Pe. Figueiredo (1950)

Capítulo 9

Quinta praga, a peste nos animais. Sexta, as úlceras. Sétima, a da chuva de pedra.

1Disse o Senhor a Moisés: Entra a Faraó, e dize-lhe: Eis aqui o que diz o Senhor Deus dos hebreus: Deixa ir o meu povo a fazer-me sacrifício.

2Se o recusas fazer, e o reténs ainda,

3será a minha mão sôbre os teus campos: e os cavalos, os jumentos, os camelos, os bois, e as ovelhas serão tocados de uma peste perniciosíssima.[1]UMA PESTE PERNICIOSÍSSIMAÉ sabido que no Delta os campos estão de tal modo povoados por animais, que em parte alguma do mundo se vê tão grande número. Esta praga acarretava graves danos, representando uma perda considerável. A peste devia ter sido a epizootia, que ainda agora é frequente no Delta. Por muito vulgar que seja esta doença, o que só pode suceder por um milagre, é o anúncio da sua aparição.

4E o Senhor fará a maravilha de separar o que pertence aos filhos de Israel, do que pertence aos egípcios: de sorte que não pereça nada do que os filhos de Israel possuem.

5O mesmo Senhor foi o que designou o tempo, declarando que amanhã fará êle esta maravilha.[2]AMANHÃ FARÁ ÊLE ESTA MARAVILHAOrígenes escreve: "Ainda que êstes prodígios sejam naturais, contudo êles manifestam que têm Deus por autor, que assim castigava a tirania de Faraó." Orígenes, Comment. in Mat.

6Ao outro dia pois fêz o Senhor o que tinha dito: todos os animais dos egípcios morreram, e não pereceu nenhum dos dos filhos de Israel.

7Mandou Faraó ver, e achou-se que nada do que possuíam os filhos de Israel estava morto. Mas o coração de Faraó se endureceu, e êle não quis deixar ir o povo.

8Então disse o Senhor a Moisés, e a Aarão: Tomai cada um de vós sua mão cheia de cinza da chaminé, e Moisés deite a sua ao ar diante de Faraó:

9e espalhe-se êste pó por todo o Egito; e daqui se formarão umas úlceras, e uns tumores nos homens, e nos animais por todo o Egito.[3]NOS HOMENS E NOS ANIMAISO Egito foi sempre uma região muito salubre; as inundações do Nilo, que à primeira vista deviam tornar aquela região doentia, não produzem efeitos perniciosos. As correntes de vento, a proximidade dos desertos da África e da Arábia, absorvem tôdas as exalações miasmáticas. Por isto esta praga deveria, por ser rara, causar profunda impressão entre aquêle povo. É impossível determinar exatamente qual foi a peste com que Deus feriu os egípcios, e que atacou simultâneamente homens e animais; Glaire (ob. cit.), inclina-se a que fôsse o carbúnculo. Foi uma espécie de peste, milagrosa pela forma como Moisés a predizia, e que vai descrita no v. seguinte.

10Tendo êles pois tomado da cinza da chaminé, se apresentaram ambos a Faraó; e Moisés a lançou ao ar. Ao mesmo tempo se formaram úlceras e tumores nos homens e nos animais.

11E os mágicos não podiam ter-se diante de Moisés, por causa das úlceras, que lhes tinham sobrevindo, como a tôda a terra do Egito.

12O Senhor endureceu o coração de Faraó, e êste não ouviu a Moisés, nem a Aarão, conforme o Senhor o tinha predito por Moisés.

13Tornou o Senhor a dizer a Moisés: Levanta-te logo ao amanhecer, e apresenta-te diante de Faraó, e dize-lhe: Eis aqui o que diz o Senhor Deus dos hebreus: Deixa ir o meu povo, para que êle me ofereça sacrifícios.

14Porque desta vez farei eu cair tôdas as minhas pragas sôbre o teu coração, sôbre os teus servos, e sôbre o teu povo; para que tu saibas que não há quem seja semelhante a mim em tôda a terra.

