da opressão de Israel, 1 — 2.° História dos primeiros quarenta anos da vida de Moisés, 2 — 3.° Vocação de Moisés e sua volta para o Egito, 3; 4. — 4.° Tentativas inúteis empregadas junto de Faraó para obter a liberdade de Israel, 5; 6 — 5.° Descrição das nove primeiras pragas que não comovem o Faraó, 7-10 — 6.° A décima praga, instituição da Páscoa, morte dos primogénitos e partida precipitada de Israel, 11; 12, 36. SEGUNDA PARTE b) Saída do Egito 12, 37; 18. Contém cinco subdivisões: 1.° Primeiros acampamentos dos hebreus; prescrições para a Páscoa; santificação dos primogênitos; aparição da coluna de nuvens, 12, 37; 13 — 2.° Passagem do Mar Vermelho, 14; 15, 21 — 3.° Viagem dos israelitas e primeiras estações no deserto; o maná: a água milagrosa, 15, 22; 17, 7 — 4.° Vitória alcançada sôbre os Amalecitas, 17, 8-16 — 5.° Visita de Jetro, 18. TERCEIRA PARTE c) Promulgação da lei no Monte Sinai e construção do tabernáculo: Abrange os capítulos 19-40. Subdivide-se: 1.° Conclusão da aliança entre Deus e os hebreus; chegada ao Sinai e preparativos para a promulgação da lei, 19 — 2.° Decálogo, 20 — 3.° Primeiras leis, 21-23, 19 — 4.° Advertências sôbre o ingresso na terra do Canaã, 23, 20; 24, 11 — 5.° Prescrições relativas à construção da Arca e do Tabernáculo, 24, 12; 27 — 6.° Prescrições referentes ao sacerdócio, 28-30 — 7.° Vocação de Belezeel, 31, 1-12 — 8.° A lei de sábado, 31, 12-18 — 9.° A apostasia do povo, adorando o bezerro de ouro; o arrependimento e a oração de Moisés, 32-35. — 10.° Construção do Tabernáculo 35-40. Por aqui se vê que êste livro é a continuação da história da formação da nacionalidade hebraica, e nêle encontramos bem traçada a figura do próprio autor, o grande legislador dos hebreus — Moisés — seu caráter, e a sua obra, obra importantíssima, que seria inexplicável se não recorrermos à intervenção da Providência, como o faz sinceramente o autor sagrado, que coloca sob os nossos olhos a ação de Deus manifestada em favor do seu povo, por tantas, tão variadas e tão evidentes formas.
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