Pe. Figueiredo (1950)

Capítulo 16

Murmuração dos hebreus. Deus lhes manda codornízes, e faz chover o maná. Instruções como o maná se deve apanhar.

1Tendo tôda a multidão dos filhos de Israel partido de Elim, veio para o deserto de Sin, que é entre Elim e Sinai, ao décimo quinto dia do segundo mês, depois que tinham saído do Egito.[1]TENDO TÔDA A MULTIDÃO PARTIDOPartindo de Elim sabe-se que acamparam nas margens do Mar Vermelho (Núm 33, 10). Em 1868 organizou-se na Inglaterra uma expedição científica para ir estudar a península do Sinai, tendo à frente Henri Palmer e Wihn, acompanhados de orientalistas, geógrafos, zoólogos, fotógrafos, etc. Os seus trabalhos foram publicados e prestaram grandes serviços à crítica bíblica, pois das suas investigações se servem os mais abalisados exegetas na interpretação hodierna destas passagens. O deserto do Sin é a planície atual do El Markha, limitada a este pelas montanhas e a oeste pelo Mar Vermelho. Tem uma extensão de 24 quilómetros de comprimento por 5 de largura. Começa a uma distância de 16 quilómetros ao sul de Tayibeh.

2E todos os filhos de Israel, estando neste deserto, murmuraram contra Moisés, e contra Aarão, dizendo-lhes:

3Prouvera a Deus que nós fôssemos mortos no Egito pela mão do Senhor, quando lá estávamos assentados ao pé das panelas de carne, e comíamos quanto pão queríamos. Por que nos trouxestes vós a êste deserto, para matardes aqui de fome todo o povo?

4Então disse o Senhor a Moisés: Eu estou para vos fazer chover pães do céu. Saia o povo, e apanhe dêles o que bastar para cada dia, porque quero experimentar se êle caminha pela minha lei, ou não.

5Ao dia sexto ajunte-se dêstes pães o que se há de guardar em casa; e êles apanhem dobrado do que é costume nos outros dias.

6Então disseram Moisés, e Aarão a todos os filhos de Israel: Esta tarde sabereis vós que o Senhor é quem vos tirou do Egito.

7E amanhã pela manhã vereis vós brilhar a glória do Senhor: porque êle ouviu as vossas murmurações contra êle. Pois no tocante às pessoas de nós os dois, quem somos nós, para que vós murmureis contra nós?

8Prosseguiu Moisés, dizendo: Esta tarde vos dará o Senhor carne para comerdes; e amanhã êle vos fartará de pães: porque êle ouviu as palavras de murmuração, que vós proferistes contra êle: pois quanto a nós, quem somos nós? Não somos nós os a quem as vossas murmurações atacam, mas sim o Senhor.

9Disse também Moisés a Aarão: Dize a todo o ajuntamento dos filhos de Israel: Chegai-vos para diante do Senhor, porque êle ouviu a vossa murmuração.

10Quando Aarão ainda estava falando a todo o ajuntamento dos filhos de Israel, olharam êles para a parte do deserto, e eis que de repente aparece a glória do Senhor na nuvem.

11Ora o Senhor tinha falado a Moisés, e lhe tinha dito:

12Eu ouvi as murmurações dos filhos de Israel. Dize-lhes: Vós comereis esta tarde carne, e amanhã vos fartareis de pães; e vós sabereis que eu sou o Senhor vosso Deus.

13À tarde pois veio um número sem número de codornízes, que cobriram todo o campo; e pela manhã também todos os arredores do campo foram carregados de orvalho.

14E estando a superfície da terra coberta dêle, viu-se aparecer no deserto uma coisa miúda, e como pisada num gral, que se assemelhava àqueles pequenos grãos de geada branca, que caem sôbre a terra.