15Agora pois estenderei eu a minha mão, e ferirei de peste a ti, e ao teu povo, e tu perecerás de cima da terra.

16Porque eu para isso te pus, para que em ti se desse bem a ver a minha fortaleza, e para que o meu nome se fizesse célebre em tôda a terra.

17Pois que? ainda tu reténs o meu povo, e ainda o não queres deixar ir?

18Pois sabe que amanhã, a esta mesma hora, farei eu chover uma horrível pedra, qual se não viu nunca semelhante no Egito, desde que êle foi fundado até o dia de hoje.[4]QUAL SE NÃO VIU NUNCA SEMELHANTENunca no Egito se tinha visto tão violenta saraivada. No vale do Nilo são raríssimos êstes acontecimentos; até a chuva é muito rara no Delta. Algumas vêzes chove nas proximidades do canal de Suez, depois de ser cortado o istmo.

19Manda pois já desde agora ao campo, e recolhe os teus animais, e tudo o que tens: porque homens, animais, e tudo o que se achar fora, e não tiver sido recolhido dos campos, todos morrerão feridos da pedra.[5]RECOLHE OS ANIMAISTêm alguns pretendido encontrar uma contradição entre êste v. e o 6, onde se lê "Todos os animais dos egípcios morreram." Porém, tal contradição não existe; 1.° No v. 6 refere-se o autor aos animais que estavam nos campos (V. 3 será a minha mão sôbre os teus campos). 2.° O texto pode muito bem entender-se de todos os animais, não tomados individualmente, mas considerados em relação à própria espécie, de maneira que o sentido seja: tôda a espécie de animais. Esta interpretação é confirmada pelos versículos 9 e 10, em que o autor sagrado, quase imediatamente depois de ter dito que "todos os animais morreram", na quinta praga, acrescenta que a morte atingiu não só os homens como os animais.

20Aqueles dos servos de Faraó, que temeram a palavra do Senhor, fizeram retirar os seus servos, e os seus animais para suas casas.

21Aqueles porém, que desprezaram a palavra, que o Senhor tinha dito, deixaram os seus servos, e os seus animais nos campos.

22Então disse o Senhor a Moisés: Estende a tua mão para o céu, para que chova pedra em todo o Egito sôbre homens, sôbre animais, e sôbre tôda a erva do campo.

23Tendo Moisés levantado a sua vara para o céu, fez o Senhor cair uma chuva de pedra sôbre a terra, no meio de trovões, e de relâmpagos, que descorriam pelo ar de tôdas as partes. Assim fêz o Senhor chover pedra sôbre a terra do Egito.[6]TENDO MOISÉS LEVANTADO A SUA VARAComo os precedentes, êste flagelo começa por um sinal dado por Moisés, às ordens de Deus, e êste fato basta para estabelecer o caráter miraculoso.

24A pedra, e o fogo, misturados um com outro, caíam ambos juntos: e era esta pedra duma tal grossura, que nunca antes se tinha visto outra semelhante no Egito, desde que esta nação fôra estabelecida.

25Em tôda a terra do Egito matou a pedra tudo o que se achava nos campos, desde os homens até os animais; ela queimou tôda a erva da campanha, e fendeu tôdas as árvores.

26Só na terra de Gessen, onde estavam os filhos de Israel, não caiu pedra.[7]SÓ NA TERRA DE GESSENEsta proteção dispensada por Deus ao seu povo, é a confirmação da intervenção sobrenatural do Senhor.

27Então mandou Faraó chamar a Moisés, e a Aarão, e lhes disse: Eu pequei ainda desta vez. O Senhor é justo; eu, e o meu povo somos uns ímpios.

28Rogai ao Senhor, que cessem êstes grandes trovões, e pedras; para que eu vos deixe ir, e vós não fiqueis mais aqui.

29Moisés lhe respondeu: Depois que eu tiver saído da cidade, estenderei as minhas mãos para o Senhor, e cessarão os trovões, e não choverá mais pedra; para que tu saibas que a terra é do Senhor.

