Pe. Figueiredo (1950)

Capítulo 12

Cerimónia da primeira Páscoa. Décima praga, a morte dos primogénitos dos egípcios. Saída dos israelitas fora do Egito. Preceitos acêrca da Páscoa.

1Disse também o Senhor a Moisés, e a Aarão na terra do Egito:

2Êste mês será para vós o princípio dos meses; será o primeiro dos meses do ano.

3Falai a todo o ajuntamento dos filhos de Israel, e dizei-lhes: Ao décimo dia dêste mês tome cada um um cordeiro para a sua família, e para a sua casa.

4Se as pessoas, que há numa casa, não forem em número suficiente para comerem o cordeiro, tomarão da casa do vizinho, que estiver pegada à sua, quantos bastem para comer o cordeiro.

5Êste cordeiro será sem mancha, será macho, e será dum ano. Podereis também tomar um cabrito, que tenha as mesmas qualidades.

6Vós o guardareis até o dia catorze dêste mês: e tôda a multidão dos filhos de Israel o imolará pela tarde.

7Êles tomarão do seu sangue, e pô-lo-ão sôbre as duas umbreiras, e sôbre a verga das portas das casas, onde êles o comerem.

8E esta mesma noite comerão êles a carne do cordeiro assada no fogo, e pães asmos com leitugas bravas.[1]PÃES ASMOSEra assim que se devia comemorar a partida rápida dos hebreus naquela noite. As leitugas bravas; as ervas amargas, que simbolizavam as agruras do exílio.

9Não comereis nada dêle, que seja cru, ou cozido em água, mas somente assado no fogo. Comer-lhe-eis a cabeça com os pés, e com os intestinos.

10E não ficará dêle nada até pela manhã. Se sobejar alguma coisa, queimá-la-eis no fogo.

11Eis-aqui porém como o háveis de comer. Cingireis os vossos rins, e tereis sapatos nos pés, e bordões nas mãos, e comereis à pressa: Porque esta é a Páscoa, isto é, a passagem do Senhor.

12E aquela noite passarei eu pelo Egito, e matarei na terra do Egito todos os primogénitos, desde os homens até os animais: E eu exercitarei os meus juízos sôbre todos os deuses, eu, que sou o Senhor.

13Ora o sangue, com que estiver marcada cada casa, onde vós morardes, servirá de sinal a vosso favor: Eu verei o sangue e eu passarei a outra parte: E a praga de morte não tocará em vós, quando eu ferir todo o Egito.

14Êsse dia ser-vos-á um monumento: e vós o celebrareis de geração em geração com um culto perpétuo, como uma festa solene à honra do Senhor.[2]UM CULTO PERPÉTUOE assim sucedeu, porque se a Páscoa dos hebreus cessou, a Páscoa cristã, de que a primeira era a figura, durará até à consumação dos séculos.

15Comereis pães asmos sete dias: Desde o primeiro dia não se achará pão com fermento em vossas casas. Todo o que comer pão fermentado, desde o primeiro dia até o sétimo, perecerá do meio de Israel.

16O primeiro dia será santo, e solene, e o dia sétimo será uma festa igualmente venerável. Durante êstes dias, não fareis nêles obra alguma servil, exceto o que pertence ao comer.

17Vós pois guardareis esta festa de pães asmos: Porque nesse mesmo dia farei eu sair todo o vosso exército do Egito: e vós observareis êste dia de geração em geração com um culto perpétuo.

18Desde o dia catorze do primeiro mês à tarde, comereis vós pães asmos até à tarde do dia vinte dêste mesmo mês.

19Não se achará em vossas casas pão com fermento êstes sete dias. Todo o que comer pão fermentado, perecerá do meio do ajuntamento de Israel, ou êle seja estrangeiro, ou natural da terra.

20Não comereis nada com fermento: Usareis de pão asmo em tôdas as vossas casas.

21Depois chamou Moisés todos os anciãos dos filhos de Israel, e disse-lhes: Ide tomar um cordeiro para cada família, e imolai-o.

22Ensopai um môlho de hissôpo no sangue, que estiver pôsto no limiar da porta, e borrifai com êle a verga da porta, e as duas umbreiras. Nenhum de vós saia da porta de sua casa até pela manhã.

23Porque o Senhor passará, ferindo os egípcios: E quando êle vir êste sangue sôbre a verga das vossas portas, e sôbre as duas umbreiras, passará a porta da vossa casa, e não deixará entrar nêle o anjo exterminador a ferir-vos.

24Guardai êste mandamento, como uma lei, que deve ser inviolável para sempre, tanto para vós, como para vossos filhos.

