Pe. Figueiredo (1950)

Capítulo 6

Torna Deus a assegurar Moisés, e consola os israelitas. Genealogia de Levi.

1O Senhor disse a Moisés: Agora verás tu o que eu vou a fazer a Faraó: porque eu o constrangerei com a fôrça da minha mão a deixar ir os israelitas; e minha mão poderosa o obrigará a ser êle mesmo quem os faça sair.

2Continuou o Senhor a falar a Moisés, dizendo-lhe: Eu sou o Senhor,

3que apareci a Abraão, Isaac, e Jacó, como o Deus todo poderoso: mas eu não lhes declarei o meu nome Adonai.[1]O MEU NOME ADONAINão quis Moisés dizer que os anteriores patriarcas tivessem ignorado o nome de Deus; não conheceram porém tôda a sua Onipotência, porque não tiveram ocasião de ver o cumprimento das promessas feitas nesse divino nome.

4Eu fiz pacto com êles de lhes dar a terra de Canaã, terra, em que êles moraram como viandantes, e forasteiros.

5Agora ouvi eu os gemidos dos filhos de Israel; vi os trabalhos, com que os egípcios os oprimem; e lembrei-me do meu pacto.

6Por isso dize tu aos filhos de Israel: Eu sou o Senhor, que vos hei de tirar da prisão dos egípcios; que vos hei de livrar da servidão, e que vos hei de resgatar na fôrça do meu braço, e na severidade dos meus juízos.

7Eu vos tomarei por meu povo, e serei o vosso Deus: e vós sabereis que eu sou o Senhor vosso Deus, depois que eu vos tiver tirado da prisão dos egípcios;

8e depois que vos tiver introduzido na terra, sôbre a qual levantei a mão para a dar a Abraão, Isaac, e Jacó, porque eu vo-la darei, e vos meterei de posse dela, eu o Senhor.[2]SÔBRE A QUAL LEVANTEI A MÃO PARA A DARQuer dizer — que eu jurei dar; preferimos traduzir com Glaire (La Sainte Bible traduite), à letra, a vulgata "super quam levavi manum meam", que corresponde ao texto hebraico, afastando-nos assim um pouco da tradução do padre Figueiredo, que verteu "que eu jurei dar", que é o sentido da frase original, pois que levantar a mão era uma cerimónia usual nos juramentos, como êle mesmo adverte.

9Referiu logo Moisés tudo isto aos filhos de Israel: mas êles não lhe deram crédito, por causa da sua extrema aflição, e do excesso dos trabalhos, de que êles se achavam carregados.

10Depois falou o Senhor a Moisés, e lhe disse:

11Vai ter com Faraó, rei do Egito, e fala-lhe, que deixe sair os filhos de Israel da sua terra.

12Moisés respondeu ao Senhor: Tu bem vês que os filhos de Israel me não ouviram: como logo me ouvirá Faraó, principalmente sendo eu, como sou, incircuncidado dos lábios?[3]INCIRCUNCIDADO DOS LÁBIOSNa Sagrada Escritura encontram-se expressões análogas a esta; por exemplo a alma incircuncisa. — (Lev 26, 41) — ouvidos incircuncidados (Jer 6, 10). Por esta incircuncisão deve-se entender uma imperfeição, uma indisposição física ou moral.

13E isto é o que o Senhor disse a Moisés, e a Aarão, quando lhes deu ordem que fôssem ter com os filhos de Israel, e com Faraó, rei do Egito, para fazerem sair do Egito os filhos de Israel.

14Eis aqui os nomes dos príncipes das casas, segundo a ordem das suas famílias. Filhos de Rúben, primogénito de Israel, foram Enoc, Falu, Efron, e Carmi. Estas são as famílias de Rúben.

15Filhos de Simeão foram Jamuel, Jamim, Aod, Jaquim, Soar, e Saul, que era filho duma cananéia. Estas são as famílias de Simeão.

16Eis aqui os nomes dos filhos de Levi, e os das suas famílias: Gérson, Caat e Mérari. O tempo, que viveu Levi, foram cento e trinta e sete anos.

17Filhos de Gérson foram Lobni, e Semei, que cada um teve sua família.

18Filhos de Caat foram Amrão, Isaar, Hebron, e Oziel. O tempo da vida de Caat foram cento e trinta e três anos.

19Filhos de Mérari foram Mooli, e Musi. Êstes são os filhos, que saíram de Levi, cada um na sua família.

20Ora Amrão tomou por mulher a Jecobed, filha de seu tio paterno, da qual êle teve Aarão, e Moisés. E o tempo, que Amrão viveu, foram cento e trinta e sete anos.

