Pe. Figueiredo (1950)

Capítulo 30

Ordenações acêrca do altar dos perfumes. Meio siclo, que se deve pagar por cabeça. Bacia de bronze. Óleo santo. Caçoula de cheiros.

1Farás também um altar de pau de cetim para queimar os perfumes.

2Êle terá um côvado de comprido, e outro de largo para ser quadrado. Terá dois côvados de alto, e dos seus ângulos sairão umas pontas.[1]UMAS PONTASDos quatro ângulos da mesa superior do altar saíam umas proeminências ponteagudas, que se chamavam os cornos do altar. Os altares da antiguidade tinham comumente esta forma tanto no Oriente como no Ocidente. O museu do Louvre possui um altar assírio encontrado no palácio de Sargão em Corsabad.

3Cobrirás de finíssimo ouro a mesa dêste altar, e os quatro lados com os seus cornos. E farás uma coroa de ouro, que o apanhe todo em roda,

4e duas argolas de ouro de cada banda debaixo da coroa, para se meterem por elas os varais, que hão de servir para o levarem.

5Farás também êstes varais de pau de cetim, e cobri-los-ás de ouro.

6Porás êste altar defronte do véu, que pende diante da arca do testemunho, e diante do propiciatório, que cobre a arca do testemunho, onde eu te falarei.

7E Aarão queimará sôbre êle um incenso de suave cheiro. Êle o queimará de manhã, quando preparar as lâmpadas.

8E quando êle as acender de tarde, tornará a queimar do incenso diante do Senhor: o que se observará continuamente entre vós pelo decurso de tôdas as idades.

9Não oferecereis sôbre êste altar perfume doutra composição; nem poreis nêle oblação alguma, nem vítima; nem fareis nêle algum sacrifício de libações.

10Aarão deprecará uma vez no ano sôbre os cornos dêste altar, pondo nêles do sangue da vítima, que tiver sido oferecida pelo pecado: e esta expiação continuará sempre a fazer-se entre vós de geração em geração. Isto será para o Senhor uma coisa santíssima.

11Falou também o Senhor a Moisés, e lhe disse:

12Quando tu fizeres o arrolamento dos filhos de Israel, cada um dará um tanto ao Senhor em preço da sua alma; e êles não serão feridos de praga alguma, depois que êste arrolamento se tiver feito.

13Todos os que se compreenderem neste arrolamento, darão meio siclo, segundo a medida do templo. O siclo tem vinte óbolos. Oferecer-se-á pois ao Senhor meio siclo.[2]MEIO SICLOChamava-se beqá, e valia aproximadamente quatrocentos réis; não era um impôsto pesado. SEGUNDO A MEDIDA DO TEMPLO — Para evitar confusões e dúvidas, e estabelecer a uniformidade, Moisés depositou no templo medidas padrões que se chamavam pesos e medidas do Santuário (Lev 27, 25; Núm 3, 47). Mais tarde foram confiados à guarda dos sacerdotes (1 Par 23, 29). VINTE ÓBOLOS — O óbolo correspondia à sexta parte do Dracma da Grécia, e equivalia à vigésima parte do siclo.

14O que entrar neste arrolamento, isto é, o que tiver vinte anos, daí para cima, dará êste preço.

15O rico não dará mais de meio siclo, e o pobre não dará menos.

16E depois que tiveres recebido o dinheiro que os filhos de Israel terão dado, empregá-lo-ás nos usos do tabernáculo do testemunho para que isto seja um monumento diante do Senhor, e sirva para expiação das suas almas.

17Falou mais o Senhor a Moisés, e lhe disse:

18Farás outrossim uma bacia de metal, e de lavar, com sua base, e pô-la-ás entre o tabernáculo do testemunho, e o altar.[3]UMA BACIA DE METALNão se descreve a forma; em compensação as bacias do templo de Salomão serão minuciosamente descritas. 3 Rs 7.

19E lançada água, Aarão, e seus filhos lavarão nela as suas mãos, e os seus pés,

20quando estiverem para entrar no tabernáculo do testemunho, ou quando se deverem chegar ao altar a oferecer perfumes ao Senhor, para que não suceda serem punidos de morte.

21Esta ordenação será eterna para Aarão, e para todos os da sua posteridade, que lhe houverem de suceder.

22Falou mais o Senhor a Moisés, e lhe disse:

23Toma de aromas quinhentos siclos de mirra da primeira, e da mais excelente; de cinamomo metade desta quantidade, isto é, duzentos e cinquenta siclos, de cana aromática outros duzentos e cinquenta siclos.

24De cássia quinhentos siclos do peso do santuário; e de azeite de oliveiras a medida dum hin.

25De tôdas estas espécies farás um óleo santo para as unções, uma composição odorífera, feita segundo a arte dos que nisto trabalham.

26Com isto ungirás o tabernáculo do testemunho; a arca do testamento;

27a mesa com os seus vasos; o candieiro, e tudo o que nêle serve; o altar dos perfumes,

28e o dos holocaustos, e tudo o que é necessário para o serviço, e culto, que nêles se faz.

29Tu santificarás tôdas estas coisas, e elas ficarão santas, e sagradas. Aquêle, que as tocar, será santificado.

