Pe. Figueiredo (1950)

Capítulo 19

Chegam os israelitas perto do Sinai. Moisés sobe êste monte. Torna, e manda ao povo, que se prepare para ouvir as ordens do Senhor. Dá Deus mostras da sua glória no monte.

1Ao terceiro dia do terceiro mês da saída dos israelitas do Egito, chegaram êles ao deserto de Sinai.

2Tendo partido de Rafidim, e chegado a êste deserto, acamparam-se no mesmo lugar; e Israel pôs as suas tendas bem defronte do monte.[1]O MONTE DO SINAIHoje é o Djebel Muça, ou monte de Moisés. É rodeado por vales. A sua situação singularíssima torna-o um dos pontos mais extraordinários do globo. Tudo ali é fora do vulgar. Está a 2.000 metros acima do nível do mar. O declive é violento, exceto do lado do sudoeste, onde se vê, sôbre uma extensão de quase dois quilómetros, uma aglomeração de colinas graníticas e formidáveis barrancos. Deve-se advertir que no Sinai há vários picos, sendo os mais elevados os das extremidades; ao sul, um pico único, o Djebel Muça, pròpriamente dito; ao nordeste três ou quatro, coletivamente denominados Ras-Sufsaféh, perto dos quais está a extensa planície d'er-Raha. Vigouroux sustenta que é Ras Sufsaféh, o monte da lei, porque tão grande multidão só podia acampar na planície d'er-Raha, da qual só se via Ras.

3Depois subiu Moisés ao monte para falar a Deus: porque o Senhor o chamou do alto do monte, e lhe disse: Eis-aqui o que tu hás de dizer à casa de Jacó, e o que hás de anunciar aos filhos de Israel.

4Vós mesmos vistes o que eu fiz aos egípcios, e de que modo eu vos trouxe, como a águia traz seus filhos sôbre as suas asas, e que eu vos tomei por meus.

5Se vós logo ouvirdes a minha voz, e observardes o pacto, que fiz convosco, eu vos tomarei por meu povo particular, com preferência a todos os outros povos: porque tôda a terra é minha.

6E vós sereis o meu reino sacerdotal, e uma nação santa. Eis aqui o que tu hás de dizer aos filhos de Israel.

7Moisés pois tendo descido, fêz ajuntar os anciãos, e expôs-lhes tudo o que o Senhor lhe tinha mandado que lhes dissesse.

8E todo o povo respondeu a uma voz: Tudo o que o Senhor disse faremos. Referiu Moisés ao Senhor as palavras do povo,

9e o Senhor lhe disse: Brevemente virei a ti numa nuvem escura, para que o povo me ouça falar contigo, e te creia para sempre. Depois que Moisés referiu ao Senhor as palavras do povo,

10êle lhe disse: Vai ter com o povo, e santifica-o hoje, e amanhã. Lavem os seus vestidos,

11e estejam prontos para o terceiro dia: porque no terceiro dia descerá o Senhor à vista de todo o povo sôbre o monte Sinai.

12Tu designarás em roda limites ao povo, e lhe dirás: Guardai-vos, não subais ao monte, nem vos chegueis às suas faldas. Todo o que tocar o monte, morrerá.

13Não o tocará mão de homem; mas êle será ou apedrejado, ou asseteado: quer êle seja bêsta, quer seja homem, não há de mais viver. Quando a trombeta começar a ouvir-se, então subirão ao monte.

14Moisés tendo descido do monte, foi ter com o povo, e o santificou. E depois de todos terem lavado os seus vestidos, êle lhes disse:

15Estais aparelhados para o terceiro dia, e não vos chegueis a vossas mulheres.

16Chegado que foi dia terceiro, quando já era muito dia, eis que se começam a ouvir trovões, e a ver-se fuzilar o ar: uma nuvem mui espessa cobre o monte: soa a trombeta com grande estrondo: e o povo, que estava no campo, todo fica passado de mêdo.

17Então os fêz Moisés abalar do campo para se irem encontrar com o Senhor, e êles ficaram ao sopé do monte.

18Todo o monte Sinai estava cheio de fumo: porque tinha descido o Senhor a êle no meio dos fogos; e daí se elevava o fumo ao alto, como de uma fornalha; e todo o monte metia terror.[2]NO MEIO DOS FOGOSDubois Ayné sustentou, com o intento de negar o caráter sobrenatural dêste fato, que se tratava dum vulcão, o que cai pela base, pois que nunca se lhe viu a cratera. Coutelle e Rosière reconheceram que a montanha era granítica, não se encontrando vestígios alguns vulcânicos, o que depois confirma o próprio Dubois, que teve de se desdizer da sua afirmação primitiva.