21Filhos de Isaar foram Coré, Nefeg, e Zetri.

22Filhos de Oziel foram Mosael, Eliasafan e Setri.

23Aarão tomou por mulher a Isabel, filha de Aminadab, e irmã de Naasson, da qual êle teve Nadab, Abiu, Eleazar e Itamar.

24Filhos de Coré foram Aser, Elcana, e Abiasaef. Estas são as famílias, que saíram de Coré.

25Eleazar, filho de Aarão, tomou por mulher uma das filhas de Futiel, de que êle teve Fineas. Êstes são os chefes das famílias de Levi, que tiveram cada um sua casa.

26Dêste número são Aarão, e Moisés, aquêles, a quem o Senhor mandou, que fizessem sair do Egito os filhos de Israel, cada um na sua turma.

27Aquêles também, que falaram a Faraó, rei do Egito, para fazerem sair do Egito os filhos de Israel. Moisés, e Aarão, digo, foram os que lhe falaram,

28quando o Senhor deu as suas ordens a Moisés no Egito.

29Porque o Senhor falou a Moisés, e lhe disse: Eu sou o Senhor. Dize a Faraó, rei do Egito, tudo o que eu mando que lhe digas.

30E Moisés respondeu ao Senhor: Tu bem vês que eu sou incircuncidado dos lábios: Como logo me ouvirá Faraó?

O Êxodo, em hebreu chamado veelle semoth, eis-aqui os nomes, em grego êxodos, saída, é o segundo livro do Pentateuco, escrito por Moisés; conta-nos o cativeiro dos israelitas no Egito, o jugo dos Faraós, e a libertação pela Providência Divina, que suscitou, no meio do povo escolhido, Moisés; narram-se os milagres que acompanharam o têrmo da escravidão; a promulgação da lei no Sinai e a construção do tabernáculo. O Êxodo divide-se em três partes: PRIMEIRA PARTE a) Os acontecimentos que precedem e preparam a saída do Egito: Compreende os doze primeiros capítulos e subdivide-se assim: 1.° Quadro da opressão de Israel, 1 — 2.° História dos primeiros quarenta anos da vida de Moisés, 2 — 3.° Vocação de Moisés e sua volta para o Egito, 3; 4. — 4.° Tentativas inúteis empregadas junto de Faraó para obter a liberdade de Israel, 5; 6 — 5.° Descrição das nove primeiras pragas que não comovem o Faraó, 7-10 — 6.° A décima praga, instituição da Páscoa, morte dos primogénitos e partida precipitada de Israel, 11; 12, 36. SEGUNDA PARTE b) Saída do Egito 12, 37; 18. Contém cinco subdivisões: 1.° Primeiros acampamentos dos hebreus; prescrições para a Páscoa; santificação dos primogênitos; aparição da coluna de nuvens, 12, 37; 13 — 2.° Passagem do Mar Vermelho, 14; 15, 21 — 3.° Viagem dos israelitas e primeiras estações no deserto; o maná: a água milagrosa, 15, 22; 17, 7 — 4.° Vitória alcançada sôbre os Amalecitas, 17, 8-16 — 5.° Visita de Jetro, 18. TERCEIRA PARTE c) Promulgação da lei no Monte Sinai e construção do tabernáculo: Abrange os capítulos 19-40. Subdivide-se: 1.° Conclusão da aliança entre Deus e os hebreus; chegada ao Sinai e preparativos para a promulgação da lei, 19 — 2.° Decálogo, 20 — 3.° Primeiras leis, 21-23, 19 — 4.° Advertências sôbre o ingresso na terra do Canaã, 23, 20; 24, 11 — 5.° Prescrições relativas à construção da Arca e do Tabernáculo, 24, 12; 27 — 6.° Prescrições referentes ao sacerdócio, 28-30 — 7.° Vocação de Belezeel, 31, 1-12 — 8.° A lei de sábado, 31, 12-18 — 9.° A apostasia do povo, adorando o bezerro de ouro; o arrependimento e a oração de Moisés, 32-35. — 10.° Construção do Tabernáculo 35-40. Por aqui se vê que êste livro é a continuação da história da formação da nacionalidade hebraica, e nêle encontramos bem traçada a figura do próprio autor, o grande legislador dos hebreus — Moisés — seu caráter, e a sua obra, obra importantíssima, que seria inexplicável se não recorrermos à intervenção da Providência, como o faz sinceramente o autor sagrado, que coloca sob os nossos olhos a ação de Deus manifestada em favor do seu povo, por tantas, tão variadas e tão evidentes formas.
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