Pe. Figueiredo (1950)

Capítulo 5

Moisés e Aarão se apresentam diante de Faraó. Éste oprime de novos trabalhos os israelitas. Queixas dos israelitas contra Moisés e Aarão.

1Passado isto, Moisés e Aarão foram ter com Faraó e lhe disseram: Eis aqui o que diz o Senhor Deus de Israel: Deixa ir o meu povo, para que êle me sacrifique no deserto.[1]MOISÉS E AARÃOOs fatos narrados neste e nos seguintes capítulos passaram-se em Tanis, no Baixo Egito (Sl 77, 12-43). Esta cidade estava na margem direita do braço do Nilo, que tomava o seu nome.

2Mas Faraó respondeu: Quem é o Senhor, para eu estar obrigado a ouvir a sua voz, e a deixar sair Israel? Eu não conheço esse Senhor, e não deixarei sair Israel.

3Prosseguiram êles, e lhe disseram: O Deus dos hebreus nos ordenou, que fôssemos caminho de três jornadas ao deserto a sacrificar ao Senhor nosso Deus, para que não suceda sermos feridos da peste, ou da espada.

4O rei do Egito lhes respondeu: Moisés e Aarão, por que retraís vós o povo das suas obras? Ide ao vosso trabalho.

5Disse mais Faraó: Êste povo tem-se multiplicado muito: vós bem vêdes que a turba cada vez é maior. Que será, se vós a aliviardes qualquer coisa do seu trabalho?

6Naquele dia, pois, deu o rei esta ordem aos intendentes das obras, e aos exatores do povo e lhes disse:

7Não torneis a dar palha, como antes, a êste povo para fazer tijolo: mas sejam êles mesmos os que a vão buscar.[2]PARA FAZER TIJOLOPor uma pintura do túmulo de Recamara em Gourná, perto de Tebas, conhecemos as diferentes fases da fabricação do tijolo. Vêem-se os estrangeiros, que são os cativos tomados por Sua Majestade para a construção do templo de seu pai Amon, segundo se lê na inscrição, ocupados uns a extrair a terra, outros a tirar água, outros a amassar argila, outros a colocar os tijolos nos moldes de madeira, enquanto que os egípcios armados de varas os vigiavam e os obrigavam ao acabamento rápido da obra.

8E não deixeis de os executar pela mesma quantidade de tijolo, que êles davam antes, sem lhes diminuir nada. Porque êles não têm que fazer, e por isso gritam, dizendo: Vamos sacrificar ao nosso Deus.

9Carregai-os de trabalho; e êles que ponham para ali tudo o que se lhes pedir, para que não deem ouvidos a palavras mentirosas.

10Então foram os intendentes das obras, e os exatores do povo, e disseram: Eis aqui a ordem de Faraó: eu não vos torno a dar palha.

11Ide vós mesmos buscá-la onde quer que fôr, e ainda assim eu não diminuirei nada das vossas obras.

12Espalhou-se pois o povo por todo o Egito a ajuntar palha.

13E os que tinham a intendência das obras instavam com êles, dizendo: Dai todos os dias a mesma quantidade de tijolo, que costumáveis dar, quando se vos punha pronta a palha.

14Aquêles pois dentre os hebreus, que estavam encarregados das obras dos filhos de Israel, foram açoutados pelos exatores de Faraó, e êstes diziam: Por que não destes vós nem ontem, nem hoje a mesma quantidade de tijolo, que dáveis antes?

15Então êstes hebreus, que estavam encarregados de fazer trabalhar os filhos de Israel, vieram ter com Faraó, e lhes disseram: Por que maltratas tu assim os teus servos?

16A nós já se nos não dá a palha, e ainda assim manda-se que demos o mesmo número de tijolo, que antes. Eis aqui somos açoutados, nós, que somos teus servos, e injustamente é atormentado o teu povo.[3]EIS AQUI SOMOS AÇOUTADOSA bastonada era tão frequente como cruel no Egito, e encontra-se frequentemente insculpida nos monumentos da antiguidade.

17Faraó lhes respondeu: Vós estais ociosos, e isto é o que vos faz dizer: Vamos sacrificar ao Senhor.

18Ide pois, e trabalhai: não se vos há de dar palha, e vós cada dia haveis de pôr pronta a mesma quantidade de tijolo.