25Depois que vós tiverdes entrado na terra, que o Senhor vos há de dar, como prometeu, observareis estas mesmas cerimónias.

26E quando os vossos filhos vos disserem: Que culto religioso é êste?

27Vós lhes respondereis: Isto é a vítima da passagem do Senhor, quando êle passou as casas dos filhos de Israel no Egito, ferindo os egípcios, e livrando as nossas casas. Então o povo profundamente inclinado adorou o Senhor.

28Os filhos de Israel, depois que dali saíram, fizeram o que o Senhor tinha ordenado a Moisés, e a Aarão.

29Pelo meio da noite feriu o Senhor todos os primogénitos do Egito, desde o primogénito de Faraó, que estava assentado no seu trono, até o primogénito da escrava cativa que estava em prisão, e até o primogénito de todos os animais.[3]FERIU O SENHOR TODOS OS PRIMOGÉNITOSFoi a décima e última praga. Não há fato algum análogo na história do Egito. Refere o texto que entre as vítimas contava-se o filho do Faraó. No museu de Berlim guarda-se um monumento egípcio, onde se faz menção dum filho de Meneftá, que foi morto. É uma estátua colossal de Meneftá, o Faraó do Êxodo, tendo ao lado seu filho, ornado com insígnias reais, o que mostra estar associado ao poder, e que se chamava Meneftá, como o pai. O Faraó de Moisés teve por sucessor seu filho segundo, chamado Set, e por conseguinte aquêle era o primogénito, vitimado pela décima praga, pois sentava-se no trono de seu pai. Ex 11, 6 e a êle se refere o v. 23 e o c. 4 do mesmo livro, como o prova Lauth, Aus altagyptischer Zeit. Pharao. Moses und Exodus, na Allgemeine Zeitung, 25 Julho 1875.

30Tendo-se levantado pois de noite Faraó, como também todos os seus servos, e todos os egípcios, foi grande o alarido, que se ouviu em todo o Egito: porque não havia casa, onde não jazesse um morto.

31E Faraó tendo feito vir esta mesma noite a Moisés, e a Aarão, disse-lhes: Retirai-vos sem demora do meu povo, vós, e os filhos de Israel; ide sacrificar ao Senhor, como vós dizeis.

32Levai convosco as vossas ovelhas, e os vossos rebanhos, conforme me tínheis pedido; e idos que fordes, rogai por mim.

33Os egípcios também apertavam o povo, que saísse logo da sua terra, dizendo: Todos nós morreremos.

34O povo pois tomou a farinha, que tinha sido amassada antes de levar fermento; e atando-a nas capas, pô-la aos ombros.

35Fizeram também os filhos de Israel o que Moisés lhes havia ordenado, e pediram aos egípcios vasos de prata, e de ouro, e muita quantidade de vestidos.

36E o Senhor fêz favoráveis ao seu povo os egípcios, para que êstes emprestassem o que aquêles lhe pediam: e assim êles despojaram os egípcios.

37Partiram pois os filhos de Israel de Ramessés, e vieram a Socote, sendo perto de seiscentos mil homens de pé, afora os meninos.[4]PARTIRAM POIS OS FILHOS DE ISRAELComeça Moisés descrevendo a marcha dos hebreus. A partida foi de Ramessés, situada na vizinhança de Fiton, arsenal e praça forte de Gessen, ponto regularmente central, pouco afastado do deserto, para onde se dirigiam. Têm sido os progressos da Egiptologia que têm auxiliado os eruditos na investigação da marcha de Moisés. O primeiro foi o jesuíta padre Sicard, natural de Aubagne, falecido no Egito, vítima da sua dedicação pelos pestíferos, em 1726, autor de trabalhos importantes sôbre o Egito. A sua opinião hoje está posta de parte, porque investigações posteriores aclararam pontos que o ilustre missionário, apesar da sua erudição e boa vontade, não conseguiu averiguar. Socote é o nome civil de Fiton, indicando os arredores da cidade, porque a multidão não podia acampar dentro dos muros. Neville é que localizou esta região em Tell-el-Maskhuta.

38Foram êles seguidos de uma inumerável multidão do vulgo, e levavam consigo uma infinidade de ovelhas, de rebanhos, e de animais de tôdas as castas.

39Cozeram a farinha, que havia tempo tinham trazido amassada do Egito, e fizeram dela pães asmos, cozidos debaixo de cinza: porque os egípcios lhes tinham dado tanta pressa a partir, que lhes não deram tempo a meter-lhes fermento, nem a preparar nada de comer.

40Ora o tempo, que os filhos de Israel tinham morado no Egito, foi de quatrocentos e trinta anos:

41completos os quais, todo o exército do Senhor saiu do Egito neste mesmo dia.

