Pe. Figueiredo (1950)

Capítulo 18

Jetro, sogro de Moisés, vem ao campo dos israelitas. Conselhos que êle deu a Moisés.

1Ora Jetro, sacerdote de Madian, e sogro de Moisés, tendo ouvido tudo o que Deus tinha feito a favor de Moisés e do seu povo de Israel, e como o tinha feito sair do Egito;

2tomou a Séfora, mulher de Moisés, a qual êste lhe tinha remetido,

3e a seus dois filhos, um dos quais se tinha chamado Gersão, por seu pai ter dito: Eu fui viandante numa terra estrangeira;

4e o outro Eliazar, por seu pai ter dito: O Deus de meu pai foi o meu defensor, e êle me salvou da espada de Faraó.

5Veio pois Jetro, sogro de Moisés, ter com êle, trazendo-lhe sua mulher, e seus filhos ao deserto, onde tinha feito acompanhar o povo junto ao monte de Deus.

6E êle mandou dizer a Moisés: Eu Jetro, teu sogro, venho a ti com tua mulher, e teus dois filhos.

7Moisés tendo ido encontrar-se com seu sogro, se abaixou profundamente diante dêle, e o beijou: e êles se cumprimentaram, significando desejar um ao outro tôda a sorte de felicidades. Feito isto, entrou Jetro na tenda de Moisés,

8o qual contou a seu sogro tôdas as maravilhas, que Deus tinha obrado contra Faraó, e contra os egípcios a favor de Israel; todos os trabalhos que tinham padecido no caminho, e de que maneira os havia o Senhor livrado.

9Jetro se alegrou de tôdas as graças, que o Senhor fizera a Israel, e de que o tivesse tirado do poder dos egípcios, e disse:

10Bendito seja o Senhor, que vos livrou da mão dos egípcios, e da mão de Faraó: e que salvou o seu povo do poder do Egito.

11Agora conheço que o Senhor é grande sôbre todos os deuses; pois êle assim castigou a soberba, e insolência, com que os egípcios tinham tratado o seu povo.

12Jetro pois, sogro de Moisés, ofereceu a Deus holocaustos, e hóstias: e Aarão e todos os anciãos de Israel vieram comer pão com êle diante do Senhor.

13Ao outro dia assentou-se Moisés para dar audiência ao povo, que se apresentava diante dêle, desde pela manhã até à tarde.

14E seu sogro tendo visto tudo o que êle fazia ao povo, disse-lhe: Que é isto que tu fazes ao povo? Por que estás tu assentado, e todo o povo esperando desde pela manhã até à tarde?

15Moisés lhe respondeu: É que o povo vem a mim para ouvir pronunciar a sentença de Deus.

16E quando entre êles sucede haver alguma diferença, vem ter comigo, para que lhes mostre os preceitos, e a lei de Deus.

17Não fazes bem, disse Jetro.

18Estás-te fatigando sem propósito, tu, e êste povo, que vive contigo. Êste trabalho é sôbre as tuas forças, e tu só não o poderás aturar.

19Mas ouve o que te vou dizer, e o conselho, que te vou a dar, e será Deus contigo: Presta-te ao povo naquelas coisas, que dizem respeito a Deus, para expores ao Senhor os requerimentos do povo;

20para lhe ensinares as cerimónias, e o modo, com que devem honrar a Deus; o caminho por onde devem andar; e as obras que devem fazer.

21Mas escolhe dentre os do povo uns tantos homens poderosos, que temam a Deus, que sejam amigos da verdade, e inimigos da avareza; e constitui do número dêstes homens uns chefes de mil, outros chefes de cento, outros de cinquenta, outros de dez:[1]E CONSTITUI UNS CHEFESStanley diz que hoje a constituição das tribos, com graus subordinados aos "xeiquès", tal qual foi recomendada a Moisés por Jetro subsiste ainda, inteiramente semelhante, entre aquêles que são talvez seus descendentes diretos, a nobre raça dos Towara.

