Capítulo 7
1Então disse o Senhor a Moisés: Eis-aí te constituo eu Deus de Faraó: E Aarão teu irmão será o teu profeta.
2Tu pois dirás a Aarão tudo o que eu te mandei que lhe dissesses: e Aarão falará a Faraó, que deixe sair os filhos de Israel da sua terra.
3Mas eu endurecerei o seu coração, e assinalarei o meu poder no Egito, com um grande número de prodígios, e de maravilhas.[1]PRODÍGIOS E MARAVILHAS — Alusão aos fatos subsequentes, que tão notáveis foram, e que são conhecidos pelo nome de pragas do Egito. Antes de entrar na análise do texto referente a essas pragas, convém fazer umas considerações gerais, que expliquem o sentido destas palavras. Os modernos exegetas reconhecem que a maior parte dêsses prodígios, considerados em si mesmos, são fenômenos naturais, porém são miraculosos por causa das circunstâncias em que se realizaram. O caráter sobrenatural destes prodígios não está nos flagelos, mas na maneira por que êles se deram. (Vigouroux, La Bible et les découvertes modernes, pág. 308.) Glaire é da mesma opinião, e diz que o fato dêsses fenômenos serem conhecidos já pelos egípcios, servia para que ficassem mais impressionados, por isso que eram notórios os seus efeitos, o que não sucedia com um fenômeno desconhecido, cuja importância e perigo não soubessem avaliar. É por êstes males indígenas que importava ferir o Faraó "C'est donc par des maux pour ainsi dire indigènes qu'il importait de frapper Pharaon". (Glaire, Les livres saints vengés, pag. 355), que anteriormente, pag. 354, tinha dito que, considerados êstes prodígios em si mesmos, abstraindo das circunstâncias em que tiveram lugar, poderiam parecer efeitos puramente naturais; mas, tendo em vista as circunstâncias anteriores, concomitantes e subsequentes, terão de ser considerados como verdadeiros milagres. Esta opinião é também sustentada por H. Zschokke, (Historia sacra antiqui testamenti), e está de acôrdo com a teoria dos milagres de S. Tomás, que estabelece três graus, a saber: supra naturam, contra naturam e praeter naturam. "Praeter naturam dicitur Deus facere, quando producit effectum quem naturam producere potest, illo tamen modo quo natura producere non potest, vel quia deficiunt instrumenta quibus natura operatur... vel quia est in opere major multitudo quam natura facere consuevit, sicut patet de ranis quae sunt productae in Ægypto. Quaestiones disputatae. De Miraculis, a 2, ad 3. Veneza". Diz o Angélico Doutor: "Deus opera milagres quando produz um efeito que a natureza pode produzir, mas por modo diverso daquele que a natureza produz, e que ela não pode conseguir, ou porque lhe faltem os costumados meios, ou porque o efeito exceda as fôrças naturais, como se vê na praga das rãs do Egito." As circunstâncias que revelam manifestamente a intervenção sobrenatural, são: a oportunidade e ocasião em que êsses fatos tiveram lugar, com uma precisão e intensidade rigorosas; começam por ordem de Moisés, quando êle o predisse; terminam quando êle mesmo o ordena, e algumas vêzes, no momento que foi fixado pelo Faraó; o país de Gessen não é atingido pelos flagelos; por isso os egípcios reconheceram sempre o caráter extraordinário dêstes prodígios, que são verdadeiros milagres.
4Êle não vos há de ouvir: Mas eu estenderei a minha mão sôbre o Egito; e depois de lhe ter mostrado a severidade dos meus juízos, farei sair o meu exército, e o meu povo.
5E saberão os egípcios que eu sou o Senhor, que estendi a minha mão sôbre o Egito, e que fiz sair do meio dêles os filhos de Israel.[2]E SABERÃO OS EGÍPCIOS QUE EU SOU O SENHOR — Êstes milagres tinham um fim digno da Divindade, a libertação dos hebreus, para que êstes formassem uma nação com leis justas, adorando sempre o Verdadeiro Deus, cujo desígnio era resgatar o gênero humano, desígnio anunciado aos nossos primeiros pais, e realizado pela vinda do Messias. Cf. Janssens, Introduction à l'Écriture Sainte.
6Moisés pois, e Aarão se houveram conforme as ordens, que tinham recebido do Senhor: E eis-aqui o que êles fizeram.
7Moisés tinha oitenta anos, e Aarão oitenta e três, quando falaram a Faraó.
8E o Senhor disse a Moisés, e a Aarão:
9Quando Faraó vos disser, fazei alguns prodígios, dirás tu a Aarão: Pega na tua vara, e põe-na diante de Faraó, e ela se converterá em serpente.
10Tendo pois entrado Moisés, e Aarão a Faraó, conforme o Senhor lhes havia ordenado, lançou Aarão a sua vara diante de Faraó, e dos seus servos, e ela se converteu em serpente.
