Pe. Figueiredo (1950)

Capítulo 17

Murmuração dos israelitas em Rafidim. Faz Deus sair água de um rochedo. Desfeita dos amalecitas.

1Tendo-se partido pois todos os filhos de Israel do deserto de Sin, e tendo feito as suas mansões nos lugares, que o Senhor lhes havia apontado, êles se acamparam em Rafidim, onde não havia água para dar de beber ao povo.

2Então tornaram êles a murmurar contra Moisés, dizendo: Dá-nos água para bebermos. Moisés lhes respondeu: Por que murmurais vós contra mim? por que tentais o Senhor?

3O povo pois achando-se neste sítio atormentado da sêde, e sem água, queixou-se altamente de Moisés, até lhe dizer: Por que nos fizeste tu sair do Egito, para agora nos fazeres morrer de sêde a nós, aos nossos filhos, e às nossas bêstas?

4Clamou então Moisés ao Senhor, e lhe disse: Que farei eu a êste povo? Pouco falta que êle me não apedreje.

5E o Senhor disse a Moisés: Caminha adiante do povo: Leva contigo alguns dos anciãos de Israel; toma na tua mão a vara, com que feriste o rio, e vai até à pedra de Horeb.

6Eu me acharei lá contigo: Tu ferirás a pedra, e dela sairá água, para que o povo tenha donde beber. Fêz Moisés diante dos anciãos de Israel o que o Senhor lhe havia ordenado.

7E êle chamou êste lugar a Tentação, aludindo aos queixumes dos filhos de Israel, e a que êles tentaram o Senhor, dizendo: Está o Senhor no meio de nós, ou não está?

8Entretanto Amalec veio a Rafidim a pelejar contra Israel.[1]AMALECTribo descendente de Abraão por Amalec (Gén 36,12). Os amalecitas ocupavam o deserto de Faram, isto é, uma parte do deserto de Tih, desde o Uadi el-Arabah a este, até ao Egito pelo oeste, e ao norte até aos arredores do Sinai. Era uma tribo belicosa, capaz de se bater com um exército numeroso. Partilhavam a província do Sinai com os madianitas.

9Então disse Moisés a Josué: Escolhe homens, e vai pelejar no alto contra Amalec. Eu amanhã serei no alto do outeiro, tendo a vara de Deus na mão.

10Fêz Josué o que Moisés lhe tinha dito, e pelejou contra Amalec. Porém Moisés, Aarão, e Hur subiram ao cume do outeiro.

11E quando Moisés tinha as mãos levantadas, ficava Israel vitorioso: Mas se as abaixava um pouco, era Amalec o que levava a melhor.

12Entretanto as mãos de Moisés pesavam-lhe. Pelo que êles tomaram uma pedra; e tendo-a pôsto por baixo de Moisés, êste se assentou nela: e Aarão, e Hur lhe sustinham as mãos de ambas as partes. Assim as suas mãos se não cansaram até o pôr do sol.

13Josué pois fêz fugir a Amalec, e passar ao fio da espada o seu povo.

14Então disse o Senhor a Moisés: Escreve isto num livro, para servir de monumento, e faze-o ouvir a Josué. Porque eu hei de extinguir a memória de Amalec de debaixo do céu.[2]ESCREVE ISTO NUM LIVRONo texto, tal como foi pontuado pelos massoretas, está "no livro" com o artigo, e não "num livro", o que é racional, pois Moisés não teria de escrever um livro só para uma passagem tão curta, bastava escrevê-la no livro em que relatava os demais acontecimentos.

15Moisés edificou ali um altar, a que êle pôs êste nome: O Senhor é a minha glória.

16Porque a mão do Senhor, disse êle, se levantará do seu trono contra Amalec; e o Senhor lhe fará guerra no decurso de tôdas as gerações.

O Êxodo, em hebreu chamado veelle semoth, eis-aqui os nomes, em grego êxodos, saída, é o segundo livro do Pentateuco, escrito por Moisés; conta-nos o cativeiro dos israelitas no Egito, o jugo dos Faraós, e a libertação pela Providência Divina, que suscitou, no meio do povo escolhido, Moisés; narram-se os milagres que acompanharam o têrmo da escravidão; a promulgação da lei no Sinai e a construção do tabernáculo. O Êxodo divide-se em três partes: PRIMEIRA PARTE a) Os acontecimentos que precedem e preparam a saída do Egito: Compreende os doze primeiros capítulos e subdivide-se assim: 1.° Quadro da opressão de Israel, 1 — 2.° História dos primeiros quarenta anos da vida de Moisés, 2 — 3.° Vocação de Moisés e sua volta para o Egito, 3; 4. — 4.° Tentativas inúteis empregadas junto de Faraó para obter a liberdade de Israel, 5; 6 — 5.° Descrição das nove primeiras pragas que não comovem o Faraó, 7-10 — 6.° A décima praga, instituição da Páscoa, morte dos primogénitos e partida precipitada de Israel, 11; 12, 36. SEGUNDA PARTE b) Saída do Egito 12, 37; 18. Contém cinco subdivisões: 1.° Primeiros acampamentos dos hebreus; prescrições para a Páscoa; santificação dos primogênitos; aparição da coluna de nuvens, 12, 37; 13 — 2.° Passagem do Mar Vermelho, 14; 15, 21 — 3.° Viagem dos israelitas e primeiras estações no deserto; o maná: a água milagrosa, 15, 22; 17, 7 — 4.° Vitória alcançada sôbre os Amalecitas, 17, 8-16 — 5.° Visita de Jetro, 18. TERCEIRA PARTE c) Promulgação da lei no Monte Sinai e construção do tabernáculo: Abrange os capítulos 19-40. Subdivide-se: 1.° Conclusão da aliança entre Deus e os hebreus; chegada ao Sinai e preparativos para a promulgação da lei, 19 — 2.° Decálogo, 20 — 3.° Primeiras leis, 21-23, 19 — 4.° Advertências sôbre o ingresso na terra do Canaã, 23, 20; 24, 11 — 5.° Prescrições relativas à construção da Arca e do Tabernáculo, 24, 12; 27 — 6.° Prescrições referentes ao sacerdócio, 28-30 — 7.° Vocação de Belezeel, 31, 1-12 — 8.° A lei de sábado, 31, 12-18 — 9.° A apostasia do povo, adorando o bezerro de ouro; o arrependimento e a oração de Moisés, 32-35. — 10.° Construção do Tabernáculo 35-40. Por aqui se vê que êste livro é a continuação da história da formação da nacionalidade hebraica, e nêle encontramos bem traçada a figura do próprio autor, o grande legislador dos hebreus — Moisés — seu caráter, e a sua obra, obra importantíssima, que seria inexplicável se não recorrermos à intervenção da Providência, como o faz sinceramente o autor sagrado, que coloca sob os nossos olhos a ação de Deus manifestada em favor do seu povo, por tantas, tão variadas e tão evidentes formas.
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