Pe. Figueiredo (1950)

Capítulo 25

Ordenações do Senhor acêrca da construção da arca, e da mesa dos pães da proposição, e do candieiro de ouro.

1Falou pois o Senhor a Moisés, e lhe disse:

2Ordena aos filhos de Israel, que me ponham à parte os presentes, que me hão de fazer: Vós os recebereis de todos aquêles que mos oferecerem instantâneamente.

3Eis-aqui as coisas, que vós deveis receber: ouro, prata, bronze,

4jacintos, púrpura, escarlata tinta duas vêzes, linho fino, peles de cabra,

5peles de carneiro tintas de vermelho, e outras roxas, e paus de cetim:[1]E OUTRAS ROXASSão as peles do dugang, anfíbio vulgar no Mar Vermelho. PAUS DE CETIM — O cetim é a acácia, quase desconhecida na terra de Canaã, mas frequente na península do Sinai. A acácia reúne tôdas as qualidades necessárias para o uso que Moisés lhe queria dar. É muito leve, qualidade excelente para os israelitas, que tinham de conduzir consigo as tábuas do tabernáculo, tôdas as vêzes que mudassem de acampamento; é dura e conserva-se muito tempo; com os anos adquire uma côr escura, semelhante ao ébano; pode servir para o fabrico de móveis, como fizeram os hebreus no deserto para os objetos de culto.

6azeite para conservar as lâmpadas, aromas para confeccionar os óleos, e perfumes do mais suave cheiro:

7pedras cornalinas, e outras pedras preciosas para se ornar o efod, e o racional.[2]EFODEstá descrito minuciosamente no c. 28, v. 5-14. RACIONAL — Encontra-se a descrição no v. 15 do mesmo c.

8Êles me farão um santuário, para que eu habite no meio dêles,

9o qual santuário será conforme a exatíssima planta, que eu te hei-de mostrar do tabernáculo; como também o será o modêlo dos vasos, que nêle hão de servir. Eis-aqui como vós fareis êste santuário.[3]TABERNÁCULOAdiante falaremos dêste Tabernáculo.

10Fareis uma arca de pau de cetim, que tenha dois côvados e meio de comprido, côvado e meio de largo, e côvado e meio de alto.[4]FAREIS UMA ARCAOs egípcios colocavam, em cada templo, uma bari ou barça santa, onde estava o naos, em que se guardavam os emblemas religiosos, em honra dum deus, e que era conduzida procissionalmente nas grandes solenidades. Moisés, por inspiração divina, adaptou êste uso egípcio à religião mosaica, com o enorme cuidado de arredar tudo quanto não fôsse conforme à santidade do culto de Iahvéh. Esta arca, chamada da aliança, era um cofre em madeira de cetim ou acácia, revestido interna e externamente de lâminas de ouro: tinha cêrca de 1m,30 de comprimento e 0m,80 de largura e altura. Encimava-a uma espécie de coroa de ouro. Nos quatro ângulos estavam fixos outros tantos anéis de ouro, que prendiam varais da mesma madeira, a fim de poder ser transportada fàcilmente, à frente de Israel, dum acampamento para outro. Dois querubins de ouro postados em frente um do outro, nas duas extremidades, com as asas estendidas, velavam o propiciatório. Deus permitiu estas imagens para que o seu povo se compenetrasse da adoração que era devida ao Criador, e para que se lembrasse de que os querubins estão incessantemente adorando o Eterno. No propiciatório residia a Majestade de Deus, e a arca não era mais do que um sinal sensível da presença do Ser Supremo entre o seu povo. Ali tudo era de molde a levantar o espírito do povo até Deus, não permitindo que descesse a rojar-se na idolatria. Deus deu a arca ao povo escolhido para que êste tivesse sob os seus olhos um objeto material que simbolizasse o culto e excitasse a piedade. Colocada na Sancta Sanctorum, no lugar mais sagrado do santuário, e de ordinário invisível a todos os olhares como a divindade que representava, excluía eficazmente todo o ídolo da religião mosaica. Chamava-se arca de aliança, porque continha as tábuas da lei (Êx 34, 29), que eram o resumo das condições da aliança de Deus com o seu povo.

11Tu a dourarás de ouro puríssimo por dentro, e por fora, e pôr-lhe-ás em cima uma coroa de ouro, que apanhe tudo em roda.

