Pe. Figueiredo (1950)

Capítulo 15

Cântico de ação de graças depois da passagem do Mar Vermelho. Acampamento em Mara, onde Moisés torna as águas doces.

1Então Moisés, e os filhos de Israel cantaram êste cântico ao Senhor, e disseram: Cantemos louvores ao Senhor, por ter feito brilhar a sua grandeza, e a sua glória, e porque precipitou no mar o cavalo, e o cavaleiro.

2O Senhor é a minha fortaleza, e o objeto dos meus louvores, porque se fêz meu salvador. Êle é que é o meu Deus, e eu celebrarei a sua glória: êle é o Deus de meu pai, e eu exaltarei a sua grandeza.

3O Senhor se houve como um guerreiro: o seu nome é o Todo Poderoso.

4Êle precipitou no mar as carroças, e o exército do Faraó: os mais notáveis dentre os seus príncipes foram submergidos no Mar Vermelho.

5Êles foram sepultados nos abismos: caíram no fundo como uma pedra.

6A tua destra, Senhor, se assinalou no muito que fêz brilhar a sua fôrça: a tua destra, Senhor, feriu o inimigo.

7E tu deitaste abaixo os teus adversários com a grandeza da tua glória: tu mandaste a tua ira, que os devorou como uma palha.

8Tu excitaste o vento do teu furor, e ao seu assopro se congregaram as águas. A corrente da água parou, e os abismos se ajuntaram no meio do mar.

9O inimigo disse: Eu os perseguirei, e os alcançarei. Eu repartirei os seus despojos, e a minha alma ficará farta. Eu desembainharei a minha espada, e a minha mão os fará cair mortos.

10Mas tanto que o teu vento assoprou, o mar os cobriu. Êles caíram como chumbo no fundo das grandes águas.

11Quem dentre os Heróis te é semelhante a ti, Senhor? Quem te é semelhante a ti, que és grande em santidade, que és terrível, que és digno de todos os louvores pelas maravilhas que obras.

12Tu estendeste a tua mão, e a terra os devorou.

13Tu na tua misericórdia te fizeste o condutor do povo, que remiste: e tu na tua fortaleza o levaste até à tua santa morada.

14Os povos se levantaram, e se iraram: uma profunda dor se apossou dos filisteus.

15Os príncipes de Edom se turbaram: o espanto surpreendeu os valentes de Moab; todos os habitantes de Canaã ficaram enregelados.

16Caia sôbre êles o mêdo e o pavor, a efeito do poder do teu braço: êles se tornem imóveis como uma pedra, até que passe o teu povo, Senhor; até que passe êste teu povo, que tu adquiriste para ti.

17Tu os conduzirás, Senhor, e tu os estabelecerás no monte da tua herança, nesta firmíssima habitação, que tu te preparaste; neste Santuário, Senhor, que as tuas mãos firmaram.

18O Senhor reinará na eternidade, e além da eternidade.

19Porque Faraó entrou a cavalo no mar com as suas carroças, e cavalaria: e o Senhor fêz que tornassem sôbre êles as águas do mar. Os filhos de Israel porém caminharam a pé enxuto pelo meio dêle.[1]O FARAÓ ENTROU A CAVALOTanto no original hebraico ki bó sus pharaó, como na versão dos Setenta, está os cavalos de Faraó entraram, isto é, o estado do mesmo, carros de guerra, munições, etc., e não o Faraó, porque Meneftá não morreu no Mar Vermelho, e o texto original não o diz como se vê. Cfr. Vigouroux, ob. cit.

20Maria Profetisa, irmã de Aarão, pegou num tambor, e tôdas as mulheres foram atrás dela com tambores formando coros.

21E Maria era a primeira que cantava, dizendo: Cantemos louvores ao Senhor, por ter feito brilhar a sua grandeza, e a sua glória; e porque precipitou no mar o cavalo, e o cavaleiro.

22Depois logo que Moisés fêz partir os israelitas do Mar Vermelho, entraram êles no deserto de Sur: e como tivessem andado três dias pela solidão, não achavam água.

23Enfim chegaram a Mara, e não podiam beber das águas de Mara, porque eram amaras. Por isso a êste lugar lhe foi pôsto um nome bem congruente, qual é o de Mara, que quer dizer amargura.

24Então murmurou o povo contra Moisés, dizendo: Que havemos nós de beber?