42Esta noite, em que o Senhor os tirou do Egito, deve ser consagrada à honra do Senhor: e todos os filhos de Israel a devem observar pelo decurso de tôdas as gerações.

43Porque o Senhor disse assim a Moisés, e a Aarão: O culto desta páscoa observar-se-á desta sorte. Nenhum estrangeiro comerá dela.

44Todo o escravo, que alguém comprar, será circuncidado; e feito isto comerá dela.

45Porém o estrangeiro, e o mercenário não comerão dela.

46O cordeiro há de comer-se numa mesma casa: da sua carne não levareis vós nada para fora, nem lhe quebrareis osso algum.

47Todo o ajuntamento de Israel fará a Páscoa.

48Se algum estrangeiro se quiser associar a vós, e fazer a Páscoa do Senhor, tudo o que êle tiver consigo, que seja macho, será primeiro circuncidado; e então poderá êle celebrá-la, e será como natural da mesma terra: mas o que não fôr circuncidado, não comerá dela.

49A mesma lei se guardará com os habitantes do país, e com os estrangeiros, que vivem convosco.

50Todos os filhos de Israel executaram o que o Senhor tinha ordenado a Moisés, e a Aarão.

51E no mesmo dia tirou o Senhor do Egito os filhos de Israel, repartidos em diversas turmas.

O Êxodo, em hebreu chamado veelle semoth, eis-aqui os nomes, em grego êxodos, saída, é o segundo livro do Pentateuco, escrito por Moisés; conta-nos o cativeiro dos israelitas no Egito, o jugo dos Faraós, e a libertação pela Providência Divina, que suscitou, no meio do povo escolhido, Moisés; narram-se os milagres que acompanharam o têrmo da escravidão; a promulgação da lei no Sinai e a construção do tabernáculo. O Êxodo divide-se em três partes: PRIMEIRA PARTE a) Os acontecimentos que precedem e preparam a saída do Egito: Compreende os doze primeiros capítulos e subdivide-se assim: 1.° Quadro da opressão de Israel, 1 — 2.° História dos primeiros quarenta anos da vida de Moisés, 2 — 3.° Vocação de Moisés e sua volta para o Egito, 3; 4. — 4.° Tentativas inúteis empregadas junto de Faraó para obter a liberdade de Israel, 5; 6 — 5.° Descrição das nove primeiras pragas que não comovem o Faraó, 7-10 — 6.° A décima praga, instituição da Páscoa, morte dos primogénitos e partida precipitada de Israel, 11; 12, 36. SEGUNDA PARTE b) Saída do Egito 12, 37; 18. Contém cinco subdivisões: 1.° Primeiros acampamentos dos hebreus; prescrições para a Páscoa; santificação dos primogênitos; aparição da coluna de nuvens, 12, 37; 13 — 2.° Passagem do Mar Vermelho, 14; 15, 21 — 3.° Viagem dos israelitas e primeiras estações no deserto; o maná: a água milagrosa, 15, 22; 17, 7 — 4.° Vitória alcançada sôbre os Amalecitas, 17, 8-16 — 5.° Visita de Jetro, 18. TERCEIRA PARTE c) Promulgação da lei no Monte Sinai e construção do tabernáculo: Abrange os capítulos 19-40. Subdivide-se: 1.° Conclusão da aliança entre Deus e os hebreus; chegada ao Sinai e preparativos para a promulgação da lei, 19 — 2.° Decálogo, 20 — 3.° Primeiras leis, 21-23, 19 — 4.° Advertências sôbre o ingresso na terra do Canaã, 23, 20; 24, 11 — 5.° Prescrições relativas à construção da Arca e do Tabernáculo, 24, 12; 27 — 6.° Prescrições referentes ao sacerdócio, 28-30 — 7.° Vocação de Belezeel, 31, 1-12 — 8.° A lei de sábado, 31, 12-18 — 9.° A apostasia do povo, adorando o bezerro de ouro; o arrependimento e a oração de Moisés, 32-35. — 10.° Construção do Tabernáculo 35-40. Por aqui se vê que êste livro é a continuação da história da formação da nacionalidade hebraica, e nêle encontramos bem traçada a figura do próprio autor, o grande legislador dos hebreus — Moisés — seu caráter, e a sua obra, obra importantíssima, que seria inexplicável se não recorrermos à intervenção da Providência, como o faz sinceramente o autor sagrado, que coloca sob os nossos olhos a ação de Deus manifestada em favor do seu povo, por tantas, tão variadas e tão evidentes formas.
📄 PDF
📄 Original