Pe. Figueiredo (1950)

Capítulo 34

Sobe Moisés ao monte. Deus lhe mostra a sua glória, e renova as principais condições da aliança, que êle tinha feito com o seu povo. Moisés desce trazendo a cabeça cercada de raios.

1Depois disse o Senhor a Moisés: Corta duas tábuas de pedra, que sejam como as primeiras: e eu escreverei nelas as palavras, que estavam nas tábuas, que tu quebraste.[1]DUAS TÁBUAS DE PEDRAAs primeiras, quebradas por Moisés à vista do bezerro de ouro (Êx 32, 19), tinham sido dadas pelo próprio Deus. Será, pois, para os israelitas um castigo permanente de sua idolatria momentânea, ter, nestas segundas tábuas da lei, uma obra inferior à primeira une oeuvre moins entièrement divine qu'e n'etaient les premières. (Vigouroux, Ob. cit.).

2Está pronto pela manhã para subires logo ao monte Sinai, e estarás comigo no pino do monte.

3Não suba ninguém contigo, nem apareça nenhum por todo o monte; nem ainda bois, ou ovelhas se apascentem defronte.

4Cortou Moisés pois duas tábuas de pedra, tais como as primeiras: e, levantando-se antes de amanhecer, subiu ao monte Sinai, levando consigo as duas tábuas, conforme o Senhor lhe tinha ordenado.

5Então tendo descido o Senhor no meio da nuvem, Moisés se pôs na sua presença, invocando o nome do Senhor.[2]INVOCANDO O NOME DO SENHORNo texto hebraico está que Deus pronunciou o Seu nome, sinal que tinha indicado a Moisés, 33, 19. Carrières traduziu assim: Então tendo descido o Senhor no meio da nuvem, se apresentou a Moisés e pronunciou em alta voz o nome de Jeová. E assim interpreta Calmet.

6E a tempo que o Senhor passava por diante dêle, disse Moisés: Dominador, e Senhor Deus, que és todo cheio de compaixão, e de clemência, paciente, rico de misericórdia, e de verdade;[3]DOMINADOR E SENHOR DEUSEnquanto os livros religiosos humanos dos diferentes povos antigos falavam de Deus obscuramente, envolvendo a Divindade em fábulas ridículas, a Sagrada Escritura revela-nos Deus por esta forma, tão precisa, tão terminante, e sobretudo tão consentânea com a idéia que do Criador devemos fazer, que inspirou a La Harpe estas reflexões: "Só a Sagrada Escritura nos dá estas idéias levantadas e justas, admiráveis e instrutivas acêrca de Deus, que inspiram respeito e esclarecem a inteligência, e que demonstram a divindade dos Livros Santos." (Lycée 1820, t. II, pág. 432.)

7que guardas misericórdia até mil gerações; que apagas a iniquidade, os crimes, e os pecados; diante do qual nenhum é inocente por si mesmo; e que tornas a iniquidade dos pais aos filhos, e aos netos até à terceira, e quarta geração.

8Ao mesmo tempo se prostrou Moisés por terra; e adorando, prosseguiu dizendo:

9Senhor, se eu achei graça diante de ti, peço-te que caminhes conosco: (porque êste povo é de cabeça dura) apaga também as nossas iniquidades, e os nossos pecados, e possui-nos.

10O Senhor lhe respondeu: Eu farei à vista de todos uma aliança: Farei prodígios, que nunca jamais se viram na terra, nem em alguma nação; para que êste povo, no meio do qual estás, seja testemunha da terrível obra, que o Senhor está para fazer.

11Guarda tôdas as coisas, que eu te ordeno hoje: e eu mesmo lançarei fora diante de ti os amorreus, os cananeus, os heteus, os fereseus, os heveus, e os jebuseus.

12Vê, não tenhas nunca amizade com os habitantes dêste país o que será a tua ruína.

13Mas destrói os seus altares, quebra as suas estátuas, corta os seus bosques sagrados.[4]BOSQUES SAGRADOSE' uma expressão tropológica; refere-se aos ídolos, representando os falsos deuses.