25Porém Moisés clamou ao Senhor, o qual lhe mostrou um pau, que êle lançou nas águas, e as águas se tornaram doces. Ali lhe deu Deus certos preceitos, e certas ordenanças: e ali tentou êle o povo dizendo:

26Se tu obedeceres à voz do Senhor teu Deus, e obrares o que é reto diante de seus olhos; se obedeceres aos seus mandamentos, e guardares todos os seus preceitos, eu vos não ferirei com enfermidade alguma das com que feri o Egito: porque eu sou o Senhor, que te sara.

27Depois vieram os filhos de Israel a Elim, onde havia doze fontes, e setenta palmeiras, e êles se acamparam ao pé das águas.[2]ELIMÉ um oásis situado a 86 quilómetros de Ayoun Mouça. Dão-se aí palmeiras selvagens, tâmaras, e outras plantas, perpètuamente regadas por um límpido riacho. Na primavera, isto é, na época em que os hebreus aí estiveram, êste regato subdivide-se e forma algumas lagoas, que são as doze fontes cantadas por Moisés.

O Êxodo, em hebreu chamado veelle semoth, eis-aqui os nomes, em grego êxodos, saída, é o segundo livro do Pentateuco, escrito por Moisés; conta-nos o cativeiro dos israelitas no Egito, o jugo dos Faraós, e a libertação pela Providência Divina, que suscitou, no meio do povo escolhido, Moisés; narram-se os milagres que acompanharam o têrmo da escravidão; a promulgação da lei no Sinai e a construção do tabernáculo. O Êxodo divide-se em três partes: PRIMEIRA PARTE a) Os acontecimentos que precedem e preparam a saída do Egito: Compreende os doze primeiros capítulos e subdivide-se assim: 1.° Quadro da opressão de Israel, 1 — 2.° História dos primeiros quarenta anos da vida de Moisés, 2 — 3.° Vocação de Moisés e sua volta para o Egito, 3; 4. — 4.° Tentativas inúteis empregadas junto de Faraó para obter a liberdade de Israel, 5; 6 — 5.° Descrição das nove primeiras pragas que não comovem o Faraó, 7-10 — 6.° A décima praga, instituição da Páscoa, morte dos primogénitos e partida precipitada de Israel, 11; 12, 36. SEGUNDA PARTE b) Saída do Egito 12, 37; 18. Contém cinco subdivisões: 1.° Primeiros acampamentos dos hebreus; prescrições para a Páscoa; santificação dos primogênitos; aparição da coluna de nuvens, 12, 37; 13 — 2.° Passagem do Mar Vermelho, 14; 15, 21 — 3.° Viagem dos israelitas e primeiras estações no deserto; o maná: a água milagrosa, 15, 22; 17, 7 — 4.° Vitória alcançada sôbre os Amalecitas, 17, 8-16 — 5.° Visita de Jetro, 18. TERCEIRA PARTE c) Promulgação da lei no Monte Sinai e construção do tabernáculo: Abrange os capítulos 19-40. Subdivide-se: 1.° Conclusão da aliança entre Deus e os hebreus; chegada ao Sinai e preparativos para a promulgação da lei, 19 — 2.° Decálogo, 20 — 3.° Primeiras leis, 21-23, 19 — 4.° Advertências sôbre o ingresso na terra do Canaã, 23, 20; 24, 11 — 5.° Prescrições relativas à construção da Arca e do Tabernáculo, 24, 12; 27 — 6.° Prescrições referentes ao sacerdócio, 28-30 — 7.° Vocação de Belezeel, 31, 1-12 — 8.° A lei de sábado, 31, 12-18 — 9.° A apostasia do povo, adorando o bezerro de ouro; o arrependimento e a oração de Moisés, 32-35. — 10.° Construção do Tabernáculo 35-40. Por aqui se vê que êste livro é a continuação da história da formação da nacionalidade hebraica, e nêle encontramos bem traçada a figura do próprio autor, o grande legislador dos hebreus — Moisés — seu caráter, e a sua obra, obra importantíssima, que seria inexplicável se não recorrermos à intervenção da Providência, como o faz sinceramente o autor sagrado, que coloca sob os nossos olhos a ação de Deus manifestada em favor do seu povo, por tantas, tão variadas e tão evidentes formas.
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