12Porás quatro argolas de ouro nos quatro cantos da arca, duas duma banda, e duas da outra.

13Farás também uns varais de pau de cetim, que cobrirás de ouro.

14e os meterás nas argolas, que estão aos lados da arca, para ela ser levada por êles.

15Êstes varais estarão sempre metidos nas argolas, e nunca se tirarão delas.

16Meterás na arca as tábuas da lei, que te hei de dar.

17Farás outrossim um propiciatório de finíssimo ouro, que terá dois côvados e meio de comprido, e côvado e meio de largo.[5]PROPICIATÓRIOEra a tampa da arca, e dava-se-lhe êste nome porque daí Deus escutava as preces do seu povo. Por aqui se vê que o Antigo Testamento é o tipo e a figura da Nova Aliança. Na Lei Mosaica, Deus manifestava a sua presença entre os dois querubins, sôbre o propiciatório da Arca da Aliança, na Lei Nova, Deus habita pela Eucaristia entre os homens tão real e perfeitamente como no céu. O Antigo Testamento é a sombra, o Novo a realidade. Cfr. Martin Becano S. J. Analogia veteris ac novi Testamenti, e os trabalhos de J. Knabenbauer, S. J.

18Porás nas duas extremidades do oráculo dois querubins de ouro batido:

19Um querubim duma parte, outro doutra.

20Êles com as suas asas estendidas cobrirão ambos os lados do propiciatório, e o oráculo, e estarão olhando um para o outro com os rostos virados para o propiciatório que cobre a arca,

21na qual tu meterás as tábuas da lei, que eu te hei de dar.

22Daí é que eu te darei as minhas ordens. Eu te falarei de cima do propiciatório, do meio dos dois querubins, que estarão sôbre a arca do testemunho, dizendo-te tudo o que eu quiser que tu intimes aos filhos de Israel.

23Farás também uma mesa de madeira de cetim, que terá dois côvados de comprido, um côvado de largo, e côvado e meio de alto.

24Cobri-la-ás de ouro puríssimo, e guarnecê-la-ás tôda em roda de um friso de ouro.

25Porás sôbre esse friso uma coroa de quatro dedos de alto, com seus ornatos de escultura, e sôbre esta outra pequena coroa de ouro.

26Farás também quatro argolas de ouro, as quais porás nos quatro cantos da mesma mesa, uma em cada pé.

27As argolas de ouro estarão por baixo da coroa, para por elas passarem os varais, quando se quiser levar a mesa.

28Farás também de pau de cetim êstes varais, sôbre que se leve a mesa, e cobri-los-ás de ouro.

29Farás outrossim de puríssimo ouro pratos, copos, turíbulos e taças, em que se hajam de lançar os licores, que se oferecerem.

30E porás sôbre esta mesa os pães da proposição, que estarão sempre expostos na minha presença.

31Farás também um candieiro de ouro finíssimo, batido ao martelo, com seu tronco, suas hastes, e seus ornatos em forma de copos, seus pomos, e suas açucenas, que sairão dêle.[6]UM CANDIEIRONos antigos cemitérios judaicos, em diversos monumentos antigos e ainda no Arco do triunfo de Tito, em Roma, vêem-se representações dos dez candieiros do Templo de Jerusalém, feitos segundo êste modêlo. Êste candieiro era de ouro puro; compunha-se duma haste de ouro, terminada por uma lâmpada; desta haste saíam seis ramos, três de cada lado, encimados por outras lâmpadas, iguais à primeira. De dia conservavam-se três acesas, e à noite tôdas, sendo os sacerdotes encarregados de alimentar e vigiar estas luzes. O candieiro colocava-se do lado do norte. Entre êste candieiro e a mesa dos pães estava o altar dos perfumes, onde se queimava o incenso. No museu do Louvre, na sala judaica, guarda-se um baixo relêvo encontrado em Tiberíades, que reproduz o candieiro de sete braços.

32Sairão dos lados do tronco seis hastes, três duma parte, três da outra.

33Uma haste terá três copos do feitio de nozes, cada um com seu pomo, e sua açucena: outra haste terá da mesma sorte três copos do feitio de nozes, cada um com seu pomo, e sua açucena; e tôdas as seis hastes, que sairão do tronco, serão da mesma sorte.