19Assim os que dentre os hebreus estavam incumbidos das obras dos filhos de Israel, se viram postos na maior extremidade, por causa de que se lhes não queria diminuir nada do número do tijolo, que haviam de dar cada dia.

20E vindo ter com Moisés, e Aarão, que estavam perto dali esperando, que êles saíssem da presença de Faraó, lhes disseram:

21O Senhor veja, e êle julgue entre nós, e vós: porque vós nos pusestes em mau cheiro diante de Faraó, e diante de seus servos; e vós lhe metestes a espada na mão para nos matar.

22Moisés, tornando-se a voltar para o Senhor, lhe disse: Senhor, por que afligiste tu êste povo? por que me enviaste?

23Pois desde que eu me apresentei a Faraó, para lhe falar em teu nome, êle atormentou o teu povo, e tu não o livraste.[4]ATORMENTOU O TEU POVOEm 1895, no mês de dezembro, achou-se em Tebas uma inscrição alusiva a esta perseguição de Meneftá. Coisa notável, os hebreus são designados neste monumento pelo seu nome de israelitas. Por aí se vê que a intenção de Meneftá era aniquilar no Egito os filhos de Israel, pois diz claramente que êles não terão posteridade.

O Êxodo, em hebreu chamado veelle semoth, eis-aqui os nomes, em grego êxodos, saída, é o segundo livro do Pentateuco, escrito por Moisés; conta-nos o cativeiro dos israelitas no Egito, o jugo dos Faraós, e a libertação pela Providência Divina, que suscitou, no meio do povo escolhido, Moisés; narram-se os milagres que acompanharam o têrmo da escravidão; a promulgação da lei no Sinai e a construção do tabernáculo. O Êxodo divide-se em três partes: PRIMEIRA PARTE a) Os acontecimentos que precedem e preparam a saída do Egito: Compreende os doze primeiros capítulos e subdivide-se assim: 1.° Quadro da opressão de Israel, 1 — 2.° História dos primeiros quarenta anos da vida de Moisés, 2 — 3.° Vocação de Moisés e sua volta para o Egito, 3; 4. — 4.° Tentativas inúteis empregadas junto de Faraó para obter a liberdade de Israel, 5; 6 — 5.° Descrição das nove primeiras pragas que não comovem o Faraó, 7-10 — 6.° A décima praga, instituição da Páscoa, morte dos primogénitos e partida precipitada de Israel, 11; 12, 36. SEGUNDA PARTE b) Saída do Egito 12, 37; 18. Contém cinco subdivisões: 1.° Primeiros acampamentos dos hebreus; prescrições para a Páscoa; santificação dos primogênitos; aparição da coluna de nuvens, 12, 37; 13 — 2.° Passagem do Mar Vermelho, 14; 15, 21 — 3.° Viagem dos israelitas e primeiras estações no deserto; o maná: a água milagrosa, 15, 22; 17, 7 — 4.° Vitória alcançada sôbre os Amalecitas, 17, 8-16 — 5.° Visita de Jetro, 18. TERCEIRA PARTE c) Promulgação da lei no Monte Sinai e construção do tabernáculo: Abrange os capítulos 19-40. Subdivide-se: 1.° Conclusão da aliança entre Deus e os hebreus; chegada ao Sinai e preparativos para a promulgação da lei, 19 — 2.° Decálogo, 20 — 3.° Primeiras leis, 21-23, 19 — 4.° Advertências sôbre o ingresso na terra do Canaã, 23, 20; 24, 11 — 5.° Prescrições relativas à construção da Arca e do Tabernáculo, 24, 12; 27 — 6.° Prescrições referentes ao sacerdócio, 28-30 — 7.° Vocação de Belezeel, 31, 1-12 — 8.° A lei de sábado, 31, 12-18 — 9.° A apostasia do povo, adorando o bezerro de ouro; o arrependimento e a oração de Moisés, 32-35. — 10.° Construção do Tabernáculo 35-40. Por aqui se vê que êste livro é a continuação da história da formação da nacionalidade hebraica, e nêle encontramos bem traçada a figura do próprio autor, o grande legislador dos hebreus — Moisés — seu caráter, e a sua obra, obra importantíssima, que seria inexplicável se não recorrermos à intervenção da Providência, como o faz sinceramente o autor sagrado, que coloca sob os nossos olhos a ação de Deus manifestada em favor do seu povo, por tantas, tão variadas e tão evidentes formas.
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