30Com o mesmo ungirás a Aarão, e a seus filhos, e os santificarás para exercitarem as funções do meu sacerdócio.

31Dirás outrossim aos filhos de Israel: Êste óleo para as unções ser-me-á consagrado entre vós, e entre os que de vós nascerem.

32Não se ungirá com êle a carne do homem, nem vós fareis outro da mesma composição; porque êste é santificado, e vós o devereis considerar como santo.

33Todo o que fizer algum semelhante, e o der a algum estrangeiro, será exterminado do meio do seu povo.

34Disse mais o Senhor a Moisés: Toma dos aromas, isto é, de estacte, de onix, de gálbano bem cheiroso, e de incenso o mais luzido, tudo em igual peso.[4]ONIXEm grego significa unha. Segundo a versão geralmente seguida o onix é a concha dum peixe, que se achava no mar Vermelho, semelhante à unha do homem, e que exalava um agradável cheiro a nardo, que era o seu alimento. GÁLBANO — Resina extraída da férula, arbusto que cresce na Síria, na Arábia e na Abissínia. INCENSO — É uma goma-resina obtida pela incisão duma terebintácea denominada pelos antigos Thurifera e a que os modernos chamam Boswelia Thurifera, originária da Arábia. Um incenso queimado só produz um fumo acre e pouco agradável; junta-se-lhe porém benjoim.

35Farás uma caçoula, composta de tôdas estas drogas, segundo a arte dos que nisto trabalham. Misturá-las-ás com tal cuidado, que elas saiam puríssimas, e digníssimas de se me oferecerem.

36Depois de tudo muito bem pisado, e moído, até se reduzir a um pó finíssimo, pô-lo-ás diante do tabernáculo do testemunho, que é o lugar onde eu te aparecerei. Esta caçoula ficará sendo para vós uma coisa sagrada, e inviolável.

37Não fareis outra composição semelhante para vosso uso, porque é consagrada ao Senhor.

38O homem, qualquer que êle seja, que tal composição fizer para se regalar com o seu cheiro, perecerá do meio do seu povo.

O Êxodo, em hebreu chamado veelle semoth, eis-aqui os nomes, em grego êxodos, saída, é o segundo livro do Pentateuco, escrito por Moisés; conta-nos o cativeiro dos israelitas no Egito, o jugo dos Faraós, e a libertação pela Providência Divina, que suscitou, no meio do povo escolhido, Moisés; narram-se os milagres que acompanharam o têrmo da escravidão; a promulgação da lei no Sinai e a construção do tabernáculo. O Êxodo divide-se em três partes: PRIMEIRA PARTE a) Os acontecimentos que precedem e preparam a saída do Egito: Compreende os doze primeiros capítulos e subdivide-se assim: 1.° Quadro da opressão de Israel, 1 — 2.° História dos primeiros quarenta anos da vida de Moisés, 2 — 3.° Vocação de Moisés e sua volta para o Egito, 3; 4. — 4.° Tentativas inúteis empregadas junto de Faraó para obter a liberdade de Israel, 5; 6 — 5.° Descrição das nove primeiras pragas que não comovem o Faraó, 7-10 — 6.° A décima praga, instituição da Páscoa, morte dos primogénitos e partida precipitada de Israel, 11; 12, 36. SEGUNDA PARTE b) Saída do Egito 12, 37; 18. Contém cinco subdivisões: 1.° Primeiros acampamentos dos hebreus; prescrições para a Páscoa; santificação dos primogênitos; aparição da coluna de nuvens, 12, 37; 13 — 2.° Passagem do Mar Vermelho, 14; 15, 21 — 3.° Viagem dos israelitas e primeiras estações no deserto; o maná: a água milagrosa, 15, 22; 17, 7 — 4.° Vitória alcançada sôbre os Amalecitas, 17, 8-16 — 5.° Visita de Jetro, 18. TERCEIRA PARTE c) Promulgação da lei no Monte Sinai e construção do tabernáculo: Abrange os capítulos 19-40. Subdivide-se: 1.° Conclusão da aliança entre Deus e os hebreus; chegada ao Sinai e preparativos para a promulgação da lei, 19 — 2.° Decálogo, 20 — 3.° Primeiras leis, 21-23, 19 — 4.° Advertências sôbre o ingresso na terra do Canaã, 23, 20; 24, 11 — 5.° Prescrições relativas à construção da Arca e do Tabernáculo, 24, 12; 27 — 6.° Prescrições referentes ao sacerdócio, 28-30 — 7.° Vocação de Belezeel, 31, 1-12 — 8.° A lei de sábado, 31, 12-18 — 9.° A apostasia do povo, adorando o bezerro de ouro; o arrependimento e a oração de Moisés, 32-35. — 10.° Construção do Tabernáculo 35-40. Por aqui se vê que êste livro é a continuação da história da formação da nacionalidade hebraica, e nêle encontramos bem traçada a figura do próprio autor, o grande legislador dos hebreus — Moisés — seu caráter, e a sua obra, obra importantíssima, que seria inexplicável se não recorrermos à intervenção da Providência, como o faz sinceramente o autor sagrado, que coloca sob os nossos olhos a ação de Deus manifestada em favor do seu povo, por tantas, tão variadas e tão evidentes formas.
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