19O som da trombeta também se ia aumentando pouco a pouco, e era já mais forte, e mais penetrante. Moisés falava a Deus, e Deus lhe respondia.

20E o Senhor tendo descido sôbre o monte Sinai, sôbre o mesmo cume do monte, chamou a Moisés ao mais alto dêle. E tanto que Moisés lá chegou, o Senhor lhe disse:

21Desce, e adverte o povo, não suceda que pelo desejo de ver o Senhor passe êle dos limites, e pereça um grande número dêle.

22Os sacerdotes também, que se chegam ao Senhor, santifiquem-se, não suceda que êle os fira de morte.

23Respondeu Moisés ao Senhor: O povo não poderá subir ao monte de Sinai, visto que tu mesmo me ordenaste expressissimamente, dizendo: Põe limites ao redor do monte, e santifica-o.

24O Senhor lhe disse: Vai, desce: depois subirás tu, e Aarão contigo. Mas os sacerdotes, e o povo não passem dos limites, nem subam onde está o Senhor, não suceda que êle os mate.

25Desceu pois Moisés até onde estava o povo, e contou-lhe tudo o que Deus lhe tinha dito.

O Êxodo, em hebreu chamado veelle semoth, eis-aqui os nomes, em grego êxodos, saída, é o segundo livro do Pentateuco, escrito por Moisés; conta-nos o cativeiro dos israelitas no Egito, o jugo dos Faraós, e a libertação pela Providência Divina, que suscitou, no meio do povo escolhido, Moisés; narram-se os milagres que acompanharam o têrmo da escravidão; a promulgação da lei no Sinai e a construção do tabernáculo. O Êxodo divide-se em três partes: PRIMEIRA PARTE a) Os acontecimentos que precedem e preparam a saída do Egito: Compreende os doze primeiros capítulos e subdivide-se assim: 1.° Quadro da opressão de Israel, 1 — 2.° História dos primeiros quarenta anos da vida de Moisés, 2 — 3.° Vocação de Moisés e sua volta para o Egito, 3; 4. — 4.° Tentativas inúteis empregadas junto de Faraó para obter a liberdade de Israel, 5; 6 — 5.° Descrição das nove primeiras pragas que não comovem o Faraó, 7-10 — 6.° A décima praga, instituição da Páscoa, morte dos primogénitos e partida precipitada de Israel, 11; 12, 36. SEGUNDA PARTE b) Saída do Egito 12, 37; 18. Contém cinco subdivisões: 1.° Primeiros acampamentos dos hebreus; prescrições para a Páscoa; santificação dos primogênitos; aparição da coluna de nuvens, 12, 37; 13 — 2.° Passagem do Mar Vermelho, 14; 15, 21 — 3.° Viagem dos israelitas e primeiras estações no deserto; o maná: a água milagrosa, 15, 22; 17, 7 — 4.° Vitória alcançada sôbre os Amalecitas, 17, 8-16 — 5.° Visita de Jetro, 18. TERCEIRA PARTE c) Promulgação da lei no Monte Sinai e construção do tabernáculo: Abrange os capítulos 19-40. Subdivide-se: 1.° Conclusão da aliança entre Deus e os hebreus; chegada ao Sinai e preparativos para a promulgação da lei, 19 — 2.° Decálogo, 20 — 3.° Primeiras leis, 21-23, 19 — 4.° Advertências sôbre o ingresso na terra do Canaã, 23, 20; 24, 11 — 5.° Prescrições relativas à construção da Arca e do Tabernáculo, 24, 12; 27 — 6.° Prescrições referentes ao sacerdócio, 28-30 — 7.° Vocação de Belezeel, 31, 1-12 — 8.° A lei de sábado, 31, 12-18 — 9.° A apostasia do povo, adorando o bezerro de ouro; o arrependimento e a oração de Moisés, 32-35. — 10.° Construção do Tabernáculo 35-40. Por aqui se vê que êste livro é a continuação da história da formação da nacionalidade hebraica, e nêle encontramos bem traçada a figura do próprio autor, o grande legislador dos hebreus — Moisés — seu caráter, e a sua obra, obra importantíssima, que seria inexplicável se não recorrermos à intervenção da Providência, como o faz sinceramente o autor sagrado, que coloca sob os nossos olhos a ação de Deus manifestada em favor do seu povo, por tantas, tão variadas e tão evidentes formas.
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