Capítulo 8
1Tornou o Senhor a dizer a Moisés: Entra a Faraó, e dir-lhe-ás: Eis-aqui o que diz o Senhor: Deixa ir o meu povo, para me oferecer sacrifícios.
2Se o não quiseres deixar ir, eu ferirei tôdas as tuas terras, cobrindo-as de rãs.[1]COBRINDO-AS DE RÃS — A palavra hebraica a que a vulgata deu a significação de rã é trefardéia, que Fr. Delitzsch entende ser primitivamente um têrmo genérico, que significa ao mesmo tempo sapo e rã.
3O rio produzirá um fervedouro de rãs, que entrarão na tua casa, e na câmara, onde tu dormes, e subirão ao teu leito; que entrarão nas casas dos teus servos, e nas do teu povo; que passarão até aos teus fornos; e que se porão até nos sobejos dos teus pratos.
4Tu, o teu povo, e os teus servos, todos vós sereis atormentados de rãs.
5Disse pois o Senhor a Moisés: Dize a Aarão: Estende a tua mão sôbre os rios, sôbre os regatos, e lagos, e faze sair rãs por tôda a terra do Egito.
6Estendeu Aarão a sua mão sôbre as águas do Egito, e saíram delas rãs, que cobriram o Egito.[2]E SAÍRAM DELAS AS RÃS — Esta praga era também conhecida dos egípcios, porque desde a mais remota antiguidade os indígenas confiavam à deusa Hiqt o cuidado de extermínio dêstes animais, para que fôssem poupados aos incómodos por êles causados. Êste culto, segundo a opinião do padre Bohnem, remonta à quinta dinastia. O Padre Noory encontrou no museu de Boulac uma divindade com a cabeça de rã. É certo que o Nilo era abundante de rãs. Nilus quidem ranes abundat, mas tôdas as circunstâncias que revestem êste acontecimento indicam o milagre, at circumstantiae omnes miraculi naturam indicant, Zschokke, Historia sacra antiqui Testamenti, pag. 56. A aparição súbita, e a cessação repentina no dia pedido pelo Faraó (v. 10), constituem a primeira nota característica do milagre. A multiplicação prodigiosa dêstes animais, cobrindo tôda a terra do Egito, em tal quantidade, que depois de finalizar esta praga, os seus cadáveres fizeram grandes montões, que infeccionaram a terra (v. 14) proclama a sobrenaturalidade dêste castigo.
7Os mágicos fizeram também a mesma coisa por meio dos seus encantos, e fizeram vir rãs sôbre a terra do Egito.[3]OS MÁGICOS FIZERAM TAMBÉM A MESMA COISA — Esta insistência de Moisés em notar o que fizeram os mágicos é uma prova de autenticidade e veracidade. Um escritor estranho e posterior aos fatos narrados, não os podia contar com tanta minuciosidade e imparcialidade.
8Faraó pois chamou a Moisés, e a Aarão, e lhes disse: Rogai ao Senhor, que nos livre a mim, e ao meu povo destas rãs: e eu deixarei ir o povo, para que êle sacrifique ao Senhor.
9Moisés respondeu a Faraó: Aponta-me o tempo, em que tu queres que eu rogue por ti, pelos teus servos, e pelo teu povo, a fim de que as rãs sejam lançadas para longe de ti, e da tua casa, dos teus servos, e do teu povo; e não as haja mais, senão no rio.
10Seja amanhã, respondeu Faraó. Eu farei, prosseguiu Moisés, o que tu me pedes, para saberes que não há quem seja como o Senhor nosso Deus.
11As rãs retirar-se-ão de ti, de teus servos, e do teu povo; e não as haverá mais, senão no rio.
12Tendo Moisés e Aarão saído da presença de Faraó, clamou Moisés ao Senhor pelo cumprimento da promessa, que êle tinha feito a Faraó, de o livrar das rãs no dia ajustado.
13E o Senhor fêz o que Moisés lhe pedira; e as rãs morreram pelas casas, pelas aldeias, e pelos campos.
14Fizeram-se grandes montões delas, e a terra ficou infeccionada.
15Mas Faraó, vendo que se lhe tinha dado algum descanso, endureceu o seu coração, e não deu ouvidos a Moisés, nem a Aarão, nem obedeceu ao que o Senhor tinha mandado.
16Então disse o Senhor a Moisés: Dize a Aarão: Estende a tua vara, e fere o pó da terra; tôda a terra do Egito se encha de mosquitos.[4]SE ENCHA DE MOSQUITOS — Êstes insetos, kinnim no hebreu, são os mosquitos, flagelo ordinário do Egito. Heródoto descreve-o na sua história. Perseguem os homens por tôdas as formas, perturbam o sono, ferem com as suas mordeduras, muito perigosas no tempo úmido e fresco, e sempre dolorosas. No fim da cheia são frequentes, e não se pode dispensar o mosquiteiro para a noite, durante o sono. Nos monumentos vêem-se gravados os reis acompanhados de escravos com enormes leques — flabelos — que os livram dos mosquitos.