22cuja ocupação seja fazer justiça ao povo em todo o tempo; mas que reservem ao teu conhecimento os negócios de maior suposição, e julguem somente os mais pequenos. Desta sorte o pêso, que te oprime, virá a ser mais leve, sendo repartido entre outros.[2]MAS QUE RESERVEM AO TEU CONHECIMENTOCalmet indica que devia ser reservado a Moisés o seguinte: 1.° O que se referisse à religião; 2.° o que fôsse atinente a minorar os rigores da lei; 3.° a aplicação da pena de morte; 4.° os apelos das sentenças dos juízes inferiores.

23Se fizeres isto, que te digo, cumprirás com o mandamento de Deus; poderás ser capaz de executar as suas ordens; e todo êste povo voltará em paz para sua casa.

24Moisés, tendo ouvido isto, fêz tudo o que seu sogro lhe sugerira.

25E tendo escolhido dentre todo o povo de Israel homens de valor, constituiu-os príncipes do povo, para uns governarem mil, outros cem, outros cinquenta, outros dez.

26Êstes faziam justiça ao povo, em todo o tempo: mas davam conta a Moisés de todos os negócios mais difíceis, sentenciando êles somente os mais fáceis.

27Depois deixou Moisés retirar-se seu sogro, o qual, partindo, se recolheu para a sua terra.

O Êxodo, em hebreu chamado veelle semoth, eis-aqui os nomes, em grego êxodos, saída, é o segundo livro do Pentateuco, escrito por Moisés; conta-nos o cativeiro dos israelitas no Egito, o jugo dos Faraós, e a libertação pela Providência Divina, que suscitou, no meio do povo escolhido, Moisés; narram-se os milagres que acompanharam o têrmo da escravidão; a promulgação da lei no Sinai e a construção do tabernáculo. O Êxodo divide-se em três partes: PRIMEIRA PARTE a) Os acontecimentos que precedem e preparam a saída do Egito: Compreende os doze primeiros capítulos e subdivide-se assim: 1.° Quadro da opressão de Israel, 1 — 2.° História dos primeiros quarenta anos da vida de Moisés, 2 — 3.° Vocação de Moisés e sua volta para o Egito, 3; 4. — 4.° Tentativas inúteis empregadas junto de Faraó para obter a liberdade de Israel, 5; 6 — 5.° Descrição das nove primeiras pragas que não comovem o Faraó, 7-10 — 6.° A décima praga, instituição da Páscoa, morte dos primogénitos e partida precipitada de Israel, 11; 12, 36. SEGUNDA PARTE b) Saída do Egito 12, 37; 18. Contém cinco subdivisões: 1.° Primeiros acampamentos dos hebreus; prescrições para a Páscoa; santificação dos primogênitos; aparição da coluna de nuvens, 12, 37; 13 — 2.° Passagem do Mar Vermelho, 14; 15, 21 — 3.° Viagem dos israelitas e primeiras estações no deserto; o maná: a água milagrosa, 15, 22; 17, 7 — 4.° Vitória alcançada sôbre os Amalecitas, 17, 8-16 — 5.° Visita de Jetro, 18. TERCEIRA PARTE c) Promulgação da lei no Monte Sinai e construção do tabernáculo: Abrange os capítulos 19-40. Subdivide-se: 1.° Conclusão da aliança entre Deus e os hebreus; chegada ao Sinai e preparativos para a promulgação da lei, 19 — 2.° Decálogo, 20 — 3.° Primeiras leis, 21-23, 19 — 4.° Advertências sôbre o ingresso na terra do Canaã, 23, 20; 24, 11 — 5.° Prescrições relativas à construção da Arca e do Tabernáculo, 24, 12; 27 — 6.° Prescrições referentes ao sacerdócio, 28-30 — 7.° Vocação de Belezeel, 31, 1-12 — 8.° A lei de sábado, 31, 12-18 — 9.° A apostasia do povo, adorando o bezerro de ouro; o arrependimento e a oração de Moisés, 32-35. — 10.° Construção do Tabernáculo 35-40. Por aqui se vê que êste livro é a continuação da história da formação da nacionalidade hebraica, e nêle encontramos bem traçada a figura do próprio autor, o grande legislador dos hebreus — Moisés — seu caráter, e a sua obra, obra importantíssima, que seria inexplicável se não recorrermos à intervenção da Providência, como o faz sinceramente o autor sagrado, que coloca sob os nossos olhos a ação de Deus manifestada em favor do seu povo, por tantas, tão variadas e tão evidentes formas.
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