Pe. Figueiredo (1950)

Capítulo 8

Segunda praga, a das rãs. Terceira, a dos mosquitos. Quarta, a das moscas. Vãs promessas de Faraó.

1Tornou o Senhor a dizer a Moisés: Entra a Faraó, e dir-lhe-ás: Eis-aqui o que diz o Senhor: Deixa ir o meu povo, para me oferecer sacrifícios.

2Se o não quiseres deixar ir, eu ferirei tôdas as tuas terras, cobrindo-as de rãs.[1]COBRINDO-AS DE RÃSA palavra hebraica a que a vulgata deu a significação de rã é trefardéia, que Fr. Delitzsch entende ser primitivamente um têrmo genérico, que significa ao mesmo tempo sapo e rã.

3O rio produzirá um fervedouro de rãs, que entrarão na tua casa, e na câmara, onde tu dormes, e subirão ao teu leito; que entrarão nas casas dos teus servos, e nas do teu povo; que passarão até aos teus fornos; e que se porão até nos sobejos dos teus pratos.

4Tu, o teu povo, e os teus servos, todos vós sereis atormentados de rãs.

5Disse pois o Senhor a Moisés: Dize a Aarão: Estende a tua mão sôbre os rios, sôbre os regatos, e lagos, e faze sair rãs por tôda a terra do Egito.

6Estendeu Aarão a sua mão sôbre as águas do Egito, e saíram delas rãs, que cobriram o Egito.[2]E SAÍRAM DELAS AS RÃSEsta praga era também conhecida dos egípcios, porque desde a mais remota antiguidade os indígenas confiavam à deusa Hiqt o cuidado de extermínio dêstes animais, para que fôssem poupados aos incómodos por êles causados. Êste culto, segundo a opinião do padre Bohnem, remonta à quinta dinastia. O Padre Noory encontrou no museu de Boulac uma divindade com a cabeça de rã. É certo que o Nilo era abundante de rãs. Nilus quidem ranes abundat, mas tôdas as circunstâncias que revestem êste acontecimento indicam o milagre, at circumstantiae omnes miraculi naturam indicant, Zschokke, Historia sacra antiqui Testamenti, pag. 56. A aparição súbita, e a cessação repentina no dia pedido pelo Faraó (v. 10), constituem a primeira nota característica do milagre. A multiplicação prodigiosa dêstes animais, cobrindo tôda a terra do Egito, em tal quantidade, que depois de finalizar esta praga, os seus cadáveres fizeram grandes montões, que infeccionaram a terra (v. 14) proclama a sobrenaturalidade dêste castigo.

7Os mágicos fizeram também a mesma coisa por meio dos seus encantos, e fizeram vir rãs sôbre a terra do Egito.[3]OS MÁGICOS FIZERAM TAMBÉM A MESMA COISAEsta insistência de Moisés em notar o que fizeram os mágicos é uma prova de autenticidade e veracidade. Um escritor estranho e posterior aos fatos narrados, não os podia contar com tanta minuciosidade e imparcialidade.

8Faraó pois chamou a Moisés, e a Aarão, e lhes disse: Rogai ao Senhor, que nos livre a mim, e ao meu povo destas rãs: e eu deixarei ir o povo, para que êle sacrifique ao Senhor.

9Moisés respondeu a Faraó: Aponta-me o tempo, em que tu queres que eu rogue por ti, pelos teus servos, e pelo teu povo, a fim de que as rãs sejam lançadas para longe de ti, e da tua casa, dos teus servos, e do teu povo; e não as haja mais, senão no rio.

10Seja amanhã, respondeu Faraó. Eu farei, prosseguiu Moisés, o que tu me pedes, para saberes que não há quem seja como o Senhor nosso Deus.

11As rãs retirar-se-ão de ti, de teus servos, e do teu povo; e não as haverá mais, senão no rio.

12Tendo Moisés e Aarão saído da presença de Faraó, clamou Moisés ao Senhor pelo cumprimento da promessa, que êle tinha feito a Faraó, de o livrar das rãs no dia ajustado.

13E o Senhor fêz o que Moisés lhe pedira; e as rãs morreram pelas casas, pelas aldeias, e pelos campos.

14Fizeram-se grandes montões delas, e a terra ficou infeccionada.