14Não adores deus estrangeiro. O Senhor tem por nome o Zeloso. Deus quer ser amado unicamente.[5]O ZELOSOQuer-se significar que Deus não sofre que a outrem seja prestada a adoração, só a Êle devida. E' impossível exprimir mais claramente a unidade de Deus. (Cfr. Vigouroux, ob. cit.)

15Não faças pacto algum com os habitantes dêste país: não suceda que quando êles se corromperem com os seus deuses, e adorarem as suas estátuas, te convide algum dêles a comer das viandas imoladas.

16Não casarás teus filhos com as suas filhas: não suceda que depois de se corromperem, induzam elas também teus filhos a se corromperem com os seus deuses.

17Não farás para ti deuses fundidos.[6]DEUSES FUNDIDOSAlusão ao bezerro de ouro e condenação formal da idolatria, que vem a propósito destas condições da aliança de Deus com o povo.

18Observarás a solenidade dos ásmos. Comerás sete dias pães ásmos, no mês dos trigos novos, como eu te ordenei; porque tu saíste do Egito no mês em que começa a primavera.[7]A SOLENIDADE DOS ÁSMOSE' a comemoração da Páscoa.

19Todo o macho que fôr primogénito, será meu: os primogénitos de todos os animais, assim de bois como de ovelhas, serão meus.

20Remirás o primogénito do jumento por uma ovelha: se não remires, matá-lo-ás. Remirás o primogénito de teus filhos. E não aparecerás na minha presença com as mãos vazias.

21Trabalharás seis dias, e ao dia sétimo cessarás de lavrar, e de segar.[8]DE LAVRAR E DE SEGARNão são êstes os únicos trabalhos defesos no dia do Senhor; argumenta-se, porém, do maior para o menor; êstes trabalhos, apesar da sua grande importância e necessidade são proibidos, e por isso apresentados como exemplo, para se concluir que todos os demais, de menor importância, por maioria da razão, o são também.

22Celebrarás a solenidade das semanas, oferecendo as primícias dos frutos da tua messe do trigo: e a outra solenidade no fim do ano, quando se tiver tudo recolhido.

23Todos os teus filhos machos se apresentarão três vêzes no ano diante do Todo Poderoso Senhor Deus de Israel.

24Porque quando eu tiver expulsado da tua face as nações, e tiver estendido os limites do teu país; se tu subires, e se tu te apresentares diante do Senhor teu Deus, nenhum formará secretamente maus projetos contra o teu país.

25Não me imolarás o sangue da minha vítima sôbre fermento: nem da hóstia da solenidade da Páscoa remanescerá nada, até o outro dia pela manhã.

26Oferecerás as primícias dos frutos da tua terra na casa do Senhor teu Deus. Não cozerás o cabrito no leite de sua mãe.

27Disse mais o Senhor a Moisés: Escreve para ti estas palavras, pelas quais eu fiz concêrto contigo, e com Israel.[9]ESCREVE PARA TI ESTAS PALAVRASEsta ordem formal de escrever, dada por Deus a Moisés, tem por fim encarecer a importância do que lhe vai dizer.

28Ficou Moisés pois ali com o Senhor quarenta dias, e quarenta noites: não comeu pão, nem bebeu água; e êle escreveu nas tábuas as dez palavras do concêrto.

29Depois disto desceu Moisés do monte Sinai, trazendo as duas tábuas do testemunho; e êle não sabia que o seu rosto lançava de si uns raios, que lhe tinham ficado da conversação, que tinha tido com o Senhor.[10]LANÇAVA DE SI UNS RAIOSAssim traduzem antigos e modernos tradutores a vulgata Cornuta fácies, que dá a entender que da fronte de Moisés irradiavam focos de luz, e assim tem sido representado por pintores e escultores célebres.

30Mas Aarão, e os filhos de Israel vendo que o rosto de Moisés lançava de si êstes raios, tiveram mêdo de se chegar a êle.