30Mas eu sei que tu, e o teu povo ainda não temeis o Senhor.

31O linho pois, e a cevada perderam-se, porque a cevada já tinha lançado a sua espiga, e o linho começava a deitar folhelho.

32O trigo porém, e o farro não padeceram danificação, porque eram serôdios.

33Moisés depois que deixou a Faraó, e saiu da cidade, levantou as mãos ao Senhor, e cessaram os trovões, e a pedra, e não choveu mais uma gôta d'água sôbre a terra.

34Mas Faraó vendo que tinham cessado a chuva, a pedra, e os trovões, aumentou ainda o seu pecado.

35O seu coração, e o de seus servos se tornou ainda mais pesado, e ainda mais endurecido: e êle não deixou sair os filhos de Israel, nem quis obedecer à ordem, que tinha recebido de Deus por meio de Moisés.

O Êxodo, em hebreu chamado veelle semoth, eis-aqui os nomes, em grego êxodos, saída, é o segundo livro do Pentateuco, escrito por Moisés; conta-nos o cativeiro dos israelitas no Egito, o jugo dos Faraós, e a libertação pela Providência Divina, que suscitou, no meio do povo escolhido, Moisés; narram-se os milagres que acompanharam o têrmo da escravidão; a promulgação da lei no Sinai e a construção do tabernáculo. O Êxodo divide-se em três partes: PRIMEIRA PARTE a) Os acontecimentos que precedem e preparam a saída do Egito: Compreende os doze primeiros capítulos e subdivide-se assim: 1.° Quadro da opressão de Israel, 1 — 2.° História dos primeiros quarenta anos da vida de Moisés, 2 — 3.° Vocação de Moisés e sua volta para o Egito, 3; 4. — 4.° Tentativas inúteis empregadas junto de Faraó para obter a liberdade de Israel, 5; 6 — 5.° Descrição das nove primeiras pragas que não comovem o Faraó, 7-10 — 6.° A décima praga, instituição da Páscoa, morte dos primogénitos e partida precipitada de Israel, 11; 12, 36. SEGUNDA PARTE b) Saída do Egito 12, 37; 18. Contém cinco subdivisões: 1.° Primeiros acampamentos dos hebreus; prescrições para a Páscoa; santificação dos primogênitos; aparição da coluna de nuvens, 12, 37; 13 — 2.° Passagem do Mar Vermelho, 14; 15, 21 — 3.° Viagem dos israelitas e primeiras estações no deserto; o maná: a água milagrosa, 15, 22; 17, 7 — 4.° Vitória alcançada sôbre os Amalecitas, 17, 8-16 — 5.° Visita de Jetro, 18. TERCEIRA PARTE c) Promulgação da lei no Monte Sinai e construção do tabernáculo: Abrange os capítulos 19-40. Subdivide-se: 1.° Conclusão da aliança entre Deus e os hebreus; chegada ao Sinai e preparativos para a promulgação da lei, 19 — 2.° Decálogo, 20 — 3.° Primeiras leis, 21-23, 19 — 4.° Advertências sôbre o ingresso na terra do Canaã, 23, 20; 24, 11 — 5.° Prescrições relativas à construção da Arca e do Tabernáculo, 24, 12; 27 — 6.° Prescrições referentes ao sacerdócio, 28-30 — 7.° Vocação de Belezeel, 31, 1-12 — 8.° A lei de sábado, 31, 12-18 — 9.° A apostasia do povo, adorando o bezerro de ouro; o arrependimento e a oração de Moisés, 32-35. — 10.° Construção do Tabernáculo 35-40. Por aqui se vê que êste livro é a continuação da história da formação da nacionalidade hebraica, e nêle encontramos bem traçada a figura do próprio autor, o grande legislador dos hebreus — Moisés — seu caráter, e a sua obra, obra importantíssima, que seria inexplicável se não recorrermos à intervenção da Providência, como o faz sinceramente o autor sagrado, que coloca sob os nossos olhos a ação de Deus manifestada em favor do seu povo, por tantas, tão variadas e tão evidentes formas.
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