15Mas Faraó, vendo que se lhe tinha dado algum descanso, endureceu o seu coração, e não deu ouvidos a Moisés, nem a Aarão, nem obedeceu ao que o Senhor tinha mandado.

16Então disse o Senhor a Moisés: Dize a Aarão: Estende a tua vara, e fere o pó da terra; tôda a terra do Egito se encha de mosquitos.[4]SE ENCHA DE MOSQUITOSÊstes insetos, kinnim no hebreu, são os mosquitos, flagelo ordinário do Egito. Heródoto descreve-o na sua história. Perseguem os homens por tôdas as formas, perturbam o sono, ferem com as suas mordeduras, muito perigosas no tempo úmido e fresco, e sempre dolorosas. No fim da cheia são frequentes, e não se pode dispensar o mosquiteiro para a noite, durante o sono. Nos monumentos vêem-se gravados os reis acompanhados de escravos com enormes leques — flabelos — que os livram dos mosquitos.

17Fizeram êles o que lhes ordenara. E Aarão, pegando na vara, estendeu a mão, e feriu o pó da terra: e homens, e bêstas foram todos cobertos de mosquitos, e todo o pó da terra se converteu em mosquitos por todo o Egito.[5]E FERIU O PÓ DA TERRAO caráter miraculoso desta praga, aliás frequente no Egito, consiste exatamente nisto, na abundância nunca igualada dêstes insetos, e na ocasião em que se deu, que não era a estação em que os mosquitos costumam infestar o Egito.

18Intentaram os mágicos fazer a mesma coisa com os seus encantamentos, e produzir destes mosquitos; mas não o puderam conseguir: e homens, e animais estavam cobertos dêles.

19Então disseram os mágicos a Faraó: O dedo de Deus é o que obra aqui. Mas o coração de Faraó se endureceu, e não ouviu a Moisés, nem a Aarão, nem quis obedecer ao que o Senhor tinha mandado.

20Tornou o Senhor a dizer a Moisés: Levanta-te logo pela madrugada, e apresenta-te a Faraó: Porque êle há de sair às águas, e tu lhe dirás: Eis-aqui o que diz o Senhor: Deixa ir o meu povo a sacrificar-me.

21Se tu o não deixares ir, mandarei eu contra ti, contra os teus servos, contra o teu povo, e às tuas casas tôda a casta de moscas; e tôdas as casas dos egípcios, e todos os lugares, onde êles se acharem, serão cheios de tôda a casta de moscas.[6]TÔDA A CASTA DE MOSCASNão é fácil determinar o sentido preciso do têrmo hebraico 'arob. Derivado do verbo 'arab, que significa misturar; também significa musca canina, e segundo outros tôda a espécie de moscas de diversos gêneros. Wood, Bible animals, diz que os enxames dêstes insetos são tão numerosos, que o viajante come, bebe e respira moscas. São intoleráveis, porque atacam as pálpebras e os cantos dos olhos, atraídas pela umidade dos lacrimais.

22E eu farei admirável naquele dia a terra de Gessen, onde habita o meu povo, com se não achar nela mosca de casta alguma; para que tu saibas, que eu é que sou o Senhor de tôda a terra.[7]FAREI ADMIRÁVEL... A TERRA DE GESSENEsta exceção constitui uma das provas do caráter sobrenatural dêste flagelo; só por um milagre o povo que habitava aquela região seria poupado e livre de tão funesto castigo.

23Eu porei esta diferença entre o meu povo, e o teu povo. Amanhã se fará êste portento.

24Fêz o Senhor o que tinha dito. Uma infinidade de malignas moscas infestou as casas de Faraó, e as de seus servos, e a todo o Egito; e a terra se corrompeu por esta casta de moscas.

25Então chamou Faraó a Moisés, e a Aarão, e lhes disse: Ide sacrificar ao vosso Deus nesta terra.

26Respondeu Moisés: Isto não se pode fazer assim porque então imolaremos nós ao Senhor nosso Deus, o que os egípcios têm por uma abominação. Se nós matarmos diante dos egípcios o que êles adoram, êles nos apedrejarão.

27Devemos logo ir ao deserto caminho de três dias, e sacrificar lá ao Senhor nosso Deus, como êle nos mandou.

28E Faraó lhes disse: Eu vos deixarei ir ao deserto a sacrificardes ao Senhor vosso Deus; mas não vades mais longe: e rogai a Deus por mim.