31Tendo Moisés pois chamado a Aarão, e aos principais do ajuntamento, vieram êles ter com Moisés. E depois que êle lhes falou,

32vieram também a êle todos os filhos de Israel; e êle lhes expôs tôdas as ordens, que tinha recebido do Senhor no monte Sinai.

33Acabado o discurso, pôs Moisés um véu sôbre o seu rosto.

34E quando entrava no tabernáculo à presença do Senhor, e falava com êle, tirava o véu até que saía. E então dizia aos filhos de Israel tudo o que o Senhor lhe tinha ordenado que dissesse.

35Quando Moisés saía do tabernáculo, viam os israelitas que o seu rosto lançava uns raios: mas êle o cobria de novo tôdas as vêzes, que lhes havia de falar.

O Êxodo, em hebreu chamado veelle semoth, eis-aqui os nomes, em grego êxodos, saída, é o segundo livro do Pentateuco, escrito por Moisés; conta-nos o cativeiro dos israelitas no Egito, o jugo dos Faraós, e a libertação pela Providência Divina, que suscitou, no meio do povo escolhido, Moisés; narram-se os milagres que acompanharam o têrmo da escravidão; a promulgação da lei no Sinai e a construção do tabernáculo. O Êxodo divide-se em três partes: PRIMEIRA PARTE a) Os acontecimentos que precedem e preparam a saída do Egito: Compreende os doze primeiros capítulos e subdivide-se assim: 1.° Quadro da opressão de Israel, 1 — 2.° História dos primeiros quarenta anos da vida de Moisés, 2 — 3.° Vocação de Moisés e sua volta para o Egito, 3; 4. — 4.° Tentativas inúteis empregadas junto de Faraó para obter a liberdade de Israel, 5; 6 — 5.° Descrição das nove primeiras pragas que não comovem o Faraó, 7-10 — 6.° A décima praga, instituição da Páscoa, morte dos primogénitos e partida precipitada de Israel, 11; 12, 36. SEGUNDA PARTE b) Saída do Egito 12, 37; 18. Contém cinco subdivisões: 1.° Primeiros acampamentos dos hebreus; prescrições para a Páscoa; santificação dos primogênitos; aparição da coluna de nuvens, 12, 37; 13 — 2.° Passagem do Mar Vermelho, 14; 15, 21 — 3.° Viagem dos israelitas e primeiras estações no deserto; o maná: a água milagrosa, 15, 22; 17, 7 — 4.° Vitória alcançada sôbre os Amalecitas, 17, 8-16 — 5.° Visita de Jetro, 18. TERCEIRA PARTE c) Promulgação da lei no Monte Sinai e construção do tabernáculo: Abrange os capítulos 19-40. Subdivide-se: 1.° Conclusão da aliança entre Deus e os hebreus; chegada ao Sinai e preparativos para a promulgação da lei, 19 — 2.° Decálogo, 20 — 3.° Primeiras leis, 21-23, 19 — 4.° Advertências sôbre o ingresso na terra do Canaã, 23, 20; 24, 11 — 5.° Prescrições relativas à construção da Arca e do Tabernáculo, 24, 12; 27 — 6.° Prescrições referentes ao sacerdócio, 28-30 — 7.° Vocação de Belezeel, 31, 1-12 — 8.° A lei de sábado, 31, 12-18 — 9.° A apostasia do povo, adorando o bezerro de ouro; o arrependimento e a oração de Moisés, 32-35. — 10.° Construção do Tabernáculo 35-40. Por aqui se vê que êste livro é a continuação da história da formação da nacionalidade hebraica, e nêle encontramos bem traçada a figura do próprio autor, o grande legislador dos hebreus — Moisés — seu caráter, e a sua obra, obra importantíssima, que seria inexplicável se não recorrermos à intervenção da Providência, como o faz sinceramente o autor sagrado, que coloca sob os nossos olhos a ação de Deus manifestada em favor do seu povo, por tantas, tão variadas e tão evidentes formas.
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