17Fizeram êles o que lhes ordenara. E Aarão, pegando na vara, estendeu a mão, e feriu o pó da terra: e homens, e bêstas foram todos cobertos de mosquitos, e todo o pó da terra se converteu em mosquitos por todo o Egito.[5]E FERIU O PÓ DA TERRA — O caráter miraculoso desta praga, aliás frequente no Egito, consiste exatamente nisto, na abundância nunca igualada dêstes insetos, e na ocasião em que se deu, que não era a estação em que os mosquitos costumam infestar o Egito.
18Intentaram os mágicos fazer a mesma coisa com os seus encantamentos, e produzir destes mosquitos; mas não o puderam conseguir: e homens, e animais estavam cobertos dêles.
19Então disseram os mágicos a Faraó: O dedo de Deus é o que obra aqui. Mas o coração de Faraó se endureceu, e não ouviu a Moisés, nem a Aarão, nem quis obedecer ao que o Senhor tinha mandado.
20Tornou o Senhor a dizer a Moisés: Levanta-te logo pela madrugada, e apresenta-te a Faraó: Porque êle há de sair às águas, e tu lhe dirás: Eis-aqui o que diz o Senhor: Deixa ir o meu povo a sacrificar-me.
21Se tu o não deixares ir, mandarei eu contra ti, contra os teus servos, contra o teu povo, e às tuas casas tôda a casta de moscas; e tôdas as casas dos egípcios, e todos os lugares, onde êles se acharem, serão cheios de tôda a casta de moscas.[6]TÔDA A CASTA DE MOSCAS — Não é fácil determinar o sentido preciso do têrmo hebraico 'arob. Derivado do verbo 'arab, que significa misturar; também significa musca canina, e segundo outros tôda a espécie de moscas de diversos gêneros. Wood, Bible animals, diz que os enxames dêstes insetos são tão numerosos, que o viajante come, bebe e respira moscas. São intoleráveis, porque atacam as pálpebras e os cantos dos olhos, atraídas pela umidade dos lacrimais.
22E eu farei admirável naquele dia a terra de Gessen, onde habita o meu povo, com se não achar nela mosca de casta alguma; para que tu saibas, que eu é que sou o Senhor de tôda a terra.[7]FAREI ADMIRÁVEL... A TERRA DE GESSEN — Esta exceção constitui uma das provas do caráter sobrenatural dêste flagelo; só por um milagre o povo que habitava aquela região seria poupado e livre de tão funesto castigo.
23Eu porei esta diferença entre o meu povo, e o teu povo. Amanhã se fará êste portento.
24Fêz o Senhor o que tinha dito. Uma infinidade de malignas moscas infestou as casas de Faraó, e as de seus servos, e a todo o Egito; e a terra se corrompeu por esta casta de moscas.
25Então chamou Faraó a Moisés, e a Aarão, e lhes disse: Ide sacrificar ao vosso Deus nesta terra.
26Respondeu Moisés: Isto não se pode fazer assim porque então imolaremos nós ao Senhor nosso Deus, o que os egípcios têm por uma abominação. Se nós matarmos diante dos egípcios o que êles adoram, êles nos apedrejarão.
27Devemos logo ir ao deserto caminho de três dias, e sacrificar lá ao Senhor nosso Deus, como êle nos mandou.
28E Faraó lhes disse: Eu vos deixarei ir ao deserto a sacrificardes ao Senhor vosso Deus; mas não vades mais longe: e rogai a Deus por mim.
29Respondeu Moisés: Tanto que eu tiver saído da tua presença, eu rogarei o Senhor: e amanhã tôdas as moscas se retirarão de Faraó, de seus servos, e do seu povo. Mas não me tornes a enganar, não deixando ainda sair o povo a sacrificar ao Senhor.[8]E AMANHÃ TÔDAS AS MOSCAS SE RETIRARÃO — O princípio e o fim desta praga são anunciados por Moisés; êste castigo tem lugar no mês de fevereiro ou março, isto é, a seis meses de distância da estação em que as moscas infestam o Egito; eis aqui outros tantos sinais do caráter miraculoso desta quarta praga, dos quais não é o menor êste anúncio do seu final.
30Moisés tendo saído de diante de Faraó, fêz oração ao Senhor.
31E o Senhor fêz o que Moisés lhe tinha pedido. Lançou fora tôdas as moscas, que atormentavam a Faraó, aos seus servos, e ao seu povo, sem ficar nem uma.
32Mas o coração de Faraó se obdurou, e assim ainda desta vez não quis êle deixar ir o povo.