Capítulo 32
1Mas o povo, vendo que Moisés não acabava de descer do monte, se ajuntou contra Aarão, e lhe disse: Vem fazer-nos deuses, que vão adiante de nós: porque pelo que toca a Moisés, a êste homem, que nos tirou do Egito, nós não sabemos o que lhe aconteceu.[1]DEUSES, QUE VÃO ADIANTE DE NÓS — E' a necessidade, diz Vigouroux, ob. cit., que o homem tem de possuir um sinal sensível da presença de Deus, e para satisfazer a ela ordenou o Senhor a construção da Arca.
2Aarão lhes disse: Tirai as arrecadas de ouro, que vossas mulheres, filhos, e filhas trazem nas orelhas, e trazei-mas.[2]AS ARRECADAS DE OURO — Não pode isto causar justificada estranheza desde que nos recordemos de que as mulheres de Israel tinham vindo do Egito, onde se haviam acomodado aos costumes da terra, e aí, como é sabido, as mulheres traziam sempre anéis, brincos, braceletes e outras jóias.
3Fêz o povo o que Aarão lhe mandara, e trouxe-lhe as arrecadas.
4Aarão depois que as recebeu, fundiu-as, e formou delas um bezerro. Então disseram os israelitas: Eis-aqui, ó Israel, os teus deuses, que te tiraram do Egito.[3]FUNDIU-AS — Pelos dados fornecidos pela Egiptologia sabemos que os egípcios eram muito peritos na fundição dos metais; não admira pois que os hebreus aí tivessem praticado igual arte. Sabe-se também que os egípcios exploravam minas na península do Sinai, onde havia o que era preciso para a fundição e trabalho do ouro. UM BEZERRO — Isto mostra-nos um povo vindo do Egito, único país, aonde se prestava culto ao Boi Ápis, e que se recordava das práticas idolátricas a que tinha assistido; Cfr. At 7, 39 s.
5O que tendo visto Aarão, erigiu um altar diante do bezerro, e à voz do pregoeiro clamou: Amanhã é a solenidade do Senhor.
6E êles, tendo-se levantado pela manhã, ofereceram holocaustos, e hóstias pacíficas. Todo o povo se assentou a comer e beber, e depois se levantaram a brincar.
7Então falou o Senhor a Moisés, e lhe disse: Vai, desce: porque o teu povo, que tu tiraste do Egito, pecou.
8Êles se apartaram bem depressa do caminho que tu lhes havias mostrado. Fizeram para si um bezerro fundido, adoraram-no, e imolando-lhe vítimas, disseram: Êstes são, ó Israel, os teus Deuses, que te tiraram do Egito.
9Ainda disse mais o Senhor a Moisés: Eu vejo que êste povo é de cerviz dura.
10Deixa, que o furor da minha indignação se acenda contra êles, e que eu os consuma, e eu te farei a ti chefe de um grande povo.
11Porém Moisés conjurava o Senhor seu Deus, dizendo-lhe: Por que se acende o teu furor contra um povo teu, que tu tiraste do Egito com uma grande fôrça, e com uma poderosa mão?
12Não permitas, te rogo, que digam os egípcios: Êle os tirou do Egito astutamente para os matar nos montes, e para os extinguir da terra. Aplaque-se a tua ira, e deixa-te dobrar para perdoares ao teu povo a sua iniquidade.
13Lembra-te de Abraão, de Isaac, e de Israel teus servos, aos quais tu juraste por ti mesmo, dizendo: Eu multiplicarei a vossa descendência, como as estrêlas do céu; e eu darei à vossa posteridade tôda esta terra, de que eu falei, e vós a possuireis para sempre.
14Então se apaziguou o Senhor, para não fazer contra o seu povo o mal, que tinha dito.
15Voltou Moisés pois de cima do monte, trazendo na sua mão as duas tábuas do testemunho, escritas de ambas as partes.
16Elas eram obra de Deus, como o era a escritura, que estava gravada nelas.
17Ora Josué ouvindo o tumulto, e a vozeria do povo, disse para Moisés: No campo ouve-se alarido de quem peleja.[4]JOSUÉ OUVINDO O TUMULTO — Tudo ali era silêncio, e por isso o barulho ressoava ao longe, produzindo eco muito mais forte.
18Ao que respondeu Moisés: Isto não é gritar de pessoas, que se exortam para combater; nem vozeria de gente, que obriga o seu inimigo a fugir: mas o que eu ouço são vozes de pessoas, que cantam.