34Mas o tronco do candieiro terá quatro copos do feitio de nozes, acompanhados cada um de seu pomo, e de sua açucena.

35Afora isto, haverá três pomos em três lugares do tronco, e de cada pomo sairão duas hastes, que farão ao todo seis hastes, nascendo dum mesmo tronco.

36Do candieiro pois sairão êstes pomos, e estas hastes, tudo de puríssimo ouro, batido ao martelo.

37Farás outrossim sete lâmpadas, que porás em cima do candieiro, para esclarecerem o que estiver defronte.

38Farás também seus espevitadores, e suas caldeirinhas, onde se apague o murrão, que se tiver tirado das lâmpadas, tudo de puríssimo ouro.

39O candieiro com tôdas as suas peças terá de pêso um talento de ouro puríssimo.

40Toma bem sentido, e faze tudo conforme o modêlo, que te foi mostrado no monte.[7]CONFORME O MODÊLOEm virtude desta terminante ordem tudo quanto posteriormente se construiu no templo de Jerusalém era a cópia fiel do que aqui está preceituado.

O Êxodo, em hebreu chamado veelle semoth, eis-aqui os nomes, em grego êxodos, saída, é o segundo livro do Pentateuco, escrito por Moisés; conta-nos o cativeiro dos israelitas no Egito, o jugo dos Faraós, e a libertação pela Providência Divina, que suscitou, no meio do povo escolhido, Moisés; narram-se os milagres que acompanharam o têrmo da escravidão; a promulgação da lei no Sinai e a construção do tabernáculo. O Êxodo divide-se em três partes: PRIMEIRA PARTE a) Os acontecimentos que precedem e preparam a saída do Egito: Compreende os doze primeiros capítulos e subdivide-se assim: 1.° Quadro da opressão de Israel, 1 — 2.° História dos primeiros quarenta anos da vida de Moisés, 2 — 3.° Vocação de Moisés e sua volta para o Egito, 3; 4. — 4.° Tentativas inúteis empregadas junto de Faraó para obter a liberdade de Israel, 5; 6 — 5.° Descrição das nove primeiras pragas que não comovem o Faraó, 7-10 — 6.° A décima praga, instituição da Páscoa, morte dos primogénitos e partida precipitada de Israel, 11; 12, 36. SEGUNDA PARTE b) Saída do Egito 12, 37; 18. Contém cinco subdivisões: 1.° Primeiros acampamentos dos hebreus; prescrições para a Páscoa; santificação dos primogênitos; aparição da coluna de nuvens, 12, 37; 13 — 2.° Passagem do Mar Vermelho, 14; 15, 21 — 3.° Viagem dos israelitas e primeiras estações no deserto; o maná: a água milagrosa, 15, 22; 17, 7 — 4.° Vitória alcançada sôbre os Amalecitas, 17, 8-16 — 5.° Visita de Jetro, 18. TERCEIRA PARTE c) Promulgação da lei no Monte Sinai e construção do tabernáculo: Abrange os capítulos 19-40. Subdivide-se: 1.° Conclusão da aliança entre Deus e os hebreus; chegada ao Sinai e preparativos para a promulgação da lei, 19 — 2.° Decálogo, 20 — 3.° Primeiras leis, 21-23, 19 — 4.° Advertências sôbre o ingresso na terra do Canaã, 23, 20; 24, 11 — 5.° Prescrições relativas à construção da Arca e do Tabernáculo, 24, 12; 27 — 6.° Prescrições referentes ao sacerdócio, 28-30 — 7.° Vocação de Belezeel, 31, 1-12 — 8.° A lei de sábado, 31, 12-18 — 9.° A apostasia do povo, adorando o bezerro de ouro; o arrependimento e a oração de Moisés, 32-35. — 10.° Construção do Tabernáculo 35-40. Por aqui se vê que êste livro é a continuação da história da formação da nacionalidade hebraica, e nêle encontramos bem traçada a figura do próprio autor, o grande legislador dos hebreus — Moisés — seu caráter, e a sua obra, obra importantíssima, que seria inexplicável se não recorrermos à intervenção da Providência, como o faz sinceramente o autor sagrado, que coloca sob os nossos olhos a ação de Deus manifestada em favor do seu povo, por tantas, tão variadas e tão evidentes formas.
📄 PDF
📄 Original