Pe. Figueiredo (1950)

Capítulo 11

Predição da décima e última praga.

1E o Senhor disse a Moisés: Ainda tenho de ferir a Faraó, e ao Egito com uma praga: E então depois disto êle vos deixará ir, e até vos dará pressa a que saiais.

2Dize pois a todo o povo: Que cada homem peça ao seu amigo, e cada mulher à sua vizinha vasos de prata e ouro.[1]QUE CADA HOMEM PEÇA AO SEU AMIGONão é dum roubo que se trata, mas sim duma compensação dos bens imóveis, que eram consideráveis, e que êles abandonariam aos egípcios desde que partissem.

3E o Senhor fará que o seu povo ache graça diante dos egípcios. Ora Moisés tinha adquirido uma grande autoridade em todo o Egito, assim aos olhos dos servos de Faraó, como aos de todo o seu povo.

4Êle pois disse: Eis-aqui o que disse o Senhor: Eu sairei à meia noite a correr o Egito.[2]A MEIA NOITENão diz o texto que é a meia noite seguinte, mas numa noite que fica indeterminada, para que maior seja o castigo dos egípcios.

5E todos os primogénitos morrerão nas terras do Egito, desde o primogénito de Faraó, que está assentado no seu trono, até o primogénito da escrava, que está à mó do moinho, e até os primogénitos dos animais.[3]DESDE O PRIMOGÉNITO DE FARAÓÉ claro que neste verso se fala dum milagre extraordinário, cuja realização vem narrada no v. 29 do capítulo seguinte.

6Em todo o Egito se ouvirão grandes gritos, quais nunca antes houve, nem haverá jamais.

7Mas entre todos os filhos de Israel, desde os homens até os animais, não se ouvirá nem ganir um cão; para que vós saibais com que grande milagre divide o Senhor a Israel dos egípcios.

8Então todos os teus servos, que tu vês aqui, virão ter comigo, e me adorarão, e me dirão: Sai tu, e todo o povo, que te está sujeito. E depois disto sairemos nós.

9E Moisés saiu da presença de Faraó muito irado. E o Senhor disse a Moisés: Faraó não vos ouvirá, para que se faça um grande número de prodígios no Egito.

10Ainda que pois Moisés, e Aarão fizeram diante de Faraó todos os prodígios, que estão escritos, o Senhor endureceu o coração dêste príncipe, que não permitiu que os filhos de Israel saíssem das suas terras.

O Êxodo, em hebreu chamado veelle semoth, eis-aqui os nomes, em grego êxodos, saída, é o segundo livro do Pentateuco, escrito por Moisés; conta-nos o cativeiro dos israelitas no Egito, o jugo dos Faraós, e a libertação pela Providência Divina, que suscitou, no meio do povo escolhido, Moisés; narram-se os milagres que acompanharam o têrmo da escravidão; a promulgação da lei no Sinai e a construção do tabernáculo. O Êxodo divide-se em três partes: PRIMEIRA PARTE a) Os acontecimentos que precedem e preparam a saída do Egito: Compreende os doze primeiros capítulos e subdivide-se assim: 1.° Quadro da opressão de Israel, 1 — 2.° História dos primeiros quarenta anos da vida de Moisés, 2 — 3.° Vocação de Moisés e sua volta para o Egito, 3; 4. — 4.° Tentativas inúteis empregadas junto de Faraó para obter a liberdade de Israel, 5; 6 — 5.° Descrição das nove primeiras pragas que não comovem o Faraó, 7-10 — 6.° A décima praga, instituição da Páscoa, morte dos primogénitos e partida precipitada de Israel, 11; 12, 36. SEGUNDA PARTE b) Saída do Egito 12, 37; 18. Contém cinco subdivisões: 1.° Primeiros acampamentos dos hebreus; prescrições para a Páscoa; santificação dos primogênitos; aparição da coluna de nuvens, 12, 37; 13 — 2.° Passagem do Mar Vermelho, 14; 15, 21 — 3.° Viagem dos israelitas e primeiras estações no deserto; o maná: a água milagrosa, 15, 22; 17, 7 — 4.° Vitória alcançada sôbre os Amalecitas, 17, 8-16 — 5.° Visita de Jetro, 18. TERCEIRA PARTE c) Promulgação da lei no Monte Sinai e construção do tabernáculo: Abrange os capítulos 19-40. Subdivide-se: 1.° Conclusão da aliança entre Deus e os hebreus; chegada ao Sinai e preparativos para a promulgação da lei, 19 — 2.° Decálogo, 20 — 3.° Primeiras leis, 21-23, 19 — 4.° Advertências sôbre o ingresso na terra do Canaã, 23, 20; 24, 11 — 5.° Prescrições relativas à construção da Arca e do Tabernáculo, 24, 12; 27 — 6.° Prescrições referentes ao sacerdócio, 28-30 — 7.° Vocação de Belezeel, 31, 1-12 — 8.° A lei de sábado, 31, 12-18 — 9.° A apostasia do povo, adorando o bezerro de ouro; o arrependimento e a oração de Moisés, 32-35. — 10.° Construção do Tabernáculo 35-40. Por aqui se vê que êste livro é a continuação da história da formação da nacionalidade hebraica, e nêle encontramos bem traçada a figura do próprio autor, o grande legislador dos hebreus — Moisés — seu caráter, e a sua obra, obra importantíssima, que seria inexplicável se não recorrermos à intervenção da Providência, como o faz sinceramente o autor sagrado, que coloca sob os nossos olhos a ação de Deus manifestada em favor do seu povo, por tantas, tão variadas e tão evidentes formas.
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