Capítulo 19
1Ao terceiro dia do terceiro mês da saída dos israelitas do Egito, chegaram êles ao deserto de Sinai.
2Tendo partido de Rafidim, e chegado a êste deserto, acamparam-se no mesmo lugar; e Israel pôs as suas tendas bem defronte do monte.[1]O MONTE DO SINAI — Hoje é o Djebel Muça, ou monte de Moisés. É rodeado por vales. A sua situação singularíssima torna-o um dos pontos mais extraordinários do globo. Tudo ali é fora do vulgar. Está a 2.000 metros acima do nível do mar. O declive é violento, exceto do lado do sudoeste, onde se vê, sôbre uma extensão de quase dois quilómetros, uma aglomeração de colinas graníticas e formidáveis barrancos. Deve-se advertir que no Sinai há vários picos, sendo os mais elevados os das extremidades; ao sul, um pico único, o Djebel Muça, pròpriamente dito; ao nordeste três ou quatro, coletivamente denominados Ras-Sufsaféh, perto dos quais está a extensa planície d'er-Raha. Vigouroux sustenta que é Ras Sufsaféh, o monte da lei, porque tão grande multidão só podia acampar na planície d'er-Raha, da qual só se via Ras.
3Depois subiu Moisés ao monte para falar a Deus: porque o Senhor o chamou do alto do monte, e lhe disse: Eis-aqui o que tu hás de dizer à casa de Jacó, e o que hás de anunciar aos filhos de Israel.
4Vós mesmos vistes o que eu fiz aos egípcios, e de que modo eu vos trouxe, como a águia traz seus filhos sôbre as suas asas, e que eu vos tomei por meus.
5Se vós logo ouvirdes a minha voz, e observardes o pacto, que fiz convosco, eu vos tomarei por meu povo particular, com preferência a todos os outros povos: porque tôda a terra é minha.
6E vós sereis o meu reino sacerdotal, e uma nação santa. Eis aqui o que tu hás de dizer aos filhos de Israel.
7Moisés pois tendo descido, fêz ajuntar os anciãos, e expôs-lhes tudo o que o Senhor lhe tinha mandado que lhes dissesse.
8E todo o povo respondeu a uma voz: Tudo o que o Senhor disse faremos. Referiu Moisés ao Senhor as palavras do povo,
9e o Senhor lhe disse: Brevemente virei a ti numa nuvem escura, para que o povo me ouça falar contigo, e te creia para sempre. Depois que Moisés referiu ao Senhor as palavras do povo,
10êle lhe disse: Vai ter com o povo, e santifica-o hoje, e amanhã. Lavem os seus vestidos,
11e estejam prontos para o terceiro dia: porque no terceiro dia descerá o Senhor à vista de todo o povo sôbre o monte Sinai.
12Tu designarás em roda limites ao povo, e lhe dirás: Guardai-vos, não subais ao monte, nem vos chegueis às suas faldas. Todo o que tocar o monte, morrerá.
13Não o tocará mão de homem; mas êle será ou apedrejado, ou asseteado: quer êle seja bêsta, quer seja homem, não há de mais viver. Quando a trombeta começar a ouvir-se, então subirão ao monte.
14Moisés tendo descido do monte, foi ter com o povo, e o santificou. E depois de todos terem lavado os seus vestidos, êle lhes disse:
15Estais aparelhados para o terceiro dia, e não vos chegueis a vossas mulheres.
16Chegado que foi dia terceiro, quando já era muito dia, eis que se começam a ouvir trovões, e a ver-se fuzilar o ar: uma nuvem mui espessa cobre o monte: soa a trombeta com grande estrondo: e o povo, que estava no campo, todo fica passado de mêdo.
17Então os fêz Moisés abalar do campo para se irem encontrar com o Senhor, e êles ficaram ao sopé do monte.
18Todo o monte Sinai estava cheio de fumo: porque tinha descido o Senhor a êle no meio dos fogos; e daí se elevava o fumo ao alto, como de uma fornalha; e todo o monte metia terror.[2]NO MEIO DOS FOGOS — Dubois Ayné sustentou, com o intento de negar o caráter sobrenatural dêste fato, que se tratava dum vulcão, o que cai pela base, pois que nunca se lhe viu a cratera. Coutelle e Rosière reconheceram que a montanha era granítica, não se encontrando vestígios alguns vulcânicos, o que depois confirma o próprio Dubois, que teve de se desdizer da sua afirmação primitiva.
19O som da trombeta também se ia aumentando pouco a pouco, e era já mais forte, e mais penetrante. Moisés falava a Deus, e Deus lhe respondia.
20E o Senhor tendo descido sôbre o monte Sinai, sôbre o mesmo cume do monte, chamou a Moisés ao mais alto dêle. E tanto que Moisés lá chegou, o Senhor lhe disse:
21Desce, e adverte o povo, não suceda que pelo desejo de ver o Senhor passe êle dos limites, e pereça um grande número dêle.
22Os sacerdotes também, que se chegam ao Senhor, santifiquem-se, não suceda que êle os fira de morte.
23Respondeu Moisés ao Senhor: O povo não poderá subir ao monte de Sinai, visto que tu mesmo me ordenaste expressissimamente, dizendo: Põe limites ao redor do monte, e santifica-o.
24O Senhor lhe disse: Vai, desce: depois subirás tu, e Aarão contigo. Mas os sacerdotes, e o povo não passem dos limites, nem subam onde está o Senhor, não suceda que êle os mate.
25Desceu pois Moisés até onde estava o povo, e contou-lhe tudo o que Deus lhe tinha dito.