Pe. Figueiredo (1950)

Capítulo 33

O povo humilha-se, e chora o seu pecado. Moisés fala com Deus face a face. Pede-lhe que lhe mostre o seu rosto.

1Depois falou o Senhor a Moisés, e lhe disse: Vai, sai dêste lugar tu, e o povo, que tu tiraste do Egito, e vai para a terra, que eu prometi com juramento a Abraão, Isaac, e Jacó quando lhe disse: Eu darei esta terra à tua posteridade.

2E dir-lhe-ás da minha parte: Eu enviarei um anjo, que te sirva de percursor, para que lance fora os cananeus, os amorreus, os heteus, os fereseus, os heveus, os jebuseus;

3e tu entres num país onde correm arroios de leite, e de mel. Porque eu não subirei contigo, para que não suceda exterminar-te eu durante o caminho, visto seres tu um povo de cerviz dura.[1]DE CERVIZ DURAIsto é, que não suporta fàcilmente o jugo e está sempre pronto para a revolta.

4O povo, ouvindo estas tremendas palavras pôs-se a chorar; e nenhum dêles vestiu as suas galas costumadas.

5Porque o Senhor disse a Moisés: Diz aos filhos de Israel: Vós sois um povo de cerviz dura: se eu fôr uma vez no meio de vós, exterminar-vos-ei. Deixai, pois, desde agora as vossas galas, para eu saber de que modo vos hei de tratar.

6Todos os filhos de Israel pois deixaram as suas galas ao pé do monte Horeb.

7E Moisés, levantando o tabernáculo, o pôs bem ao longe fora do campo, e o chamou o tabernáculo do concêrto. E todos os do povo, que tinham alguma dificuldade, saíram fora do campo, para irem ao tabernáculo do concêrto.[2]E MOISÉS LEVANTANDO O TABERNÁCULOÊste tabernáculo era provisório; foi, segundo tôda a verossimelhança, colocado sôbre Djebel Moneidjah, montanha pouco elevada, visível de tôda a planície de Er Rahah, e, ao lado, ed Deir tinha espaço suficiente para o povo se reunir junto do tabernáculo.

8Quando Moisés saía para o tabernáculo, levantava-se todo o povo, e cada um se deixava estar à porta da sua tenda, e olhava para Moisés pelas costas, até êle entrar no tabernáculo.

9Depois que Moisés tinha entrado no tabernáculo do concêrto, descia a coluna de nuvem, e punha-se à porta, e o Senhor falava com Moisés.

10Os filhos de Israel, em vendo que a coluna de nuvem se punha à porta do tabernáculo, punham-se também êles todos à porta das suas tendas, e adoravam o Senhor.

11Ora o Senhor falava a Moisés face a face, bem como um homem costuma falar ao seu amigo. E quando êle voltava para o campo, o moço Josué, filho de Nun, que o servia, não se alongava do tabernáculo.[3]FACE A FACES. Tomás de Aquino sôbre esta passagem da Sagrada Escritura, 1.ª 2.ª q. 98, a 2, ad 2m, diz Secundum opinionem populi loquitur Scriptura. Era um modo de dizer corrente, popular, que empregavam os escritores bíblicos, para se fazerem entender pelo povo, porque Deus, para atingir o fim que se propunha, não tinha de retificar as idéias correntes do país ou da época. Além disto o texto quer também significar que Deus, sem rodeios, sem enigmas, sem figuras e sem mediador comunicava a Moisés as suas vontades.

12Moisés porém disse ao Senhor: Tu mandas-me que leve eu êsse povo, e não me declaras quem hás de enviar comigo, principalmente tendo-me tu dito: Eu conheço-te pelo teu nome, e tu achaste graça de mim.

13Se eu pois achei graça diante de ti, mostra-me a tua face, para eu te conhecer, e para achar graça diante dos teus olhos: olha benignamente para esta grande multidão, que é teu povo.

14O Senhor lhe disse: Eu irei em pessoa diante de ti, e eu te darei o descanso.[4]EU IREI EM PESSOA ADIANTE DE TIDeus guiara o seu povo; a prece de Moisés foi ouvida.

15Disse-lhe Moisés: Se tu mesmo não vais adiante de nós, não nos tires dêste lugar.

16Porque como poderemos nós saber, eu, e o teu povo, que nós achamos graça diante de ti, se tu não marchares adiante de nós, para sermos atendidos, e respeitados de todos os povos, que habitam sôbre a terra?