15O que tendo visto os filhos de Israel, disseram uns para os outros: Manhu, isto é: Que é isto? Porque não sabiam o que era. Moisés lhes respondeu: Êste é o pão, que o Senhor vos deu para comerdes.[2]MANHU?Esta expressão mostra que os hebreus ficaram estupefatos e não conheciam a substância que caía cobrindo a superfície da terra. Mas que substância era esta? pergunta a crítica. Que se trata duma substância nova, desconhecida para êles, não há dúvida alguma; infere-se claramente do texto, como igualmente se deduz que êles tiveram êsse fato como sobrenatural. Os escritores racionalistas negam que haja aqui um milagre. Ritter diz que em certas partes do Sinai há um maná comestível, a que os beduínos dão hoje o nome de manna essemma, maná celeste. É uma goma esbranquiçada, de cheiro agradável, que goteja da tamargueira, Tamarix mannifera, planta que se dá na parte ocidental da península do Sinai, na Arábia Pétrea, em Moab, e em Galaad; tem o sabor do mel. Porém, tôdas as explicações, por mais engenhosas, não podem negar o caráter miraculoso dêste fenômeno.

16E eis-aqui o que o Senhor ordena: Cada um apanhe dêle quanto lhe fôr necessário para comer. Tomai um gomor para cada pessoa, conforme o número daqueles, que houver em cada tenda.[3]GOMORO hebreu gomer, de origem egípcia, designa pròpriamente um vaso. Porém passou a significar uma medida, a décima parte do efi (v. 36), e daí o nome de issaron, décima parte, que designa esta medida em vários lugares do Pentateuco. Os rabinos dizem que o gomor continha 45 ovos e meio e 3 litros e 83.

17Assim o fizeram os filhos de Israel: Apanharam do maná, uns mais, outros menos.

18E tendo-o medido por um gomor, nem o que tinha ajuntado mais, tinha mais; nem o que tinha ajuntado menos, tinha menos: mas cada um se achou com quanto podia comer.

19Moisés lhes disse: Nenhum deixe nada para amanhã.

20Mas êles não lhe deram ouvidos: E tendo alguns guardado do maná para o outro dia, êle se achou gafo de bichos, e todo corrompido: do que Moisés se agastou contra êles.

21Cada um pois colhia tôdas as manhãs quanto lhe era necessário para comer: e quando vinha o calor do sol, derretia-se.

22Ao dia sexto colheram êles dobrado, isto é, colheram dois gomores para cada pessoa: e todos os príncipes do povo vieram dar parte disto a Moisés.

23O qual lhes disse: Isto é o que o Senhor ordenou: Amanhã será o dia de sábado, cujo descanso é consagrado ao Senhor. Fazei pois o que tendes que fazer: Cozei o que tendes que cozer: E tudo o que ficar de hoje, guardai-o para amanhã.

24E tendo-o êles feito, como Moisés o ordenara, não apodreceu o maná, nem se acharam bichos nêle.

25Disse-lhes ainda Moisés: Comei-o hoje, porque é o sábado do Senhor, e vós o não achareis hoje no campo.

26Colhei-o pois os seis dias: Mas o dia sétimo é o sábado do Senhor: Por isso nêle não se achará maná.

27Chegado que foi o sétimo dia, saíram alguns do povo a apanhá-lo, e não o acharam.

28Então disse o Senhor a Moisés: Até quando não haveis vós de querer guardar os meus mandamentos, e a minha lei?

29Considerai que o Senhor vos mandou observar o sábado, e que para isso vos deu êle ao sexto dia dobrado sustento. Cada um de vós logo fique na sua tenda o dia sétimo, e não saia dela.

30O povo pois observou o descanso do sábado no dia sétimo.

31E os israelitas deram a êste sustento o nome de maná: E êle parecia-se como a semente do coentro: era branco, e de um gôsto semelhante ao do pão amassado com mel.

32Ainda Moisés disse mais: Eis aqui o que diz o Senhor: Enchei um gomor de maná, e ponde-o diante do Senhor, para se conservar memória dêle nos tempos vindouros; e para que se saiba qual foi o manjar, com que eu vos sustentei no deserto, depois da vossa saída do Egito.