11Mandou vir Faraó os seus sábios, e mágicos: E êles fizeram também a mesma coisa por meio dos encantos do Egito, e dos segredos da sua arte.[3]MÁGICOS — Êstes mágicos pertenciam à classe sacerdotal. A inscrição de Roseta dá-nos notícia dêste colégio sacerdotal, formando uma verdadeira hierarquia, tendo colégios em Tebas, Mênfis e Heliópolis. S. Paulo diz-nos que os seus chefes se chamavam Janes e Mambrés (2 Tim 3, 8).
12Lançaram cada um as suas varas, e elas se converteram em serpentes. Mas a vara de Aarão devorou as varas dêles.[4]MAS A VARA DE AARÃO DEVOROU AS VARAS DÊLES — Era preciso que o Enviado de Deus não fôsse vencido pelo embuste dos mágicos; por êste prodígio o Faraó devia reconhecer a Onipotência do verdadeiro Deus.
13E o coração de Faraó se endureceu, e êle não deu ouvidos a Moisés, nem a Aarão, nem quis obedecer ao que o Senhor tinha ordenado.
14Então disse o Senhor a Moisés: O coração de Faraó está obdurado: Êle não quer deixar ir o povo.
15Vai ter com êle de manhã: Êle há de sair ao rio: Vai-te encontrar com êle ao longo d'água, levando na mão a tua vara, que se converteu em serpente.
16E dir-lhe-ás: O Senhor Deus dos hebreus me enviou a ti, para te dizer: Deixa ir o meu povo, para que êle me ofereça sacrifícios no deserto: E tu até o presente não tens querido ouvir-me.
17Eis-aqui pois o que diz o Senhor: Nisto conhecerás tu que eu sou o Senhor: Eis-aí ferirei eu a água do rio com a vara, que tenho na minha mão, e essa água se converterá em sangue.
18Os peixes também, que estão no rio, morrerão; as águas se corromperão; e os egípcios, que as beberem, serão atormentados.
19Disse mais o Senhor a Moisés: Dize a Aarão: Toma a tua vara, e estende a tua mão sôbre as águas do Egito, sôbre os rios, sôbre os regatos, sôbre as alagoas, e sôbre as águas de todos os tanques, para que elas se convertam em sangue, e não se veja em todo o Egito senão sangue em todos os vasos, quer sejam de madeira, quer de pedra.
20Fizeram pois Moisés, e Aarão, conforme o Senhor lhes tinha mandado. E Aarão levantando a sua vara, feriu a água do rio à vista de Faraó, e dos seus servos; e a água se converteu em sangue.[5]E A ÁGUA SE CONVERTEU EM SANGUE — É a primeira das dez pragas. Qual é a sua natureza? É fato que todos os anos, no momento da cheia, próximo do mês de julho, o Nilo toma uma côr avermelhada, o que é constatado por muitos e eruditos viajantes, (Osburn, Monument History of Egypt, citado por Vigouroux), e esta coloração dura aproximadamente noventa dias, segundo Bunssen. Têm os homens de ciência procurado a causa dêste fenômeno, que uns atribuem à côr da terra, arrastada pelas águas, desde longa distância, Laborde, (Commentaire geographique de l'Exode,) e outros como Ehremberg, aos infusórios, e grande quantidade de plantas criptogâmicas. Admitindo, porém, que se trata aqui desta coloração natural, as circunstâncias que a acompanham tornam-na miraculosa: produz-se num momento, quando Aarão toca as águas com a sua vara; tem lugar, não no tempo próprio, mas em fevereiro; imprime qualidades tóxicas às águas, o que não sucede com a coloração natural, cuja reputação é antiga e verdadeira, como afirma Ampère, que chega a dizer — para que bebeis vinho, tendo a vossa água do Nilo — (J. J. Ampère, Voyage en Egypte et en Nubie); produz-se em Tanis, onde não era costume dar-se. Por consequência, circunstâncias do tempo, lugar, modo, etc., tornam sobrenatural êste fato, mesmo que se queira considerar, em si, como um fenômeno natural.
21Os peixes, que estavam no rio, morreram; o rio se corrompeu; e os egípcios não podiam beber da água do rio; e todo o Egito era sangue.
22A mesma coisa fizeram os mágicos do Egito com os seus encantos; e o coração de Faraó se impederniu, e êle não quis ouvir a Moisés, nem a Aarão, nem obedecer ao que o Senhor lhe tinha mandado:
23Mas retirou-se de diante dêles, e voltou para sua casa: E ainda desta vez não dobrou o seu coração.
24Todos os egípcios cavaram a terra ao redor do rio, e buscaram água, porque não podiam beber da água do rio.
25E passaram-se sete dias inteiros depois que o Senhor ferira o rio com esta praga.