19E tendo-se aproximado ao campo, viu o bezerro, e as danças. Então irado na última diferença, atirou as tábuas que trazia na mão em terra, e as quebrou na falda do monte.[5]E TENDO-SE APROXIMADO DO CAMPO — Os monges de Sinai mostram ao viajante o lugar em que foi adorado o bezerro de ouro: é o monte Haroun. Vigouroux considera esta tradição inverossímil, e inclina-se para Schreich, conf. Ob. cit.
20E pegando no bezerro, que êles tinham feito, lançou-o no fogo, e o reduziu em cinza, que lançou na água, e fêz que dela bebessem os filhos de Israel.
21Depois disse Moisés a Aarão: Que te fêz êste povo para tu o carregares com um tão grande pecado?
22Êle lhe respondeu: Não se ire meu Senhor: Porque tu sabes muito bem, quanto êste povo é propenso para o mal.[6]ÊLE LHE RESPONDEU — S. Ambrósio aprecia desta maneira o proceder de Aarão: Nem podemos sòmente desculpar o sacerdote, nem nos atrevemos a condenar. "Neque excusare tantum sacerdotem possumus, neque condemnare audemus". Epist. LVI ad Romulum, n.º 2.
23Êles me disseram: Faz-nos deuses, que vão adiante de nós: Porque nós não sabemos que é o que aconteceu a êste Moisés que nos tirou do Egito.
24Eu lhes disse: Qual dentre vós tem ouro? Trouxeram-no, e deram-mo: e eu o lancei no fogo, e saiu êste bezerro.
25Moisés pois vendo que o povo tinha ficado nu, (pois Aarão o tinha despojado com esta vergonhosa abominação, e o tinha posto nu no meio de seus inimigos),
26pôs-se à porta do campo, e disse: Se algum é do Senhor, ajunte-se comigo. E tendo-se ajuntado à roda dêle todos os filhos de Levi, lhes disse:
27Eis-aqui o que diz o Senhor Deus de Israel: Cada homem meta a sua espada à cinta: passai, e tornai a passar, atravessando o campo duma porta à outra; e cada um mate seu irmão, seu amigo, e o que lhe fôr mais chegado.
28Fizeram os filhos de Levi o que Moisés tinha ordenado, e foram quase vinte e três mil homens, os que caíram mortos aquêle dia.[7]VINTE E TRÊS MIL HOMENS — Parece que a palavra "vinte" está aqui a mais, por um êrro dos copistas, pois não se encontra nem no original hebraico, nem nas paráfrases caldaica, siríaca. Setenta; esta é a opinião de S. Ambrósio, (Ep. VI ad Romulum) e Optato e Isidoro.
29Então lhes disse Moisés: Cada um de vós consagrou hoje as suas mãos ao Senhor, matando seu filho, e seu irmão, para vos ser dada a bênção.
30Ao outro dia disse Moisés ao povo: Vós cometestes um grandíssimo pecado. Eu subirei onde está o Senhor, a ver se de algum modo o posso dobrar, e alcançar dêle perdão do vosso crime.
31E tendo voltado para o Senhor, lhe disse: Êste povo cometeu um grandíssimo pecado, e êles fizeram para si deuses de ouro. Mas eu te conjuro, que ou tu lhe perdoes êste delito,
32ou se o não fazes, me apagues do teu livro, que escreveste.[8]ME APAGUES DE TEU LIVRO — Os melhores autores entendem que se trata aqui do livro da vida e que Moisés queria dizer, que fazia o sacrifício da sua vida pelo seu povo; é a opinião de S. Jerônimo e S. Gregório Magno, geralmente seguida. Outros quiseram ver nestas palavras uma alusão ao livro dos predestinados da vida eterna, e que Moisés quisesse significar, por uma expressão hiperbólica de sua ardente caridade, que estava pronto a sacrificar a sua própria salvação em favor de seus irmãos. (Cf. Vigouroux, ob. cit.) Nos Núm 11, 15 oferece o sacrifício da sua vida.
33O Senhor lhe respondeu: Eu apagarei do meu livro aquêle, que pecar contra mim.
34Tu porém, vai, e conduze o povo ao lugar, que eu te disse. O meu anjo irá adiante de ti: Mas no dia da vingança visitarei eu êste pecado, que êle cometeu.
35Feriu pois o Senhor o povo pelo crime do bezerro, que Aarão lhe tinha feito.