17Respondeu o Senhor a Moisés: Eu te farei isto, que tu acabas de me pedir: porque tu achaste graça diante de mim, e eu te conheço pelo teu nome.[5]EU TE FAREI ISTONão se pode dizer mais terminantemente a Moisés que a sua súplica foi atendida. Moisés está vitorioso, e esta vitória incute-lhe alento para que peça a Deus que lhe mostre a sua glória (v. 18). TE CONHEÇO PELO TEU NOME — Isto é, cuidarei sempre de ti, para que o povo escolhido permaneça fiel à vocação.

18Moisés lhe disse: Mostra-me a tua glória.

19O Senhor lhe respondeu: Eu te mostrarei todo o bem; e passando adiante de ti, pronunciarei o nome do Senhor. Eu me compadecerei de quem eu quiser, e usarei de clemência com quem fôr do meu agrado usá-la.

20Disse mais o Senhor: Tu não poderás ver o meu rosto: porque nenhum homem me verá sem morrer.

21Ainda o Senhor disse mais: Eis-aqui o lugar, onde eu costumo estar: e tu pôr-te-ás sôbre a pedra.

22E quando passar a minha glória, eu te porei ao buraco da pedra, e te cobrirei com a minha mão, até que eu tenha passado.

23Depois tirarei eu a minha mão, e tu me verás pelas costas: mas tu não poderás ver o meu rosto.

O Êxodo, em hebreu chamado veelle semoth, eis-aqui os nomes, em grego êxodos, saída, é o segundo livro do Pentateuco, escrito por Moisés; conta-nos o cativeiro dos israelitas no Egito, o jugo dos Faraós, e a libertação pela Providência Divina, que suscitou, no meio do povo escolhido, Moisés; narram-se os milagres que acompanharam o têrmo da escravidão; a promulgação da lei no Sinai e a construção do tabernáculo. O Êxodo divide-se em três partes: PRIMEIRA PARTE a) Os acontecimentos que precedem e preparam a saída do Egito: Compreende os doze primeiros capítulos e subdivide-se assim: 1.° Quadro da opressão de Israel, 1 — 2.° História dos primeiros quarenta anos da vida de Moisés, 2 — 3.° Vocação de Moisés e sua volta para o Egito, 3; 4. — 4.° Tentativas inúteis empregadas junto de Faraó para obter a liberdade de Israel, 5; 6 — 5.° Descrição das nove primeiras pragas que não comovem o Faraó, 7-10 — 6.° A décima praga, instituição da Páscoa, morte dos primogénitos e partida precipitada de Israel, 11; 12, 36. SEGUNDA PARTE b) Saída do Egito 12, 37; 18. Contém cinco subdivisões: 1.° Primeiros acampamentos dos hebreus; prescrições para a Páscoa; santificação dos primogênitos; aparição da coluna de nuvens, 12, 37; 13 — 2.° Passagem do Mar Vermelho, 14; 15, 21 — 3.° Viagem dos israelitas e primeiras estações no deserto; o maná: a água milagrosa, 15, 22; 17, 7 — 4.° Vitória alcançada sôbre os Amalecitas, 17, 8-16 — 5.° Visita de Jetro, 18. TERCEIRA PARTE c) Promulgação da lei no Monte Sinai e construção do tabernáculo: Abrange os capítulos 19-40. Subdivide-se: 1.° Conclusão da aliança entre Deus e os hebreus; chegada ao Sinai e preparativos para a promulgação da lei, 19 — 2.° Decálogo, 20 — 3.° Primeiras leis, 21-23, 19 — 4.° Advertências sôbre o ingresso na terra do Canaã, 23, 20; 24, 11 — 5.° Prescrições relativas à construção da Arca e do Tabernáculo, 24, 12; 27 — 6.° Prescrições referentes ao sacerdócio, 28-30 — 7.° Vocação de Belezeel, 31, 1-12 — 8.° A lei de sábado, 31, 12-18 — 9.° A apostasia do povo, adorando o bezerro de ouro; o arrependimento e a oração de Moisés, 32-35. — 10.° Construção do Tabernáculo 35-40. Por aqui se vê que êste livro é a continuação da história da formação da nacionalidade hebraica, e nêle encontramos bem traçada a figura do próprio autor, o grande legislador dos hebreus — Moisés — seu caráter, e a sua obra, obra importantíssima, que seria inexplicável se não recorrermos à intervenção da Providência, como o faz sinceramente o autor sagrado, que coloca sob os nossos olhos a ação de Deus manifestada em favor do seu povo, por tantas, tão variadas e tão evidentes formas.
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