29Respondeu Moisés: Tanto que eu tiver saído da tua presença, eu rogarei o Senhor: e amanhã tôdas as moscas se retirarão de Faraó, de seus servos, e do seu povo. Mas não me tornes a enganar, não deixando ainda sair o povo a sacrificar ao Senhor.[8]E AMANHÃ TÔDAS AS MOSCAS SE RETIRARÃOO princípio e o fim desta praga são anunciados por Moisés; êste castigo tem lugar no mês de fevereiro ou março, isto é, a seis meses de distância da estação em que as moscas infestam o Egito; eis aqui outros tantos sinais do caráter miraculoso desta quarta praga, dos quais não é o menor êste anúncio do seu final.

30Moisés tendo saído de diante de Faraó, fêz oração ao Senhor.

31E o Senhor fêz o que Moisés lhe tinha pedido. Lançou fora tôdas as moscas, que atormentavam a Faraó, aos seus servos, e ao seu povo, sem ficar nem uma.

32Mas o coração de Faraó se obdurou, e assim ainda desta vez não quis êle deixar ir o povo.

O Êxodo, em hebreu chamado veelle semoth, eis-aqui os nomes, em grego êxodos, saída, é o segundo livro do Pentateuco, escrito por Moisés; conta-nos o cativeiro dos israelitas no Egito, o jugo dos Faraós, e a libertação pela Providência Divina, que suscitou, no meio do povo escolhido, Moisés; narram-se os milagres que acompanharam o têrmo da escravidão; a promulgação da lei no Sinai e a construção do tabernáculo. O Êxodo divide-se em três partes: PRIMEIRA PARTE a) Os acontecimentos que precedem e preparam a saída do Egito: Compreende os doze primeiros capítulos e subdivide-se assim: 1.° Quadro da opressão de Israel, 1 — 2.° História dos primeiros quarenta anos da vida de Moisés, 2 — 3.° Vocação de Moisés e sua volta para o Egito, 3; 4. — 4.° Tentativas inúteis empregadas junto de Faraó para obter a liberdade de Israel, 5; 6 — 5.° Descrição das nove primeiras pragas que não comovem o Faraó, 7-10 — 6.° A décima praga, instituição da Páscoa, morte dos primogénitos e partida precipitada de Israel, 11; 12, 36. SEGUNDA PARTE b) Saída do Egito 12, 37; 18. Contém cinco subdivisões: 1.° Primeiros acampamentos dos hebreus; prescrições para a Páscoa; santificação dos primogênitos; aparição da coluna de nuvens, 12, 37; 13 — 2.° Passagem do Mar Vermelho, 14; 15, 21 — 3.° Viagem dos israelitas e primeiras estações no deserto; o maná: a água milagrosa, 15, 22; 17, 7 — 4.° Vitória alcançada sôbre os Amalecitas, 17, 8-16 — 5.° Visita de Jetro, 18. TERCEIRA PARTE c) Promulgação da lei no Monte Sinai e construção do tabernáculo: Abrange os capítulos 19-40. Subdivide-se: 1.° Conclusão da aliança entre Deus e os hebreus; chegada ao Sinai e preparativos para a promulgação da lei, 19 — 2.° Decálogo, 20 — 3.° Primeiras leis, 21-23, 19 — 4.° Advertências sôbre o ingresso na terra do Canaã, 23, 20; 24, 11 — 5.° Prescrições relativas à construção da Arca e do Tabernáculo, 24, 12; 27 — 6.° Prescrições referentes ao sacerdócio, 28-30 — 7.° Vocação de Belezeel, 31, 1-12 — 8.° A lei de sábado, 31, 12-18 — 9.° A apostasia do povo, adorando o bezerro de ouro; o arrependimento e a oração de Moisés, 32-35. — 10.° Construção do Tabernáculo 35-40. Por aqui se vê que êste livro é a continuação da história da formação da nacionalidade hebraica, e nêle encontramos bem traçada a figura do próprio autor, o grande legislador dos hebreus — Moisés — seu caráter, e a sua obra, obra importantíssima, que seria inexplicável se não recorrermos à intervenção da Providência, como o faz sinceramente o autor sagrado, que coloca sob os nossos olhos a ação de Deus manifestada em favor do seu povo, por tantas, tão variadas e tão evidentes formas.
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