33Disse pois Moisés a Aarão: Toma um vaso, e mete nêle tanta quantidade de maná, quanta pode caber num gomor; e põe-no em reserva diante do Senhor, para que êle se conserve nas gerações futuras,

34segundo a ordem, que eu acêrca disso recebi do Senhor. E Aarão pôs êste vaso no tabernáculo para ali se conservar.

35Ora os israelitas sustentaram-se do maná quarenta anos, até o tempo da sua chegada a um país cultivado. Êles se serviram dêste mantimento até a sua entrada nas primeiras terras de Canaã.

36O gomor porém é a décima parte de um efi.

O Êxodo, em hebreu chamado veelle semoth, eis-aqui os nomes, em grego êxodos, saída, é o segundo livro do Pentateuco, escrito por Moisés; conta-nos o cativeiro dos israelitas no Egito, o jugo dos Faraós, e a libertação pela Providência Divina, que suscitou, no meio do povo escolhido, Moisés; narram-se os milagres que acompanharam o têrmo da escravidão; a promulgação da lei no Sinai e a construção do tabernáculo. O Êxodo divide-se em três partes: PRIMEIRA PARTE a) Os acontecimentos que precedem e preparam a saída do Egito: Compreende os doze primeiros capítulos e subdivide-se assim: 1.° Quadro da opressão de Israel, 1 — 2.° História dos primeiros quarenta anos da vida de Moisés, 2 — 3.° Vocação de Moisés e sua volta para o Egito, 3; 4. — 4.° Tentativas inúteis empregadas junto de Faraó para obter a liberdade de Israel, 5; 6 — 5.° Descrição das nove primeiras pragas que não comovem o Faraó, 7-10 — 6.° A décima praga, instituição da Páscoa, morte dos primogénitos e partida precipitada de Israel, 11; 12, 36. SEGUNDA PARTE b) Saída do Egito 12, 37; 18. Contém cinco subdivisões: 1.° Primeiros acampamentos dos hebreus; prescrições para a Páscoa; santificação dos primogênitos; aparição da coluna de nuvens, 12, 37; 13 — 2.° Passagem do Mar Vermelho, 14; 15, 21 — 3.° Viagem dos israelitas e primeiras estações no deserto; o maná: a água milagrosa, 15, 22; 17, 7 — 4.° Vitória alcançada sôbre os Amalecitas, 17, 8-16 — 5.° Visita de Jetro, 18. TERCEIRA PARTE c) Promulgação da lei no Monte Sinai e construção do tabernáculo: Abrange os capítulos 19-40. Subdivide-se: 1.° Conclusão da aliança entre Deus e os hebreus; chegada ao Sinai e preparativos para a promulgação da lei, 19 — 2.° Decálogo, 20 — 3.° Primeiras leis, 21-23, 19 — 4.° Advertências sôbre o ingresso na terra do Canaã, 23, 20; 24, 11 — 5.° Prescrições relativas à construção da Arca e do Tabernáculo, 24, 12; 27 — 6.° Prescrições referentes ao sacerdócio, 28-30 — 7.° Vocação de Belezeel, 31, 1-12 — 8.° A lei de sábado, 31, 12-18 — 9.° A apostasia do povo, adorando o bezerro de ouro; o arrependimento e a oração de Moisés, 32-35. — 10.° Construção do Tabernáculo 35-40. Por aqui se vê que êste livro é a continuação da história da formação da nacionalidade hebraica, e nêle encontramos bem traçada a figura do próprio autor, o grande legislador dos hebreus — Moisés — seu caráter, e a sua obra, obra importantíssima, que seria inexplicável se não recorrermos à intervenção da Providência, como o faz sinceramente o autor sagrado, que coloca sob os nossos olhos a ação de Deus manifestada em favor do seu povo, por tantas, tão variadas e tão evidentes formas.
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